“Temos de acabar com os cretinos digitais!”

 “Temos de acabar com os cretinos digitais!”

O neurocientista Michel Desmurget. (Créditos fotográficos: Michel Desmurget / Arquivo pessoal g1.globo.com)

Michel Desmurget (MD) é um prestigiado neurocientista e investigador francês, nascido em 1965. Só recentemente conheci a sua obra. Escreveu  livros importantes e centenas de artigos, que nos obrigam a pensar  nos prejuízos  que causam os ecrãs e os meios digitais sobre a saúde e o desenvolvimento cognitivo das crianças e jovens. Este assunto está cada vez mais na ordem do dia.

Michel Desmurget (Reprodução – veja.abril.com.br)

MD é doutorado em Neurociências e viveu alguns anos nos Estados unidos da América (EUA), onde trabalhou e investigou em prestigiadas instituições. Desde 2011, é o director de investigação no Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica de França (INSERM), onde lidera projectos no Instituto de Ciências Cognitivas Marc Jeannerod (ISC-MJ), em parceria com o Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) e a Universidade de Lyon. Tem mais de 80 artigos publicados em revistas científicas de referência internacional, como, por exemplo, as revistas Science, editada nos EUA, e a Brain, editada no Reino Unido.

O Instituto de Ciências Cognitivas Marc Jeannerod (ISC-MJ). (isc.cnrs.fr)

As  suas obras mais conhecidas são estas: 

  • “TV Lobotomie: La vérité scientifique sur les effets de la télévision” (de 2011), que pretende denunciar, com base científica, os malefícios da televisão na saúde e no desenvolvimento intelectual das crianças;
  • “A Fábrica de Cretinos Digitais” (de 2019), que é um bestseller mundial e foi distinguido com uma menção especial no prestigiado prémio literário francês Prix Femina Essai; e
  • “Faites-les lire!” (de 2023), traduzido em Portugal como “Ponham-nos a Ler! – A leitura como antídoto para os cretinos digitais” (uma edição da Contraponto Editores), onde defende que a leitura regular, por prazer, é  o principal antídoto e ferramenta de salvação contra a perda de competências gerada pelos ecrãs.

MD foi muito citado e criticado, há perto de cinco anos, porque afirmou, numa entrevista à BBC, “que os nativos digitais são os primeiros filhos a terem um QI [quociente de inteligência] inferior ao dos pais”. Segundo ele, o ser humano, depois de tantos anos de evolução, está hoje a regredir em termos cognitivos e em termos de capacidades intelectuais.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

E o autor pergunta: de quem é a culpa? Ele não tem dúvidas: é da excessiva exposição aos ecrãs! Na sua obra “A Fábrica de Cretinos Digitais o investigador alerta para o fenómeno que sustentou em inúmeros estudos: “A profusão de ecrãs, a que os nossos filhos estão expostos, está longe de lhes melhorar as aptidões.”

Também na obra  “Ponham-nos a Ler – A Leitura como Antídoto para os Cretinos Digitais” , defende que ler por prazer, ler desde tenra idade, ler diariamente, ler para compreender – em todas estas dimensões – o acto de leitura surge como o caminho para o desenvolvimento da linguagem, dos bons resultados escolares, de uma cultura geral sólida e da mobilidade social.

Descobri também, recentemente, uma entrevista que deu à Revista Veja, editada em São Paulo, pela editora Abril. Julgo que vale a pena dar conta aos leitores das ideias que aí defendeu, porque tal entrevista acaba por ser uma boa súmula das suas ideias, que são, aliás, repetidas nas suas obras.

Nessa entrevista, Michel Desmurget refere algo que não poderemos considerar novidade, mas que, contudo, hoje estamos a esquecer: o desporto, a música, entre outras actividades, são um belo contributo para desenvolver os cérebros humanos. No entanto, MD considera que nenhuma actividade tem impacto tão profundo e benéfico como a leitura. E acrescenta que os ecrãs com fins recreativos prejudicam o desenvolvimento dos jovens, mas, em contrapartida, “a leitura molda meticulosamente a sua humanidade”, porque é “uma porta única para o conhecimento”.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Para ele, a linguagem “é uma característica essencial da inteligência humana”. Todavia, “as suas formas orais permanecem um tanto limitadas”. “A sua verdadeira riqueza reside em livros que oferecem um vocabulário mais extenso e estruturas gramaticais mais complexas. Os livros ilustrados para crianças em idade pré-escolar contêm maior complexidade linguística do que quaisquer interações verbais comuns, como conversas de adultos ou interações entre adultos e crianças, programas de TV, filmes, séries, desenhos animados, entre outros”, explicita. Acrescenta ainda que “numerosos estudos demonstram que os formatos escritos são muito mais eficazes para a aprendizagem de conteúdos complexos, do que os seus homólogos áudio e audiovisuais”. Concluindo, por isso, que “os livros são insubstituíveis”.

(Créditos fotográficos: Vitaly Gariev – Unsplash)

Como refere MD, “quando os pais são informados, quando compreendem por que é crucial falar bastante com os filhos, ler-lhes histórias desde as primeiras semanas de vida e assim por diante, os impactos são substanciais. Isto continua a ser verdade em famílias desfavorecidas, mesmo quando os pais têm dificuldade em ler e dependem de livros ilustrados. Uma pesquisa mostrou que esse tipo de abordagem, aplicada durante o primeiro ano da criança, leva a um ganho de vocabulário de 40% aos 18 meses”.

(Créditos fotográficos: Christin Hume – Unsplash)

Na mesma entrevista, MD cita o filósofo alemão Hans-Georg Gadamer que, numa das suas obras, escreveu que “ler é compreender; quem não entende não lê de verdade”. Para Gadamer, um leitor competente “é alguém que possui mecanismos de descodificação automatizados, mas, mais importante, alguém que aprendeu a linguagem dos livros; uma linguagem que, como já foi dito, é muito mais rica e complexa do que a linguagem oral”, concluindo, em última análise, que são necessários quase 20 anos para nos tornarmos leitores proficientes.

(Créditos fotográficos: Kyle Hinkson – Unsplash)

MD informa-nos também que o leitor experiente é o que lê, em média, 280 palavras por minuto e que os alunos com mais dificuldades só conseguem atingir este patamar no final do Ensino Secundário. Acrescenta ainda que uma criança que só lê o que a escola exige nunca será um leitor eficiente. Considera, igualmente, que “ao longo dos últimos 50 anos, os ecrãs, inicialmente os da televisão, diversificaram-se e proliferaram amplamente nos videojogos, redes sociais, sites de streaming, entre outros, exercendo agora uma hegemonia selvagem sobre os tempos livres das crianças”. E, como resultado disso, vai concluir que a leitura é uma das grandes vítimas desta evolução, ao lado do sono e do volume de interacções familiares.

Michel Desmurget cita, a propósito, números relativos a França, em que o número de leitores ávidos – aqueles que lêem, pelo menos, 20 livros por ano –, o equivalente a 20 a 30 minutos por dia, decaiu de 35% para 11%. E acrescenta que, nos EUA, essa percentagem passou de 60% para 16%. Refere ainda os estudos do PISA (Programme for International Student Assessment) que nos indicam que 50% dos estudantes da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) só lêem se forem obrigados e, para agravar a situação, um terço diz que a leitura não serve para nada!

Se alguém, nomeadamente alguns defensores do digital, defende que este gera inúmeros leitores, MD considera tal argumento ridículo, porque a leitura representa apenas 2% a 3% do tempo total gasto com os ecrãs. E esclarece que os “estudos revelam que esse tempo é dedicado a conteúdos tão empobrecidos que o seu impacto no desenvolvimento da linguagem oscila entre insignificante e negativo, para crianças e adolescentes”.

(Créditos fotográficos: Sudhakar Chandra –  Unsplash) 

Para MD, quando não lemos, perdemos muito, porque a leitura é uma ferramenta poderosa para construirmos a inteligência em todas as suas dimensões e, por isso, “os seus efeitos positivos, apoiados pela investigação, estendem-se ao quociente intelectual (QI), à linguagem, aos conhecimentos prévios, à concentração, à imaginação, à criatividade, bem como às capacidades de expressão escrita e oral”, vindo a concluir, porém, que isso ainda não é tudo, porque “a leitura também afeta a nossa inteligência emocional e social”. Como observa, “numerosos estudos demonstram que o desenvolvimento económico de um país está intimamente ligado ao desempenho educativo das suas crianças”.

Quanto ao impacto dos ecrãs, MD não tem dúvidas: “Se estes dominarem todo o tempo disponível, não sobrará nada para leitura. Portanto, é essencial garantir tempo para a leitura, limitando a omnipresença dos ecrãs recreativos.” E deixa um conselho muito importante aos pais! Na sua opinião, estes nunca devem dizer aos filhos: “Se leres um pouco, poderás assistir a uma série ou jogar na consola.” Defende que isso é prejudicial porque é transformar a leitura no purgatório e os ecrãs no Paraíso!

(Créditos fotográficos:  Vitaly Gariev – Unsplash)

No final da entrevista, Michel Desmurget reconhece que “o declínio na leitura está agora a afectar as populações de professores” e que há estudos “que revelam claramente que os professores que lêem e valorizam a literatura são também os mais capazes de a ensinar e de incutir o amor pela leitura nos seus alunos”.

E MD termina, recordando uma frase do escritor norte-americano Ray Bradbury, que escreveu: Não é necessário queimar livros para destruir uma cultura. Basta que as pessoas parem de ler.” Michel Desmurget conclui que nos encontramos, hoje, nesta situação e, se não reagirmos rapidamente, o desastre poderá, em breve, tornar-se irreversível.

Então, aqui fica o alerta: “Temos de acabar com os cretinos digitais!”

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03/09/2026

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José Vieira Lourenço

José Vieira Lourenço é da colheita de Agosto de 1952. Estudou Teologia e fez a licenciatura e o mestrado em Filosofia Contemporânea, na Universidade de Coimbra. Professor aposentado do Ensino Secundário, ensinou Português, Filosofia, Psicologia, Sociologia, Teatro e Oficina de Expressão Dramática. Foi, igualmente, professor do Ensino Superior, na Universidade Católica de Leiria e no Instituto Superior Miguel Torga, em Coimbra. Foi ainda coordenador do Centro da Área Educativa de Coimbra (1998-2002) e só então conheceu verdadeiramente a classe docente. Descobriu bem cedo a sua paixão pela poesia, pela literatura, pela música e pelo Teatro. Foi Menino Jesus aos quatro meses no presépio vivo da sua freguesia. Hoje, como voluntário, dirige o Grupo de Teatro O Rebuliço da Associação Cavalo Azul e também o Grupo de Teatro de Assafarge. Canta no Coro D. Pedro de Cristo, em Coimbra. Apaixonado pela Natureza, gosta de passear a pé pelos trilhos da Abrunheira, na companhia do seu cão. Dedicado às causas da cidadania, é dirigente do Movimento Cidadãos por Coimbra, que insiste em fazer propostas para criar uma cidade diferente. Casado, tem duas filhas e uma neta, a quem gosta de contar histórias.

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