Ainda vamos a tempo de salvar a democracia?

 Ainda vamos a tempo de salvar a democracia?

(Créditos fotográficos: Christian Lue – Unsplash)

Extrema-direita alemã dispara nas sondagens. O que é que isto revela sobre nós?

As sondagens mais recentes na Alemanha mostram um avanço impressionante do partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) que já ultrapassa os 28%-29% das intenções de voto, tornando-se a força política mais dinâmica do país. Este crescimento não é um fenómeno isolado: repete-se, com diferentes intensidades, em Itália, em França, nos Estados Unidos da América (EUA) e noutros pontos da Europa. Dois terços da Humanidade está do outro lado da barreira. A História parece confirmar que a oscilação entre extremos – direita vs esquerda – é uma espécie de lei cíclica universal, ativada sempre que a democracia perde vigor e a sociedade perde confiança.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Como alguém que viveu a ditadura e a democracia, olho para estes sinais com inquietação. Mas inquietação não é destino. É diagnóstico. E o diagnóstico só é útil se for rigoroso.

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1. A Alemanha como barómetro europeu

O caso alemão é particularmente revelador. A AfD cresce apesar de ser alvo de propostas de proibição por setores jurídicos e apesar de ser considerada incompatível com a Constituição por parte da sociedade civil. Por que é que cresce?

  • O governo tradicional perdeu credibilidade;
  • a sucessão de crises (económica, migratória, energética) desgastou a confiança pública;
  • o tema da imigração tornou-se o eixo emocional da política;
  • o Leste alemão mantém desigualdades profundas e uma sensação de abandono; e
  • a esquerda está fragmentada e sem narrativa mobilizadora.

A AfD lidera amplamente nos estados orientais, onde a perceção de ameaça cultural é maior do que a presença real de imigrantes. A política, quando perde o contacto com a realidade, transforma-se em psicologia coletiva e é aí que os extremos prosperam.

AfD incorporou demanda por “remigração” – eufemismo para deportação de estrangeiros – ao seu discurso de campanha. Em 11 de janeiro de 2025, o congresso do partido confirmou Alice Weidel (ao centro) como candidata a chanceler federal. (Créditos fotográficos: dts Nachrichtenagentur/IMAGO – dw.com)
Estrasburgo, em França.(Créditos fotográficos: Dorian Hurst –
Unsplash)

2. O avanço da direita noutros países

A Alemanha não está sozinha.

  • Itália tem um governo de direita radical legitimado pelo voto e normalizado pela rotina institucional.
  • França vive uma polarização permanente, com a extrema-direita a disputar a presidência em todas as eleições recentes.
  • EUA enfrentam uma erosão profunda da confiança democrática, com discursos populistas a dominar o espaço público.

Estes casos mostram que o fenómeno não é nacional, mas civilizacional: é a democracia liberal que está sob pressão, não apenas um país ou um governo.

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3. E Portugal? O risco existe – mas é diferente

Portugal não tem, neste momento, uma força política comparável à AfD em dimensão ou impacto. Mas tem fragilidades internas que tornam o terreno fértil para radicalizações futuras. São fatores concretos, visíveis, quotidianos:

3.1. Partidarismo excessivo e ódios incontroláveis

A multiplicação de partidos não trouxe pluralismo saudável: trouxe tribalismo. O debate público tornou-se um campo de batalha onde cada grupo fala apenas para os seus. A política deixou de ser espaço de solução e passou a ser espaço de ressentimento.

3.2. Greves permanentes que atingem os mais fracos

A conflitualidade laboral tornou-se quase estrutural. Quando os serviços públicos param, quem sofre não é o poder político, são os cidadãos com menos recursos, menos alternativas, menos voz. A democracia fragiliza-se quando o quotidiano se torna imprevisível.

3.3. Baixos níveis de vida

Salários estagnados, habitação inacessível, serviços públicos degradados. A democracia não sobrevive quando a vida se torna uma luta diária pela sobrevivência. A pobreza é sempre o melhor aliado dos discursos autoritários.

3.4. Baixos níveis de escolaridade e literacia democrática

Uma sociedade com fraca literacia política é mais vulnerável a soluções simples, slogans fáceis e promessas impossíveis. Sem pensamento crítico, a democracia torna-se um ritual vazio – e rituais vazios são facilmente capturados por quem promete ordem.

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4. Estamos perante uma “iminente volta da ditadura”?

(web.facebook.com/abrilabrilpt)

Não. Mas estamos perante uma erosão lenta da confiança democrática, que é o primeiro passo para qualquer deriva autoritária.

Portugal tem instituições robustas, sociedade civil ativa e memória histórica viva. Mas também tem fadiga social, desilusão política e desigualdades profundas. A História não se repete mecanicamente, mas repete padrões – e os padrões estão à vista.

A questão não é saber se voltaremos à ditadura. A questão é saber se estamos a cuidar da democracia com a atenção que ela exige

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5. Conclusão: o ciclo histórico e a responsabilidade presente

A alternância entre extremos não é destino, mas aviso. A Alemanha mostra o que acontece quando a democracia perde a sua força emocional. A Itália, a França e os EUA mostram que nenhum país está imune. Portugal mostra que os sinais existem, mas também que há tempo para agir.

A democracia não cai num dia. Desgasta-se aos poucos. Até que um dia já não se nota que caiu. Nesta encruzilhada onde se perde o norte, a Escola ficou a ver navios. É outra a sua vocação!

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Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

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13/08/2026

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José Afonso Baptista

José Afonso Baptista é doutorado em Ciências da Educação. Como professor e autor, o seu foco está na organização das aprendizagens, de acordo com os princípios da equidade, da diversidade e da inclusão, numa Escola Autónoma, responsável pela eficácia, pelo sucesso e pela felicidade de todos os seus alunos. Como investigador, deu especial relevo à Educação de Surdos, tema da sua tese de doutoramento e de vários artigos em revistas da especialidade. A sua obra publicada está referenciada no seu ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2107-1997. Merece especial destaque “Dogmas e Fantasmas da Escola”, obra publicada pela Lisbon International Press, em 2026. José Afonso Baptista foi professor destacado (pelo Instituto de Meios Audiovisuais de Educação – IMAVE) na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, além de ter sido metodólogo no antigo Liceu Normal D. João III (atual Escola Secundária José Falcão, em Coimbra), coordenador da Equipa de Apoio Pedagógico (EAP) da região Centro, consultor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para Educação em Angola e em São Tomé e Príncipe, bem como diretor regional de Educação do Centro, diretor da Educação da Fundação Bissaya Barreto e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa. Foi, igualmente, membro do conselho consultivo de várias instituições públicas.

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