A memória de uma extinta aldeia comunitária
Ruínas da antiga aldeia de Vilarinho da Furna, que ficou submersa, em 1971, com a construção da barragem no rio Homem. (© VJS – sinalAberto)
Percorri, há dias, os carreiros que os antigos habitantes de Vilarinho da Furna calcorrearam vezes sem conta nas suas fainas pastoris e agrícolas. Apercebi-me de quão difícil e maravilhoso é caminhar nessas veredas pedregosas, entre as urzes, os tojos e os matagais em que predominam as giestas.


pela sua bisneta, Rita Pestana –
gaiarevelada.blogspot.com)
Estava uma tarde serena e luminosa e as ruínas da velha aldeia comunitária, os muros e os caminhos desta zona nordeste do concelho de Terras de Bouro, no distrito de Braga, emergiam das águas da albufeira que, durante muito tempo, tem escondido tais tesouros dos olhares curiosos das gerações que agora se deslocam à freguesia de Campo do Gerês e ao Parque Nacional da Peneda-Gerês, abrangendo a serra Amarela.
Não é preciso recorrermos aos trabalhos etnográficos de Jorge Dias para ainda repararmos que as casas desta antiga aldeia comunitária, geralmente de dois pisos, eram rústicas como a rocha magmática, intrusiva ou plutónica que as compunha e adaptava a uma vivência agropastoril de montanha. Basta-nos saber identificar os testalhos ou fachadas em pedra, os rebordos em granito ou cápeas e também os cachorros, não os de Castro Laboreiro, mas os suportes graníticos que sustentavam as vigas e as varandas.
António Jorge Dias – considerado um impulsionador da Antropologia e da Etnografia moderna em Portugal – esteve frequentemente ali, na década de 1940, com a sua mulher e companheira de pesquisa, Margot Dias. Conviveram com os residentes, examinaram as suas vidas diárias e fizeram registos de campo que contribuíram para o estudo rigoroso desta e de outras comunidades rurais.

Certamente, nos pisos superiores das habitações deste genuíno “estado independente”, enquanto autênticos centros da vida familiar junto do fumeiro, José Dias e Margot partilharam com esse povo o pão de centeio e a broa, a carne de porco, o chouriço e o salpicão, bem como a batata e outros produtos que a terra e a pastorícia então possibilitavam nos baldios e terrenos comunitários.
Tal como as populações de Brufe, Cortinhas e Cutelo, os naturais da aldeia de Vilarinho da Furna (também designada Vilarinho das Furnas) – situada no sopé da serra Amarela e submersa, em 1971, pela construção da barragem homónima no rio Homem – eram gente simples, mas abastada na sua generosidade colectiva, aprendida ao longo dos séculos da sua própria autonomia, regida por um zelador, por um juiz (cargo que era rotativo entre os homens casados) e por um conselho de anciãos (ou deputados) que estabeleciam leis democráticas e harmonia na labuta comum, sobretudo na gestão do gado e dos campos.

Esse espírito de entreajuda e o raro exemplo de organização comunal na Europa – como o descreveu o etnógrafo Jorge Dias – são recordados no documentário “Vilarinho das Furnas”, de António Campos. No ano de 1971, o realizador filmou a vida quotidiana dessa povoação serrana que, meses depois, se desagregaria com a construção da barragem e a submersão da aldeia.
Se a memória é imprescindível para a construção da nossa identidade e necessária para anteciparmos cenários, o documentário de António Campos recupera o testemunho dessa extraordinária comunidade e consegue dar voz aos antigos habitantes de uma aldeia que ainda teima em viver.
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Nota:
O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 1 de Novembro) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.
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02/11/2026