Memórias de Ipanema e da Patagónia
Ipanema, Río de Janeiro, no Brasil. (Créditos fotográficos: Carmen Tous – Unsplash)
O Mundo dá voltas. Encontrava-me reflexivo, a ponderar se ainda há lugar para a amizade não presencial. Dantes, havia cartas, rompia-se as distâncias com o beneplácito dos correios. O tempo para uma carta chegar ao destinatário em muito parecia alongar-se, assim como o tempo para chegar uma resposta parecia-nos por demais prolongado.

Todavia, a amizade fluía para além da ansiedade: em garatujas inocentes veiculavam-se confidências sinceras, a terem aromas da mão do escrevente, o expedidor, à guisa de cumprimento. Os papéis conferiam continuidade à amizade, estabeleciam trocas de presenças nada ameaçadas pelo espaço e pelo tempo. A proximidade encontrava-se num terreno firme, ainda que os correspondentes estivessem em lugares distintos; o reconhecimento mútuo era assegurado. Ligações telefónicas nem sempre eram o caso: era muito caro; ademais, era raro alguém ter telefone. Na atualidade, há a Internet – um simples clique, supostamente, aproxima as pessoas. O que prosseguiria, confirmaria as amizades, entretanto…

No tempo das cartas, quando não havia resposta, pensávamos: “Poxa, que pena! A carta extraviou-se. Fazer o quê? Hermes, por vezes, falha.” Ou melhor: tudo pode acontecer com uma carrinha dos correios ou haver falhas nos depósitos.
Hoje em dia, uma falta de resposta no universo digital, mais que imediato, indica o crepúsculo da amizade como tal. Finda a ansiedade de haver comunicação, sobrepõe-se uma dúvida relacional, um desalento. Para onde foi a amizade? A comunicação digital não é aquela de olhos nos olhos, é um simulacro, e, em geral, finda em exaurir as pessoas, seja através do bombardeio de expectativas nos contornos, enquanto clamam por retorno, ou quando uma urgente impaciência tira as pessoas do seu centro, a multiplicar desconfortos, imprecisões, impressões de serem pessoas outras.

Jean-Paul Sartre. (amenteemaravilhosa.com.br)
Deslocadas, tresloucadas, seja por uma predisposição mesma de julgá-las estranhas, inconvenientes se persistentes, ou pela barreira mesma do uso da palavra mal interpretada – um estado reverso, avesso à amizade, instaura-se indelével, inapagável. Quando a palavra gera descomunicação, o que fica depois de lida? Jean-Paul Sartre, ao dizer o “Inferno são os outros”, não referia-se ao experimento do fastio que causa-me o outro (Sartre nem conheceu a Internet); ele ponderava que o outro incomoda porque ele faz-me ver a mim quando sou intransigente.
Enfim, a minha reflexão seria: para onde foi a amizade com o advento da Internet? Uma via que expede, repete uma situação em que a amizade virou uma moeda de troca, uma figura de retórica a ser, tão-somente e apenas, um mero recado elaborado de marketing. Pode alguém contestar algum deslize inamistoso sem estar a afectar os amigos daqueles que não estão a ser nossos amigos? Há ainda lugar para a legitimidade do sentir e do pensar, para estar a expor um mal-estar, sem desagradar? Há amigos, gentilmente escutáveis, isentos de contestarem-nos quando as nossas verdades sentimentais e morais são legítimas? A amizade exige uma brandura isenta da “escuta”. Não presume sermos autoritários, fazermos contrapontos – o Mundo anda a carecer de menos opinionismo e de mais escutatória. Em outras palavras, ainda existem amigos, existem até mesmo os digitais?

Sim, há! A Internet, às vezes, surpreende. Hoje, chegou-me um e-mail inesperado. Nos anos 80, ao viver no Rio de Janeiro, fui “paciente” de um psicanalista; andava eu a querer conhecer-me melhor. Com umas poucas sessões, os protocolos já seriam deixados de lado. Tínhamos uma mesma compulsão: a de criar através da palavra, de escrever, de dizer. E, na época, de ouvir, assim como a de cultivar amigos. Eu morava no Arpoador; a sua morada seria próxima da do Tom Jobim, em Ipanema, era perto. Abandonou-se a psicanálise, que era em Copacabana.
Tínhamos projetos comuns no campo das palavras e uma admiração mútua. Não fiquei surpreso ao encontrar na sua sala um piano, instrumento que ele tocava enquanto cantava, a dar as boas-vindas a quem chegasse. E por lá chegavam, sim, muitos amigos; ele decidira que todas as suas amizades teriam as chaves da sua morada. A sua sala continha nas paredes umas muitas e tantas máscaras africanas, indonésias, venezianas; ele advertia todos: “Pendure a sua ao chegar. Sinta-se em casa!” Por todo lado, havia livros, discos e um sem-número de almofadas, ele sempre ao centro: o amigo dos amigos, desmascarado, um promotor de vínculos deveras humanizado, aberto, criativo, um tipo singular!

A última vez que o vi foi no aeroporto, encontro inesperado; tomamos um café juntos. Ele estava de mudança para Colares, em Portugal, tinha ele raízes no lugar. Não aprovara a mudança do tempo, desencantou-se com Ipanema. Pontuou que os anos 70 e um pouco dos anos 80 seguiam embora com ele. Anos que combinavam com a sua compreensão da amizade, o seu senso feliz de colectividade. Por fim, despedi-me dele na entrada do “finger” para, por fim, ele aceder ao avião. Sem saber o que dizer, disse-lhe apenas: “Boa viagem!” Ao que ele respondeu: “Boa ficagem!” Um verdadeiro mestre da palavra trocada, detentor de uma profundidade, verdadeiramente, raramente encontrável. Mas o que tem a ver este tipo com a crónica que está a ser escrita? Não será este texto sobre a Patagónia?

Sim será! Todavia, o texto que seguirá será ainda sobre amizade. Inicio esta reflexão a partir do impacto que foi “reencontrar” o amigo que me escreveu hoje. Ele não conta como foi que descobriu o meu e-mail, nem vou perguntar-lhe. Porém, dá indícios de que andou a ler-me em Portugal, ao dizer: “Cá entre nós, novamente estás, estarei.” Celebra, ao seu modo, aqueles dias de escuta psicanalítica, assim como a nossa amizade estabelecida; a sua linguagem ainda se evidencia, desde sempre, amplamente abrangente, coisa de gente fraterna.

A. traz-me um alento e um confronto com o tempo. Tempo em que não se tiravam fotos, tudo era remetido para um manancial de memórias profundas. Um tempo sem tela, de encontro directo, um quando ninguém tinha pressa de ir embora; tempo de regozijo, dado haver o gosto pela conversa, tão diferente destes actuais, de individualidade exacerbada, de egoísmos e de exaltação de efemérides, superficialidades próprias. Tempos em que amizade era uma pura concessão de compreensão. Uma teia de sincera simplicidade e de boa vontade mútua. Ao passo que, hoje, a gentiliza e a indulgencia demandam complacência, sob pena de essa, em si, conter uma não firmeza e submissão. Saudades de quando os tempos da amizade permitiam a confidência, a inocência.

Enfim, na crónica seguinte, vou contar as amizades que fiz na Argentina, prosseguirei na contramão dessa tendencia que muito mais parece ser favorável a estranhamentos do que via de relacionamento. Quando foi que se inventou que brasileiros e argentinos são inimigos? Que nem o Brasil nem a Argentina são América Latina? Sabe Deus a quem interessa promover essa balela; os estranhamentos, volta e meia, reincidem nebulosos e andam, por demais reforçados, nestes tempos de Internet, como de resto andam as relações humanas. Distanciamento táctico, “stay away” é a dinâmica, intolerar é a regra.

Facto é que a amizade, por vezes, se encontra amplificada justamente no terreno da improbabilidade, da inimizade induzida e, cá entre nós: entre amigos não há querela. Literatura é um abrir os olhos do escritor que clama em ocorrer o mesmo no leitor. É só porem-se à espera.
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10/09/2026