A Torre de Pisa
(Créditos fotográficos: Pretty Pink – Unsplash)
Há avaliações que se tornam monumentos e monumentos que se tornam metáforas. A Torre de Pisa, inclinada há séculos, é conhecida pela fragilidade das suas fundações. O PISA (Programme for International Student Assessment), estudo trienal da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), inclinado pelas políticas educativas contemporâneas, tornou-se referência mundial apesar das suas limitações. Entre a torre de mármore e a torre estatística há afinidades que merecem ser exploradas, porque ambas revelam como uma estrutura pode influenciar o Mundo, mesmo quando não está totalmente direita.

1. A torre que se inclina por fragilidade do solo
A Torre de Pisa começou a inclinar-se quase logo após nascer. As fundações eram rasas, o solo era instável e a ambição arquitetónica excedia a prudência geotécnica. O resultado é conhecido: uma torre que se tornou símbolo mundial, precisamente porque não ficou direita.
A sua história ensina-nos que nem tudo o que se inclina está condenado a cair. E que a inclinação pode ser, paradoxalmente, uma forma de resistência.
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2. O PISA que se inclina por fragilidade das políticas
O PISA da OCDE também nasceu com uma ambição: comparar sistemas educativos de dezenas de países através de um conjunto fixo de provas aplicadas a jovens de 15 anos. Para garantir comparabilidade, o instrumento precisava de ser estável, padronizado, repetível. E assim ficou: três áreas – leitura, matemática e ciências – medidas de forma uniforme em todo o Mundo.
O problema é que os sistemas educativos não são uniformes. E os alunos muito menos.

O PISA foi concebido para avaliar programas, não pessoas. Mas o impacto recai sobre pessoas, não programas.
Quando um país desce no ranking, não se diz que “o currículo perdeu três posições”. Diz-se que “os alunos ficaram para trás”. E, por extensão, que “os professores falharam”.
O instrumento é técnico; o uso é político.
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3. A fixidez do PISA e a fluidez da vida humana
O PISA mede sempre o mesmo. Os alunos nunca são os mesmos.
Esta é a tensão fundamental.
O PISA mede competências mensuráveis: interpretar textos, resolver problemas matemáticos, aplicar raciocínio científico. Mas não mede – porque não pode medir – aquilo que faz a riqueza humana: criatividade, imaginação, talento artístico, vocação musical, inteligência motora, sensibilidade ética, liderança, pensamento divergente, capacidade de cuidar, humor, coragem e visão.
Um génio da música pode ser um “fracasso” no PISA. Um atleta extraordinário pode ser invisível para o PISA. Um jovem com talento para a pintura, para a escrita, para a programação, para a dança, para a mecânica, para a carpintaria – todos estes talentos ficam fora do radar.
O PISA não vê o essencial. E, no entanto, influencia o acessório.

4. O recado uniforme para escolas diversas
Ao escolher três áreas, o PISA envia um recado claro às escolas: “Isto é o que importa.”
E quando um instrumento internacional diz “isto é o que importa”, muitos governos respondem: “Então é isto que vamos ensinar.”
O resultado é conhecido: currículos mais curtos, tempo letivo redistribuído, pressão sobre matemática e leitura, desvalorização das artes, secundarização da educação física, invisibilidade das vocações singulares e políticas educativas orientadas para rankings.
O PISA não pede isto. Mas o sistema interpreta assim.
É o velho princípio: o que é medido torna-se importante; o que não é medido torna-se invisível.

5. Poderia o PISA medir talentos invisíveis?
Tecnicamente, sim. Politicamente, não. Culturalmente, ainda menos.
Medir criatividade, talento artístico, vocação musical, inteligência social ou ética exigiria instrumentos complexos, contextualizados, culturalmente sensíveis. E os resultados não seriam comparáveis entre países – o que destruiria a razão de ser do PISA.
O PISA nasceu para comparar. E comparar exige simplificar.
Mas a simplificação tem custos. E esses custos recaem sobre os alunos que não cabem na grelha.

6. Benefícios e prejuízos: o balanço honesto
O PISA trouxe benefícios reais:
- revelou desigualdades sociais profundas;
- mostrou que alguns países conseguem combinar equidade e excelência;
- expôs currículos excessivamente extensos;
- ajudou a identificar políticas eficazes; e
- deu visibilidade internacional a problemas estruturais
Mas trouxe também prejuízos significativos:
- pôs o foco da educação em três áreas;
- alimentou rankings simplistas;
- incentivou reformas apressadas;
- reforçou a ideia de que “o que não é medido não importa”;
- desvalorizou artes, humanidades e educação física;
- criou pressão sobre professores e alunos; e
- transformou um instrumento técnico numa arma política.
O balanço depende do uso. Mas, em muitos países – incluindo Portugal –, o PISA tem sido usado como bússola única, quando deveria ser apenas um indicador entre muitos.

7. A Torre de Pisa como metáfora educativa

A Torre de Pisa inclina-se porque as fundações são frágeis. O PISA inclina sistemas educativos porque as políticas se apoiam demasiado nele.
A torre foi estabilizada com paciência, engenharia e respeito pela sua identidade. Os sistemas educativos precisam do mesmo: menos reformas súbitas, mais compreensão profunda; menos obsessão com resultados, mais atenção às pessoas.
A torre não caiu. E não caiu porque ninguém tentou endireitá-la à força.
Talvez seja essa a lição para o PISA: não é preciso endireitar tudo; é preciso compreender o que sustenta.
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8. Conclusão: uma dupla de Pisas, duas lições
A Torre de Pisa ensina-nos que a imperfeição pode ser bela, resistente e digna. O PISA ensina-nos que a simplificação pode ser útil, mas tem limites.
Uma inclina-se por fragilidade do solo. A outra inclina sistemas por fragilidade das políticas.
Ambos são famosos. Ambos são discutidos. Ambos exigem prudência.
E ambos nos lembram que, na educação ou na arquitetura, o que importa não é a verticalidade perfeita, mas a solidez das fundações.
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14/09/2026