O Éden que nunca nos abandonou
“O Jardim do Éden”, obra de Erastus Salisbury Field. (Créditos de imagem: Reprodução/Wikimedia Commons – extra.globo.com)
“O Oeste Global” é o título do texto que hoje também publico no jornal sinalAberto e que resultou da minha longa incapacidade para aceitar o mundo em que vivemos, de agressões, de ódios, de guerras permanentes, de egoísmos, de destruição, de desprezo pela natureza humana, de inferno. No fundo, é a imagem do mundo ao contrário. E foi esta ideia do mundo ao contrário que fez ecoar em mim o conceito de “Éden”, uma palavra há muito esquecida no meu imaginário.
Há palavras que carregam mundos inteiros. “Éden” é uma delas. Dizemos o nome e, sem esforço, aparece uma imagem: um jardim perfeito, luz suave, água limpa, silêncio bom. Um lugar onde nada falta e nada dói. Mesmo quem nunca leu o “Génesis” sabe do que se trata. O Éden entrou na cultura como entram os sonhos: sem pedir licença. Surgiu, antes de tudo, como a ideia de um começo feliz. Um início sem medo, sem pressa, sem luta. Um tempo em que a vida não era uma corrida, mas uma casa aberta.

Na história bíblica, Adão e Eva viviam ali como quem vive num verão sem fim: frutos ao alcance da mão, animais que não atacam, trabalho que não cansa. Mas o mais importante não era a paisagem, era a sensação. A sensação de que o mundo fazia sentido. De que tudo estava no lugar certo. Quando o Éden se perde, perde‑se a harmonia. E talvez seja por isso que o Éden ficou a morar na nossa imaginação. Não como um sítio real, mas como uma saudade. A saudade de um mundo que nunca tivemos, mas que gostaríamos de ter tido.
Ao longo dos séculos, foi mudando de forma. Para uns, tornou‑se o Paraíso depois da morte. Para outros, uma utopia política. Para outros ainda, um estado de espírito: paz interior, simplicidade, silêncio. Hoje, no mundo que temos – cheio de ruído, de pressa, de guerras, de disputas, de fronteiras, de medos –, o Éden funciona como contraponto. É o espelho que nos mostra o que falta: a calma, a confiança, a beleza sem preço, a vida sem ameaça.

Quando falamos de florestas destruídas, “perdemos um Éden”. Quando vemos uma criança brincar sem medo, estamos a observar “um pedaço de Éden”. Quando encontramos um momento de paz no meio do caos, sentimos que “é o que o Éden queria ser”.

O Éden não é geografia. É um desejo. O desejo de que a vida possa ser mais simples, mais justa, mais humana. O desejo de que o mundo não seja sempre um campo de batalha. O desejo de que a existência não seja apenas sobrevivência. E, no fundo, o Éden é também uma pergunta: se sabemos tão bem imaginar um mundo melhor, porque é que nos contentamos com tão pouco?
Talvez o Éden não tenha existido. Mas continuamos a sentir a sua ausência dentro de nós, como uma memória que não tivemos mas que nos guia. E isso basta para que continue vivo, não no mapa, mas naquilo que esperamos da vida.
Se a espécie humana fosse, na verdade, a detentora da inteligência, guardaria o Éden bem guardado no centro da sua memória e no fundo do seu coração. Recusaria viver na “selva” em que transformou o planeta. Olharia para trás e tentaria restaurar as maravilhas do Éden inicial, sem ódio, sem medo, sem inveja, sem crime, sem miséria, sem egoísmo. Uma sociedade inteligente que tudo faria para voltar à pureza inicial e para proclamar o Éden como modelo político por excelência.
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Nota:
Para definir e relembrar o Éden distante, tive a preciosa ajuda da ferramenta Copilot, da Microsoft.
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07/09/2026