“Eles não querem que você saiba”
(Créditos fotográficos: Robin Worrall – Unsplash)
Todos os dias são importantes no nosso relógio biológico e na existência. No entanto, há datas que nos fazem olhar para trás e nos predispõem para observarmos a distância percorrida ou as possibilidades de outros caminhos que, obviamente, não nos teriam trazido até aqui. Foi num Verão distante que iniciei a prática jornalística profissional, tendo então sido admitido como candidato à experiência no Diário de Coimbra. Hoje, décadas depois e com uma aprendizagem nem sempre linear – como se isso fosse possível na dinâmica da vida –, já pouco parece contar a tarimba, mesmo para quem partilhava as notícias diárias com os camaradas mais experientes e que, à sua maneira, transmitiam os rudimentos da redacção e a responsabilidade ética da escrita.


Neste momento em que ensaio o texto que vos dou a ler, folheio uma obra de António Lobo Antunes, o qual, na crónica que intitula vagabunda, pergunta: “Para quê falar se é com não-palavras que se comunica?” Na sua narrativa reiteradamente vagabunda, recorda que ele e o seu irmão João, por exemplo, entendiam-se “a maior parte das vezes assim: uma mudança na qualidade do silêncio e chega”. O que lhes permitia, como admite, discursos “compridíssimos num soslaio”. Há silêncios desses mais preciosos do que muitas bibliotecas. Temos bastante a descobrir neste domínio, mas agora interessa-me mais falar da credibilidade do que lemos na espuma dos dias.
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Conheci, ainda recentemente, a investigadora Sylvia Debossan Moretzsohn. Ela tem dedicado muito do seu tempo a pesquisar e a discutir as relações entre o jornalismo e a vida quotidiana, estando atenta às transformações do mundo do trabalho dos jornalistas no contexto das novas tecnologias. Por isso, esta antiga repórter nos principais jornais do Rio de Janeiro sabe o que diz quando se concentra no estudo dos processos de desinformação, procurando identificar as formas contemporâneas de alienação colectiva, sob os tentáculos das “big techs”. Ou seja, avisa-nos dos perigos de manipulação por parte das corporações multinacionais que controlam o mercado digital, que remodelam a economia global e que, sem rodeios nem escrúpulos, impactam o quotidiano dos cidadãos.
Como escreve Sylvia Moretzsohn, as teorias conspiratórias “são sempre muito sedutoras”. Na melhor definição de Paolo Demuru (autor que se debruça sobre a linguagem e as práticas discursivas do populismo digital do século XXI, analisando as teorias de complô e outras estratégias de desinformação), estamos a ser aliciados pelas “fantasias de conspiração”. Como repara Sylvia Moretzsohn, elas atraem-nos “com a promessa de revelar os segredos de um mundo que nos é ocultado por forças que desejam manter-nos na ignorância”.

“Eles não querem que você saiba” é o título do novo livro de Sylvia Moretzsohn. A frase, que se apresenta como um estímulo ou sinal que nos activa os sentidos, remete-nos imediatamente para as armadilhas da desinformação, acentuando um dos seus mecanismos mais eficazes: a conjectura de que existe um poder oculto a esconder a verdade. O que nos desperta a curiosidade e nos leva, quase instintivamente, a formular a pergunta, ponto de partida de tantas teorias conspirativas: “Mas quem são eles?”

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Neste livro de que Sylvia Moretzsohn teve a gentileza de me oferecer um exemplar, a autora convida os leitores a reflectirem sobre os discursos que alimentam a suspeita, a manipulação e a circulação de informação enganosa. Assim, logo na abertura desta sua obra ensaística, recorre a Hannah Arendt, que desenvolveu o conceito de “a banalidade do mal”, reconhecendo a mentira “como ferramenta do poder”. E termino esta crónica com a epígrafe da filósofa alemã: “A mentira constante não serve apenas para enganar – [o] seu propósito é destruir a própria noção de verdade. Quando um povo já não consegue distinguir entre o real e o falso, também perde a capacidade de discernir entre o bem e o mal.”
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Nota:
O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 26 de Julho) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.
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27/07/2026