A voz entre a técnica, a emoção e a persistência
Joaquina Ly lecciona Canto no Conservatório de Música de Coimbra. (© Jaime Colaço / João Bizarro – sinalAberto)
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Joaquina Ly fala dos desafios de quem escolhe o canto
A formação de um cantor exige muito mais do que uma boa voz. Requer disciplina, domínio técnico, sensibilidade artística, capacidade de interpretação e uma persistência que acompanha o cantor ao longo de toda a vida.
Numa conversa realizada no contexto de uma aula de Canto no Conservatório de Música de Coimbra, a professora Joaquina Ly – que lecciona Canto – e o seu aluno, Pedro Rodrigues, estudante de Medicina e finalista do curso secundário de Canto, partilham reflexões sobre o ensino, a aprendizagem e as exigências de uma actividade em que o instrumento e o intérprete são, inevitavelmente, a mesma pessoa.

Esta conversa, no decurso de uma aula de Canto, integra o dossiê jornalístico “Impressão vocal” (conjunto de quatro peças jornalísticas pensado aquando do Dia Mundial da Voz, a 16 de Abril), desenvolvido pelo jornal sinalAberto, em colaboração com a ProPress-Associação Portuguesa de Jornalistas e a Escola Superior de Educação de Coimbra, atendendo à importância da voz como ferramenta de trabalho para um conjunto alargado de profissões e de comunicadores. A voz molda a identidade de cada falante, transmite emoções e, naturalmente, sustenta as relações interpessoais. Como também nos diz o actor Ricardo Kalash, na entrevista publicada em 8 de Outubro, a voz é uma extensão do corpo e, por isso, mais do que um simples meio de emitir sons.

Apesar do propósito pré-determinado da entrevista, a conversa não se limita a um roteiro fixo, dando vez à espontaneidade e à afabilidade. Joaquina Ly começa com uma explicação sobre as interrupções, enquanto professora de Canto, durante a interpretação de Pedro Rodrigues. A docente esclarece que o aluno se encontra no terceiro ano do curso secundário de Canto, para o qual entrou depois de ter concluído um curso de Guitarra igualmente no Conservatório de Música de Coimbra. Considera que Pedro já possui conhecimentos técnicos que lhe permitem abordar o repertório com segurança, mas observa que, por vezes, o próprio treino técnico pode criar constrangimentos ao gesto musical e à expressão das palavras.
“Às vezes, esse treino técnico torna-se uma obsessão e cria algum constrangimento naquilo que é o gesto musical e o gesto das palavras, com a retórica, com o sentido do texto”, anota a docente, com o cuidado de “não tornar tudo igual só para cumprir o crescimento técnico”. “A técnica deve favorecer a música não é? Por isso, na escrita também é assim!”, comenta a professora de Canto. Ou seja, Joaquina Ly explica que as suas intervenções procuram, fundamentalmente, chamar a atenção para a retórica, para o sentido do texto e para a necessidade de evitar uma interpretação uniforme, em que o cumprimento dos procedimentos técnicos se sobreponha à expressividade. Na sua perspectiva, a técnica deve estar ao serviço da música e não constituir um fim em si mesma.

A professora Joaquina Ly reconhece que a formação de um músico nunca está verdadeiramente concluída. Embora se atinjam diferentes etapas ao longo da vida, o percurso é feito de avanços, momentos de satisfação, períodos de estagnação e também de frustração. No caso do canto, essa aprendizagem assume uma complexidade particular: ao contrário do que acontece com outros instrumentos, o cantor e o instrumento são um só. A voz faz parte do próprio corpo e está, assim, sujeita às condições físicas e emocionais de quem a utiliza.
A voz também adoece: entre a fragilidade física e emocional
Questionada sobre o que acontece quando a voz falha, mesmo que apenas temporariamente, a professora Joaquina Ly (que coordena o Departamento Curricular de Canto, Línguas e Classes de Conjunto Vocais do Conservatório de Música de Coimbra) elucida que existem diferentes razões para esse problema. A ansiedade e o nervosismo podem provocar desconforto vocal, tal como a falta de hidratação, que é essencial para garantir o bem-estar necessário à prática do canto. Nestas situações, medidas simples como beber água ou comer uma maçã podem ajudar a recuperar algum conforto.

Ao indagarmos sobre outros cuidados a ter com a voz, Joaquina Ly recomenda “não falar alto, sobretudo em ambientes ruidosos”, bem como evitar estarmos expostos a “ambientes com atmosferas tóxicas”, poluídas ou com fumos.
Até as árvores da Rua Pedro Nunes, em Coimbra, contíguas ao Conservatório de Música, “também não ajudam muito”, como declara a professora de Canto, sublinhando que “a voz faz parte do nosso corpo” e que, por isso, convém manter hábitos saudáveis no dia-a-dia.
Contudo, admite que os problemas podem ser mais sérios, especificamente quando existe uma patologia ou uma doença. Os cantores são particularmente afectados por questões físicas, mas também por factores psicológicos. Dá como exemplo a morte de um familiar, uma situação emocionalmente devastadora que pode retirar a vontade e a capacidade de cantar e até de falar. Joaquina Ly salienta que os músicos estão sujeitos à condição humana e à sua fragilidade, pelo que, ao longo da formação, vão desenvolvendo ferramentas psicológicas que lhes permitem enfrentar momentos difíceis. Quando os problemas são de natureza física, nomeadamente quando resultam de maus-tratos vocais, considera indispensável procurar a ajuda de um profissional de saúde.
Uma aula que começa antes de se cantar
Relativamente à organização de uma aula de canto, a docente afirma que esta começa sempre com um período de aquecimento vocal, que, no dia da entrevista, decorreu antes da nossa chegada ao Conservatório de Música. Pedro Rodrigues foi, de facto, chamado mais cedo para cumprir essa etapa, também porque cantar perante câmaras constitui uma novidade e pode provocar algum desconforto.

Depois do aquecimento, a aula centra-se no estudo do repertório. Esta fase envolve a aprendizagem das peças, a correcção de questões relacionadas com o texto e o enquadramento estético das obras. A professora Joaquina Ly considera imprescindível respeitar as características de cada período musical, uma vez que uma obra renascentista não pode ser interpretada da mesma maneira que uma canção de Johannes Brahms ou de Robert Schumann. Cada repertório exige uma linha de canto própria e uma abordagem adequada ao seu contexto.
Os exercícios vocais são, por norma, realizados durante o aquecimento. Ainda assim, podem ser introduzidos pontualmente no estudo das peças, sempre que surjam dificuldades que justifiquem uma simplificação da linha musical.

A docente informa que uma das dificuldades mais frequentes está relacionada com a articulação e a fonética das diferentes línguas em que os cantores têm de interpretar o repertório. A passagem de uma peça em Italiano para outra em Francês, por exemplo, exige adaptações e um trabalho específico de pronúncia. Nesses casos, pode recorrer-se à execução de uma passagem utilizando apenas uma vogal, facilitando a sua assimilação.
Outra dificuldade surge nas linhas melódicas muito ornamentadas, particularmente frequentes no repertório barroco. A professora Joaquina Ly repara que, quando existem muitas notas para uma única sílaba, pode ser necessário reduzir temporariamente a passagem às notas fundamentais da harmonia, transformando uma melodia complexa numa versão mais simples. Trata-se de um trabalho de preparação que nem sempre é perceptível para quem escuta, mas que permite alcançar a aparente simplicidade da interpretação final.
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Uma profissão que exige muito mais do que uma boa voz
A aprendizagem do canto exige, segundo Joaquina Ly, um conjunto diversificado de capacidades. Para além de uma boa audição, é necessário possuir facilidade para as línguas, resistência, persistência e disponibilidade para trabalhar continuamente. Recorde-se que, no ano de 1999, ao abrigo do projecto Erasmus, Joaquina Ly estudou no Department Muzieck en Dramatische Kunsten da Hoogeschool Gent (na Bélgica), na classe de Canto da professora Mireille Capelle.
Questionada sobre o que a levou a escolher a carreira de cantora, a docente revelou que tudo começou por acaso. No entanto, esse acaso acabou por despertar algo que, de alguma forma, já existia dentro de si.
Defende que a resiliência é uma característica indispensável no percurso de quem pretende fazer do canto uma profissão. É preciso ter muita vontade, gostar verdadeiramente daquilo que se faz e querer assumir a actividade profissionalmente.
Na sua opinião, o público tende a ser menos tolerante com os erros de um cantor do que com os de um instrumentista. Argumenta com o exemplo de uma criança que esteja a aprender piano e que falhe algumas notas: normalmente, esses erros são compreendidos e perdoados. No caso de um cantor, a margem de tolerância é consideravelmente menor.

Apesar de nunca ter sentido vontade de abandonar definitivamente a carreira, confessa que o seu percurso também conheceu momentos difíceis. Há fases em que o músico sente que gostaria de conseguir fazer melhor, mas as circunstâncias da vida, as responsabilidades e a diminuição da disponibilidade pessoal podem tornar o trabalho mais complicado. Ainda assim, descreve a profissão como um percurso muito entusiasmante, embora reconheça que nem todas as pessoas podem escolher ser cantoras.
O talento revela-se na capacidade de transformar o simples
Sobre a forma como identifica um aluno com potencial para o canto, a professora entende tratar-se de uma questão difícil. Na sua opinião, uma das características fundamentais reside na capacidade de transformação: conseguir pegar numa coisa aparentemente trivial ou monótona e convertê-la em algo especial.
Essa transformação pode acontecer numa pequena frase musical ou numa ária inteira. O importante é conseguir tornar bonito aquilo que, à partida, parece simples. A docente considera que esta capacidade não é exclusiva dos cantores, sendo igualmente válida para os músicos em geral e para as artes em todas as suas expressões.

Ao longo da sua actividade pedagógica, confessa já ter sido surpreendida positivamente por muitos alunos, alguns dos quais classifica como verdadeiramente excepcionais. Recorda que vários antigos estudantes estão actualmente a desenvolver carreiras interessantes.
Entre os exemplos que partilha, destaca uma antiga aluna que a tinha visitado na semana anterior para lhe transmitir uma notícia particularmente feliz: iria realizar uma série de concertos com Jordi Savall, reconhecido gambista (instrumentista de viola da gamba), regente e compositor catalão, especialista em música original antiga (mourisca, turca, grega e espanhola). A jovem cantora tinha terminado recentemente o mestrado, circunstância que tornava a oportunidade ainda mais significativa.
Menciona também outra antiga aluna que se encontra na Alemanha a frequentar um mestrado em Música Contemporânea, vendo em ambas exemplos de percursos artísticos muito especiais.
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As oportunidades para os cantores de ópera
Joaquina Ly realizou a sua formação superior em Aveiro, onde estudou sob a orientação do professor António Salgado, e integrou diversos grupos de canto (projectos a solo, assim como integrados em formações de câmara), tendo também desenvolvido actividade na área da ópera, embora reconheça ter feito relativamente pouca. Refira-se que, em Abril de 1999, incorporou o elenco da ópera “El Retablo de Maese Pedro”, de Manuel de Falla, no papel de Trujaman, uma produção do Ópera Estúdio da Universidade de Aveiro.

Questionada sobre as condições existentes em Portugal para quem pretende construir uma carreira como cantor de ópera, manifesta que as oportunidades são reduzidas. Relembra que o país dispõe apenas de um teatro de ópera, o Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa, e que a antiga companhia de cantores residentes deixou de existir há muitos anos.
Actualmente, como explica, a actividade desenvolve-se principalmente através de projectos pontuais. Na sua leitura, Portugal tornou-se um país de projectos, sem assegurar necessariamente a continuidade e as condições de estabilidade de que os artistas precisam.
A docente expressa ainda que os cantores portugueses não são suficientemente acarinhados no seu próprio país, razão pela qual muitos acabam por procurar oportunidades profissionais no estrangeiro.
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Medicina e canto: duas vocações que exigem equilíbrio
A conversa passa, entretanto, para Pedro Rodrigues, aluno do terceiro ano do curso secundário de Canto e estudante de Medicina, que procura conciliar duas áreas particularmente exigentes.
Questionado sobre a forma como consegue gerir o tempo entre a formação médica e a aprendizagem musical, Pedro responde que a disponibilidade depende, em grande medida, das prioridades pessoais e daquilo que cada um gosta verdadeiramente de fazer. Na sua experiência, é sempre possível encontrar tempo para as actividades a que se atribui importância.

Diz-nos que tem procurado equilibrar as duas formações ao longo dos anos, num processo que também beneficia da flexibilidade e da colaboração da professora. A possibilidade de ajustar os horários das aulas tem-lhe permitido encontrar soluções para conciliar as diferentes exigências.
Quanto ao futuro profissional na Medicina, não afasta a possibilidade de vir a especializar-se em Otorrinolaringologia, uma área particularmente próxima da saúde vocal. Pedro não confirma, contudo, essa intenção, explicando que se encontrava numa fase de transição, no final do curso, a aguardar o resultado da Prova Nacional de Acesso, exame nacional obrigatório em Portugal que define a seriação e o acesso dos médicos à Formação Especializada (ou à fase pós-graduada do Internato Médico). Na realidade, a escolha da especialidade depende das classificações obtidas e das opções disponíveis.
Pedro Rodrigues, natural de Coimbra e com 24 anos, representa assim um percurso em que a formação científica e a sensibilidade artística coexistem, exigindo organização, dedicação e capacidade de adaptação.
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Afinal, o que é uma boa voz?
A conversa prossegue com uma questão que, apesar de aparentemente simples, abre espaço para uma reflexão mais profunda sobre a própria natureza do canto. Partindo da ideia, frequentemente repetida, de que alguém tem uma boa voz, foi colocada à professora a pergunta sobre o que significa, afinal, possuir uma boa voz.
O que fica desta conversa é a ideia de que cantar está muito para além da qualidade natural da voz. É um processo de construção permanente, no qual a técnica, a interpretação, o conhecimento, a disciplina e a emoção têm de encontrar um equilíbrio. Porque, como a professora Joaquina Ly procura demonstrar ao longo da aula, a técnica só cumpre verdadeiramente a sua função quando ajuda a música a ganhar sentido. E, num instrumento que é inseparável de quem o utiliza, aprender a cantar é também aprender a conhecer e a gerir a própria condição humana.
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(*) Este trabalho jornalístico conta com a colaboração do repórter de imagem Jaime Colaço e do jornalista João Bizarro, responsável pela produção audiovisual.