Manual de conservação nacional

 Manual de conservação nacional

(Créditos de imagem: Yevgeniy Mironov – Unsplash)

Estava eu no mercado – sim, eu vou ao Mercado Municipal D. Pedro V, em Coimbra, ao mercado de Almas de Freire, em Santa Clara, e a outros, se os houver nas localidades por onde passo, bem como a feiras tradicionais, pois não encontro alternativa melhor para comprar legumes e frutas da época, entre outros produtos – quando me confrontei com uma banca que ostentava magníficos tomates coração-de-boi. Não resisti, e lá vim eu com uns quilinhos para casa, a pensar em fazer compota e conservas.

(Imagem gerada por IA.)

Já na azáfama entre tachos, panelas e frascos esterilizados, eis que ouço a notícia de que tinha sido criado um movimento de mulheres conservadoras. “Caramba!”, pensei. Ora aí está um grupo a que me quero juntar. Certamente, devem saber tudo sobre conservas, compotas e geleias. Como eu – que, em criança, estava mais preocupada com os carrinhos de rolamentos, com bonecas de espiga de milho, com o jogo da macaca e em saltar ao elástico –, nada aprendi sobre como fazer uma boa conserva de tomate ou um excecional doce de figo, com as sábias mulheres da família, vi aqui a oportunidade de aceder aos segredos culinários mais tradicionais. Este era um vazio que precisava de ser preenchido.

Logo, procurei mais informação, ansiosa que estava por me juntar ao grupo. Quando descortinei a informação que foi surgindo, ficou claro que quem estava à altura de servir um chá de cáscara-sagrada e uma compota de costela-de-adão (feita a partir do fruto verde, claro) a este grupo eram algumas das mulheres da minha terra. Aquelas “conservadoras” que foram espancadas por maridos, violadas por companheiros, vizinhos e/ou homens da família. Que engravidaram na sequência desses abusos ou, simplesmente, por não terem tido oportunidade de aceder a consultas de planeamento familiar.

(telavita.com.br)

Sabermos de mulheres que se juntam para falar de maternidade, de casamento, da educação dos filhos, de religião, de beleza, das relações ou dos estilos de vida poderia até parecer inofensivo. O problema é que não é para falar da maternidade delas, do casamento delas, da educação dos filhos delas, da religião que praticam, mas, sim, para falarem de vidas alheias. Para especularem sobre traumas alheios que, obviamente, desconhecem ou, então, porque fica bem às conservadoras comer e calar, expurgarem frustrações. Estar bem com a vida, naturalmente, não é para todas.

Como se não bastasse, outras vozes se levantaram entretanto e, publicamente, vieram com a pretensão de roçar um ensaio científico, de procurar demonstrar que o mundo está a mudar, porque há mais mulheres em tudo quanto é lado. Elas são professoras, magistradas, médicas e em tal número que, agora, temos de levar com as lamúrias femininas. Educam as crianças de forma efeminada. Dão sentenças fofinhas devido à sensibilidade excessiva. E recomendam aos doentes as mesinhas das avós. O mundo está perdido. Realmente, só não vê quem não quer! As feministas nada dizem porque estão a adorar serem muitas as mulheres emancipadas. Distraídas certamente, porque executam, não lideram. As conservadoras, bom…, essas devem estar a pensar que é importante a presença das mulheres no mundo do trabalho, mas, atenção, não se pode descurar o Reino de Deus.

(blog.tjama.com)

Estas últimas não têm com que se preocupar, porque, se elas estão por todo o lado, eles continuam a ser, em maioria (esmagadora maioria), os governantes, os diretores e os chefes. Ou seja, eles mandam para que elas tenham tempo para se dedicarem à beleza e aos estilos de vida, pois, desta forma, seguramente, protegerão a integridade e o seu corpo. E, se mesmo assim não conseguirem, não importa; o importante é que, apesar de abusada, de violada ou de espancada, deverá privilegiar a família, respeitar o marido e os filhos (quiçá, filhos do vizinho), o pai ou o irmão.

Assim se vai conservando o país. Umas procuram fazer conservas, outras conservam dogmas e crenças. E eles conservam o poder.

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14/09/2026

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Licínia Girão

Licínia Girão é jornalista e, também, uma jurista preocupada com as questões da liberdade de expressão e de criação dos jornalistas, assente num compromisso com a verdade e com a observância do Estatuto do Jornalista e do Código Deontológico. Desassossegada na defesa de um Jornalismo isento, rigoroso e credível, praticado por jornalistas independentes, tem vindo a dedicar-se a estudos e a exercer formação nestas áreas. Presidiu à Comissão da Carteira Profissional de Jornalista.

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