O povo é sardinha no pão

 O povo é sardinha no pão

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Em Alfama, uma sardinha custava um euro há doze anos, vendida por quem ali nasceu. Hoje, a mesma sardinha pode custar cinco no arraial – ou 130, com caviar, num terraço, servida por um chef com estrela Michelin.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Há mais de trinta anos que Ana Maria Costa vende sardinha assada no mês de junho, em Alfama, no “Retiro a Tia Anita” – um negócio de família, numa rua onde cresceu e continua a viver. Em 2014, cobrava um euro por sardinha, um euro e meio com pão. “Não alterámos o preço do ano passado”, dizia então, como quem descreve uma regra tão óbvia que nem merece explicação: a sardinha é do bairro, o preço é do bairro. Doze anos depois, guias turísticos de Lisboa anunciam a sardinha assada dos Santos Populares entre 2,50 euros e 3,50 euros a unidade – e há noites em que uma sardinha no pão com uma imperial, em Alfama, chega aos cinco euros.

Num inquérito da agência Lusa junto a um dos arraiais da Mouraria, um turista resumiu, sem se dar conta da ironia, o que estava a ver: “A maior parte das pessoas que estavam a comer eram estrangeiras.”

(instagram.com/guiaturisticoemportugal)

A subida do preço, por si só, não seria notícia – tudo sobe. O que muda de qualidade, não só de valor, é o público a quem a sardinha passou a ser vendida, e a história que se conta sobre ela. Em maio de 2024, o Rossio Gastrobar anunciou “Santos Populares Vistos de Cima”: um evento num terraço em Lisboa, com sardinhas assadas por Paulo Alves, chef premiado com uma estrela Michelin quando esteve no Kabuki, ao lado de uma estação de ostras e de caviar. O bilhete custava 130 euros por pessoa – 65 para crianças até aos doze anos. É a mesma sardinha, tecnicamente. Já não é a mesma festa.

A matemática deste “não é a mesma festa”. É simples e é aí que mora o problema. Um vendedor de rua que descobre que parte do seu público paga cinco euros sem hesitar não vai continuar a vender ao lado, ao habitual, por um euro e meio – sobe o preço, para toda a gente, porque o mercado lhe diz que pode. O turista paga sem se questionar: cinco euros por uma sardinha é uma pechincha comparado com o que pagaria em casa por uma “experiência gastronómica portuguesa”. Para quem mora no bairro, com salário português, os mesmos cinco euros são outra conta.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Ao ECO, em 2023, Paulo Gonçalves resumiu isto em uma frase, depois de pagar cinco euros por uma sardinha no pão e uma imperial em Alfama: “Já penso duas vezes em voltar a comer uma sardinha no pão.” Inês Lopes, de 25 anos, encontrada no mesmo arraial, foi mais direta ainda: “Não dá para aproveitar o mês de Santos sem preocupar com o dinheiro.” Não é que o pobre deixe de poder comer sardinha nenhuma vez – é que passa a escolher em que noites pode e em quais fica em casa. A tradição sobrevive; o acesso a ela, não, para quem sempre teve menos para gastar.

Os Santos Populares nasceram, e continuam a existir oficialmente, como festa de gente com pouco – todos os anos, a 12 de junho, dezenas de casais com recursos modestos casam-se em conjunto na Sé de Lisboa, com cerimónia, vestido e festa pagos pela Câmara Municipal, numa tradição associada a Santo António, o “santo casamenteiro”. A distância entre esse casamento pago pelo município e o terraço a 130 euros por pessoa é a distância exata entre o que esta festa foi desenhada para ser e o que uma parte dela se tornou.

(instagram.com/dias_a_criar)

Esta gentrificação não é só de preço nem de festa: é de bairro inteiro. Segundo os Censos de 2021 , a freguesia de Santa Maria Maior – que inclui Alfama, o Castelo, a Baixa, o Chiado e a Mouraria, o coração de todos os arraiais mais fotografados de Lisboa – perdeu 2825 residentes numa década, 22% da sua população. Nenhum desses 2825 cidadãos deu entrevista sobre o que perdeu ao sair. Não encontrei associação de antigos moradores de Alfama, nem levantamento sério no sentido de saber para onde foram. Sei apenas que, ao mesmo tempo, uma investigação do Jornal de Negócios estimava que mais de um terço das casas do centro histórico de Lisboa – 34% – passaram a estar habitadas por turistas, não por residentes. Ana Maria Costa, a vender sardinha na rua onde nasceu, é hoje exceção, não regra.

Alfama, em Lisboa. (turismo.eurodicas.com.br)

Há, aqui, uma mecânica já documentei noutros contextos – imobiliário de luxo vendido como estilo de vida, ouro em vistos de investimento, tráfico de influência disfarçado de proximidade social –, mas que, na cultura popular, ganha uma volta a mais, mais silenciosa do que qualquer uma dessas: não é só o património físico que é açambarcado, é a própria narrativa. Quem hoje “descobre” e “recomenda” o arraial autêntico de Alfama, em blogues e em guias turísticos escritos para quem visita, raramente é quem o criou. A autenticidade tornou-se, ela própria, um produto a ser curado e vendido – por quem tem acesso a plataformas, a capital e a visibilidade – a quem paga para a experienciar sem nunca ter feito parte da comunidade que a inventou. O herói da história contada sobre os Santos Populares, nas fotografias e nos roteiros, raramente é o morador de Alfama que vende sardinha há trinta anos. É quem a “descobre”, a “cura” e a revende.

Sardinhas assadas com acompanhamento. (Créditos fotográficos: Yusuke Kawasaki – Unsplash)

O mecanismo não é conspiração, é encadeamento simples: um bairro pobre cria uma tradição gratuita, ao alcance de qualquer vizinho – cantar, dançar, assar peixe na rua. Essa tradição atrai atenção externa porque é genuína. A atenção atrai investimento, o investimento sobe o preço da habitação e do próprio produto cultural. E quem criou a tradição vai sendo empurrado para fora do bairro onde ela acontece. Nenhum destes passos é ilegal. É, apenas, o que acontece quando não há ninguém a impedir.

As Marchas Populares, o outro grande símbolo da festa, seguiram caminho parecido: nasceram como desfile de bairro, ensaiado por moradores; hoje é transmitido ao vivo pela RTP, com figuras públicas a apadrinhar cada marcha. A Organização Regional de Lisboa do Partido Comunista Português (PCP), que as apoia, resumiu o problema em maio de 2026: uma cidade “que expulsa moradores… incluindo muitos dos seus marchantes”. Não é só quem vende a sardinha que está a sair do bairro. É, cada vez mais, quem desfila a defendê-lo.

Marchas Populares, em Lisboa. (informacao.lisboa.pt)

A Câmara Municipal de Lisboa já reconheceu o problema, pelo menos em parte: desde 2018, Alfama, Mouraria, Castelo, Madragoa e Bairro Alto são zonas de contenção onde não é permitido registar novos estabelecimentos de alojamento local, precisamente para tentar impedir que esses bairros continuem a esvaziar-se de residentes. A própria Junta de Freguesia de Santa Maria Maior chegou a pedir a anulação de registos feitos depois da entrada em vigor da lei, admitindo publicamente que via nisso “o balanço negativo que representa a perda de residentes, o encerramento de estabelecimentos históricos e de comércio tradicional”. A medida existe. Não impediu 34% das casas do centro histórico de acabarem nas mãos do turismo, nem trouxe de volta os 2825 residentes que Santa Maria Maior já tinha perdido antes de a lei entrar em vigor.

Lisboa (Créditos fotográficos: Eduard Pretsi – Unsplash)

Talvez a imagem mais honesta de tudo isto não seja a do terraço a 130 euros, nem a da estatística de despovoamento – mas seja a distância entre as duas versões da mesma frase. Há doze anos, uma vendedora de Alfama dizia “não alteramos o preço do ano passado” como quem enuncia uma regra de bairro, óbvia e partilhada. Hoje, num evento com o mesmo peixe, alguém escreve num cartaz “sardinhas assadas por um chef com estrela Michelin” como quem anuncia um upgrade. Entre as duas frases não mudou o peixe. Mudou quem manda no preço, e quem já não está lá para o contestar.

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Fontes:

Dinheiro Vivo/Diário de Notícias (DN) e Correio da Manhã (CM), jun. 2025 (preços da sardinha nos Santos Populares e testemunho de Alice Dias); TVI Notícias, jun. 2014 (testemunho de Ana Maria Costa, “Retiro a Tia Anita”, Alfama); ECO, jun. 2023 (sardinha no pão a cinco euros em Alfama); Dica de Portugal, jun. 2026 (preços atuais de sardinha assada nos arraiais); trendy. pt, mai. 2024 (“Santos Populares Vistos de Cima”, evento com o chef Paulo Alves, ex-Kabuki, a 130,00€ por pessoa); Tapa ao Sal, mai. 2026 (tradição dos casamentos coletivos de Santo António pagos pela Câmara Municipal); Organização Regional de Lisboa do Partido Comunista Português (PCP), mai. 2026 (posição sobre a expulsão de moradores e marchantes); Magazine-HD, mai. 2026, e RTP (transmissão e padrinhos das Marchas Populares de 2026); A Mensagem, ago. 2021 e set. 2024, e Observador, out. 2025 (dados dos Censos 2021 sobre despovoamento de Santa Maria Maior e queda de alojamentos familiares); Observador, out. 2018 (zonas de contenção de alojamento local); ECO, set. 2018 (posição da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior).

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Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

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03/09/2026

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Ana Paula Cruz

Ana Paula Cruz é jornalista investigativa, fotógrafa, compositora e escritora brasileira, radicada entre o Recife e Lisboa. Desenvolve o projeto VINCERE (código em “Python” e dados públicos e verificáveis), um eixo de investigação sobre fraude institucional, desigualdade estrutural e arquitetura do poder entre o Brasil e a Europa. Assina poesia e prosa sob o pseudónimo Cinza Viva; e fotografia sob o nome Apcruz. Tem licenciatura em Estudos Europeus; pós-graduação em Direito Penal e Medicina Forense, Compliance e Governança, além de estar na etapa final de um MBA (Master of Business Administration).

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