As praças do nosso descontentamento
Avenida da Liberdade, em Lisboa. O protesto da “Geração à Rasca” foi um conjunto de manifestações ocorridas em Portugal e noutros países – nestes últimos, por parte de portugueses –, no dia 12 de Março de 2011. (Créditos fotográficos: André Luís – pt.wikipedia.org)
“A ideia de Europa nasce na Grécia, por oposição ao Império Persa.” (Francisco Bethencourt, Diário de Notícias, 21 de Outubro de 2026)
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Li com atenção esta entrevista a Francisco Bethencourt (professor no King’s College de Londres, que veio a Lisboa para a abertura do ano lectivo na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova), o que me levou a reflectir: quanto sabemos nós do Império Persa e da sua relação com a Europa?

Habituados, na escola, a ouvir falar da Grécia e da Roma antigas, e muito pouco dos Persas, relacionei a minha visão do Império Persa mais com o cinema do que com os livros. Ou seja, filmes sobre a guerra dos Persas contra os Gregos; as Guerras Médicas, Guerras Greco-Persas, durante o século V a.C., de 499 até 449 a.C. E, sobretudo, o episódio dos 300 – dedicado à lenda dos 300 espartanos e à famosa Batalha das Termópilas, ocorrida em 480 a.C. – muitas vezes levado ao cinema. A Batalha das Termópilas (de 480 a.C.), durante a Segunda Guerra Médica, quando o Império Persa, liderado por Xerxes I, invadiu a Grécia. Uma aliança de cidades-Estado gregas, liderada por Leônidas I de Esparta, posicionou-se no desfiladeiro das Termópilas para bloquear o avanço persa. Inicialmente, cerca de sete mil gregos enfrentaram um exército persa estimado em 300 mil homens.

Como pouco sabemos sobre a civilização persa, nos agarramo-nos à ideia de uma civilização contra outra, uma mais evoluída, outra mais bárbara… Pergunto-me: existiam na civilização persa praças públicas?
Não encontro resposta, mas a imagem que a História nos transmite sobre esta civilização é a de que “as vitórias gregas, estudadas na página sobre a Grécia, fortaleceram Atenas e deram origem à imagem do persa como o ‘bárbaro’ oposto à liberdade grega”. E também de que para “o Império Persa, porém, a Grécia era apenas uma fronteira distante, e a derrota não abalou seu poder no restante dos domínios”. Refira-se ainda que o “historiador alemão Josef Wiesehöfer, em ‘Ancient Persia’, destaca o cará[c]ter flexível e descentralizado da administração aquemênida e a continuidade das tradições iranianas nos impérios parta e sassânida”. Por outro lado, já “a historiadora Lindsay Allen, em The Persian Empire, explora as evidências materiais – palácios, relevos, selos e tabuletas de Persépolis – para mostrar como o império se apresentava e funcionava no dia-a-dia”. Em comum, esses autores convidam a ver os Persas nos seus próprios termos, e não apenas como os adversários derrotados das cidades gregas. (Aceda ao projecto “Memória do Mundo”, sobre o tema “Império Persa: o maior império da Antiguidade”)

diferentes áreas, que foram importantes para o desenvolvimento
da cultura ocidental. (conhecimentocientifico.r7.com)
Retomo a pergunta. É claro que, numa cidade como Persépolis, e noutras, deveriam existir praças, mas teriam estas as funções das ágoras gregas? Se algo identifica a democracia na Grécia é a ágora (“assembleia”, “lugar de reunião”, derivada de “reunir”), termo grego que significa a reunião de qualquer natureza, geralmente empregada por Homero como uma reunião geral de pessoas. A ágora parece ter sido uma parte essencial da constituição dos primeiros Estados gregos; nelas ensinavam-se as matemáticas e a filosofia.
As nossas ágoras são as nossas praças públicas, lugares para a discussão, crítica, protesto e lugar de festividade. Quando surgiram os últimos momentos de contestação nas nossas praças, lembrei-me da expressão “geração rasca” (expressão que foi cunhada em 6 de Maio de 1994 pelo jornalista Vicente Jorge Silva, num editorial do jornal Público). Já lá vai o tempo!

Esta geração, sem ter vivido ditaduras, sem ter vivido o 25 de Abril, é generosa na sua movimentação; o presente, o futuro, o amanhã são e devem ser o compromisso de todos! No particular, poderia “marimbar-me” para os jovens que não tem vivenda nem outra habitação, mas não pode ser assim. Também não aceito as “bocas” ouvidas nas manifestações: “Vai trabalhar, malandro!”
Não! Esta gente trabalha e pelo salário mínimo, e não tem direito à habitação… Não são malandros. O facto de alguma integração extremista se ter colado a estes movimentos é inevitável, mas a maioria destes manifestantes são pessoas de bem, bem-intencionadas e que, contrariamente aos tumultos de Europa, constituem um movimento ordeiro, respeitoso e cívico, mesmo quando ainda está em discussão a sua legitimidade.
Fui testemunha do Maio de 68; da queda do General de Gaulle, o general sem exército, que menosprezado por Winston Churchill, ainda conseguiu vencer, mas que não resistiu ao movimento estudantil. Em Dezembro de 1989, na Roménia, na cidade de Timisoara, foi observada a queda do líder comunista e ditador Nicolae Ceaușescu, com final tragicamente premeditado. Por sua vez, na Praça de Tian’anmen, um jovem esteve perante um tanque blindado. As Mães da Praça de Maio (em Espanhol: Asociación Madres de la Plaza de Mayo), agora avós, continuam a lutar, na Argentina, pela memória dos seus filhos e parentes desaparecidos…

As praças de Abril de 1974, que foram muitas para acolher o movimento libertário. E, por último, aqui uma referência à Porta do Sol, praça belíssima, no centro de Madrid, onde o Urso se delicia com os rebentos de um medronho. Praça de convivência e da protesto, que foi testemunha do “assassinato” de Maricarmen – desculpem, não posso chamar-lhe de outra maneira. Sobre este acontecimento, o jornal 24Horas informa: “Maricarmen Abascal, de 87 anos, morreu quarta-feira, dia 8, num hospital de Madrid, apenas duas semanas depois de ter sido despejada da casa onde viveu durante mais de sete décadas. A morte da idosa provocou uma onda de indignação em Espanha, levando milhares de manifestantes às ruas da capital para exigir soluções para a crise da habitação”.
Que aqui não morra ninguém! Que impere o bom senso e a democracia das ágoras. E que o primeiro-ministro, Luís Montenegro, silenciosamente ausente durante dez dias, responda a uma pergunta formulada nas manifestações por um participante: “É primeiro-ministro ou senhorio?”
Escrevo no dia 26 de Outubro e a vitória de Lula de Silva é um alento, uma esperança para muitos… Espero que as ágoras do Brasil estejam cheias para o festejo!
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05/11/2026
