Ainda e sempre a Ucrânia
Oblast de Poltava, Ucrânia. (Créditos fotográficosa: Margarita Marushevska – Unsplash)

Quem sonha com um cenário em que o conflito da Ucrânia só será resolvido na ponta das baionetas, com a Rússia a ser humilhada com uma derrota – como dizem que foi o que, recentemente, aconteceu em S. Petersburgo –, ainda por cima, a primeira no seu território, aí tem a resposta que Vladimir Putin deu à carta aberta que Volodymyr Zelensky lhe enviou, com a intenção de poder dizer ao Mundo que era o outro que não queria encontrar-se com ele para negociarem a paz.
O propósito foi tão descarado, o gato tinha tanto rabo de fora que ninguém podia duvidar que aquele rabo era mesmo de um gato. Não sei como ficaram os defensores da estratégia bélica para pôr termo à guerra. Certo é que Putin foi ao seu encontro; e eis que, num instante, quando menos se esperava, surge uma nova corrente de putinistas: os que o não querendo ser, são-no mais do que os que são acusados de o ser. A História tem destas tropelias; não raro somos ultrapassados por ela quando menos se espera. E é então que não se pode deixar de exclamar – sua filha da mãe, eu que queria fazer figura e vens tu, lixas-me o esquema!

Tudo, porque nestes mais de quatro anos, quem invariavelmente tem alimentado esta guerra, tem sido a União Europeia (UE), não tanto com material bélico, que não tem, mas com os milhares de milhões de euros dos impostos dos Europeus, que vão servir para o comprar aos Estados Unidos da América (EUA), o seu principal fornecedor.
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Feitas as contas, dos que não estão directamente envolvidos na guerra, são os Europeus que mais estão a perder, agora duplamente, uma vez que é no Estreito de Ormuz que se está a jogar a vida da economia europeia. Não é, por isso, uma surpresa a vontade manifestada por alguns líderes europeus em iniciar um qualquer contacto com o presidente da Federação Russa, sendo que o fosso entretanto criado entre as duas partes já tem tal profundidade que será necessário lançar muitas acções concretas para dentro dele de modo a que fiquem restabelecidos os caminhos que possam levar à paz.
Mesmo que, agora, seja essa a intenção, embora saibamos o destino que tantas vezes lhe está reservada, a actuação do Ocidente foi tão desastrada na maneira como lidou com a Federação Russa, depois de 1991, que será particularmente difícil o outro lado não fazer exigências quanto ao que tinha ficado estabelecido entre a UE/EUA e a Federação Russa. É que esta parte da história entre as duas partes não começa em 24 de Fevereiro de 2022, nem deve ser omitida, começa vinte anos antes. E nela estava previsto que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) se ficaria pelos países que dela faziam parte, não avançando até às fronteiras da Federação.
Se se quiser ser objectivo quanto às razões políticas da guerra, tem de se recuar até esse período, quando o Ocidente ficou convencido que tinha a Federação no bolso, lhe vendia as sobras e ainda podia instalar-se para explorar os seus recursos naturais. Se não contava com esta reacção foi porque já se esquecera do génio de Maquiavel, que Lenine o tinha sempre à mão, ele que não era ignorante.

O Ocidente, e os Europeus, em particular, não se deviam mostrar tão satisfeitos com as exibições bélicas de Kiev. Nada daquilo retira um centímetro ao que o Kremlin já tem sob sua alçada. Serve, porém, para continuar a extremar as partes e dar argumentos aos que em Moscovo reclamam mais firmeza a Putin. Os ataques de que estão a ser alvo, procurando criar na população o sentimento de insegurança, são outros tantos argumentos para que as respostas sejam sempre de maior intensidade, servindo para demonstrar a capacidade de destruição do que resta da Ucrânia. Se o cálculo da NATO é de quanto pior melhor, na esperança alimentada por Mark Rutte (secretário-geral da NATO) de poder, finalmente, concretizar o seu sonho, entrar directamente em combate, então o Mundo que se prepare, porque a Europa irá ser um enorme campo de batalha.
Até agora os drones e os mísseis tem-se ficado por Kiev e por Moscovo. O que os líderes europeus têm de fazer é acautelar os seus países, apressarem-se a combater os espíritos que eles ajudaram a odiar o outro. Começar pela linguagem diplomática, quando se referem ao acontecimento, seria o primeiro passo; passarem a defender a paz, era o que já deviam ter começado a fazer; encontrarem um lugar para negociar com o Kremlin, é o mais urgente.
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Nota do Director:
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08/06/2026