Mais cegueira do que juízo

 Mais cegueira do que juízo

(Créditos de imagem: Alexander Grigoryev – Unsplash)

À velocidade a que as sucessivas peripécias se vão acumulando no atual Governo, uma certeza parece inabalável: matéria para discussão não faltará. Se, na semana passada, a atenção incidiu sobre Luís Neves e a sua manifesta complacência para com um amigo empreiteiro cujas finanças já conheceram dias mais prósperos, olhemos desta vez para Fernando Alexandre, que vem conseguindo a proeza de fazer emergir problemas de onde todos os julgávamos inexistentes.

(Créditos de imagem: Marwan Ahmed – Unsplash)

É, pois, a partir do Ministro da Educação que hoje falaremos, mas sobretudo acerca de uma tendência cada vez mais evidente: a defesa incondicional, por vezes próxima da irracionalidade, protagonizada pelos públicos de maior compromisso político. Por isso mesmo, e ainda que não nos venhamos a deter propriamente sobre a sucessão de acontecimentos que têm marcado a atuação de Fernando Alexandre, importa recapitular os seus contornos essenciais: calendários letivos profundamente perturbados, milhares de alunos e respetivas famílias lançados numa incerteza evitável e um processo administrativo que, entre hesitações e descoordenação, acabou por resvalar para um verdadeiro desastre.

Não obstante a gravidade dos acontecimentos bastarem para uma condenação sumária, as explicações apresentadas pelo próprio Fernando Alexandre vieram acrescentar motivos de perplexidade. Em vez de assumir a responsabilidade inerente às funções que exerce, o ministro optou por dispersar a imputação de culpas por um círculo progressivamente alargado de intervenientes – dos pais alegadamente imprudentes aos classificadores movidos por má-fé, da malta dos agrafadores até, presumivelmente, lá ter chegado ao Partido Socialista.

(Créditos de imagem: Steve A Johnson – Unsplash)

Tendo a atuação do Ministério sido profundamente deficitária, e considerando que a este desastre se associou uma terrível gestão comunicacional, devemos perguntar se sobra algum argumento que valha ao ministro. E a resposta é clara: “sim” –  ou, mais do que isso, “sim, invariavelmente”. Mesmo perante este emaranhado quase kafkiano, por mais surpreendente que possa parecer, não têm faltado vozes dispostas a reconduzir todo o episódio a um mero problema de comunicação, como se aí se esgotasse a natureza da crise e nada houvesse de substancialmente censurável no plano da ação governativa.

 (Créditos de imagem: Daniel Dan – Unsplash)

Ao que tudo indica, se a ação tivesse falhado, mas a comunicação tivesse sido irrepreensível, uma análise puramente retórica convidar-nos-ia a concluir que estamos perante um falso problema. Ora, tendo o ministro falhado simultaneamente nas esferas da ação e da comunicação, e ainda que esta combinação nos conduza a um cenário duplamente caótico, os seus defensores mais fervorosos persistem em reduzi-lo a uma mera falha de comunicação. Este raciocínio, insustentável sob todos os pontos de vista, exclui à partida a possibilidade de Fernando Alexandre ter fracassado – tivesse sido bem sucedido discursivamente, estaria salvo das falhas do processo; tendo sido falível no âmbito da retórica, é como se o processo nunca tivesse corrido mal e tudo se encerrasse em meia dúzia de bagatelas indevidamente proferidas.

É sobre esta irracionalidade, tão frequente no seio do argumentário político-partidário, que nos devemos todos debruçar. Sem complacência, mas também sem animosidade, com o único propósito de compreender um padrão discursivo que, de tão recorrente, parece já ter deixado de causar estranheza.

.

30/07/2026

Siga-nos:
fb-share-icon

Lourenço Ferreira

https://linktr.ee/glourencosferreira

Lourenço Ferreira é mestre em Comunicação Social, investigador na área da Comunicação Política e colaborador em projetos de Educação para a Cidadania. Interessa-se por temas como a opinião pública, o discurso político e o impacto das novas formas de mediação na cultura contemporânea. Escreve com regularidade sobre política, sociedade e “media”, procurando sempre um olhar crítico e fundamentado sobre os fenómenos do seu tempo.

Outros artigos

Share
Instagram