Almada sem água: a cronologia de uma crise que já dura há mais de um mês
Almada (Créditos fotográficos: Alexandre Contador – Unsplash)
Cortes recorrentes, um gabinete de crise, uma petição com mais de quatro mil assinaturas e uma moção de censura da oposição. Reconstituímos, dia a dia, como a falta de água em Almada escalou de um pedido de moderação de consumo a uma situação de alerta com corte total de abastecimento durante a noite.

Desde maio, Almada vive sob temperaturas persistentemente elevadas, um factor que a Câmara Municipal e os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento (SMAS) apontam como o gatilho de um consumo de água sem precedentes no concelho.
Segundo a autarquia, os valores registados em 2026 representam o maior volume de água distribuído em mais de 75 anos de abastecimento público em Almada. O resultado, semanas depois, é uma rede sob pressão, milhares de residentes sem água em casa e um executivo municipal a pedir desculpa publicamente.

2 de julho – Os SMAS Almada emitem um primeiro aviso, ainda sem menção a cortes: pedem à população “moderação das regas de jardins e espaços verdes privados” e a “prevenção de desperdícios em consumos não essenciais”.
3 de julho – O pedido revela-se insuficiente. Já nesse dia, a água deixa de correr nas torneiras em várias localidades do concelho, com a interrupção a prolongar-se por várias horas. Os SMAS reconhecem, em comunicado, que “a procura global tem sido superior à água que conseguimos captar diariamente nos nossos furos” e anunciam uma “gestão solidária e rotativa da rede”. Na prática, cortes por zonas para equilibrar pressões. As freguesias mais afetadas, desde o início, são a Costa da Caparica, a Sobreda e os Capuchos, a que se juntam depois relatos no Laranjeiro e no Feijó.
Fim de semana de 4-5 de julho – Os cortes tornam-se pontuais mas persistentes. Uma petição pública lançada pelos moradores ultrapassa as 1500 assinaturas, já a 3 de julho, e cresce rapidamente: mais de três mil assinaturas poucos dias depois, exigindo à Câmara e aos SMAS que expliquem publicamente as causas das interrupções e que apresentem um plano de ação concreto. A Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos (ERSAR) entra na equação, pedindo esclarecimentos formais aos SMAS de Almada. A entidade reguladora nota ainda que o aumento de consumo ultrapassa o que seria expectável para a época do ano, admitindo estarem a ser investigadas “causas adicionais”, incluindo eventuais consumos ilícitos.
Em paralelo, cresce a contestação popular, o Movimento Futuro da Costa anuncia uma concentração de protesto junto aos SMAS Almada, e nas redes sociais é convocado, para o dia 8 de julho, na Costa da Caparica, um “cordão humano silencioso” a exigir a resolução urgente do problema.

6 de julho (segunda-feira) – É o dia da viragem política. O vice-presidente da Câmara Municipal, Filipe Pacheco (eleito pelo Partido Socialista – PS), anuncia no início da reunião pública do executivo a ativação do Plano de Contingência dos SMAS e a criação de um Gabinete de Crise, liderado pelo presidente do Conselho de Administração dos SMAS, Luís Palma. “Este executivo tem noção da situação grave que estamos a enfrentar e que não a minimizamos de forma nenhuma”, afirma Filipe Pacheco.
No mesmo dia, a petição ultrapassa as quatro mil assinaturas. A oposição também reage: o Partido Social Democrata (PSD), liderado no concelho por Paulo Sabino, anuncia que vai apresentar uma moção de censura à liderança socialista de Inês de Medeiros, um gesto sem efeito prático, já que a moção não é vinculativa, mas que Sabino espera que sirva de “abre-olhos” para a autarca. Vale notar que o executivo camarário está em minoria: quatro eleitos pelo PS, três pela Coligação Democrática Unitária (CDU, com a qual o PS tem acordo de governação), dois pelo PSD e dois pelo partido Chega.

7 de julho – Em comunicado conjunto, a Câmara Municipal e os SMAS pedem desculpa formal aos munícipes, “lamentando profundamente os incómodos provocados” e reconhecendo o impacto nas famílias, nas empresas e nas instituições. Detalham também as medidas em curso: redução da pressão da rede entre a meia-noite e as 6h00 em todo o concelho, para permitir a recuperação de reservas nos depósitos; camiões-cisterna a posicionar nas zonas mais críticas e junto de clientes sensíveis (hospitais, lares, centros de saúde, bombeiros); reforço da fiscalização para identificar ligações irregulares e consumos anómalos não faturados, com incidência especial na Charneca de Caparica, em Sobreda e na Costa da Caparica, incluindo ações de porta a porta; e pedidos à Agência Portuguesa do Ambiente para acelerar o licenciamento de novos furos de captação, solução considerada a mais rápida para reforçar a disponibilidade de água. Segundo os SMAS, já está em funcionamento um novo furo, com outro previsto para entrar ao serviço até ao final de julho, e mais seis em fase de licenciamento ou projeto. Iniciaram-se ainda contactos com as Águas de Portugal para reforçar a redundância do sistema, através da margem norte ou de interligações com concelhos vizinhos. Os SMAS reivindicam, igualmente, ter reduzido para cerca de metade as perdas por ruturas nos primeiros seis meses do atual mandato, apesar da idade avançada de parte da rede.

8 de julho (quarta-feira) – A situação agrava-se ao ponto de a Câmara Municipal decretar uma situação de alerta formal no concelho, com corte total de abastecimento em 15 localidades entre as 22h00 e as 6h00: Charneca de Caparica, Aroeira, Marisol, Fonte da Telha, Palhais, Lazarim, Botequim, Vila Nova de Caparica, Capuchos, Pilotos, Funchalinho, Vale Rosal, Vale Cavala, Quintinhas e Quinta de Santa Teresa. Enquanto vigorar o estado de alerta, ficam proibidos os usos não essenciais de água da rede pública: rega de jardins públicos e privados e de campos de golfe, fontes ornamentais e lagos artificiais, lavagem de pavimentos exteriores, fachadas e telhados, enchimento de piscinas e lavagem de viaturas. A autarquia garante estar a avaliar a eventual suspensão temporária de atividades ou de equipamentos municipais que consomem mais água, caso tal se revele necessário para acelerar a recuperação do sistema.
É também neste dia que se realiza, na Costa da Caparica, o cordão humano silencioso anunciado dias antes pelos moradores.
9 de julho (quinta-feira) – A normalização plena do abastecimento continua sem data certa, os próprios SMAS admitem, que a estabilização definitiva do sistema só está prevista para 2027, ainda que a mitigação dos cortes mais críticos seja apontada para o final do corrente mês de julho, com a entrada em funcionamento de um novo furo de captação.
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Uma crise anunciada? O que estava, ou não, previsto
Uma das perguntas que esta crise levanta é se algo assim já não podia ter sido evitado. A oposição municipal responde que sim. Ao apresentar a moção de censura, o PSD acusou a Câmara de falta de planeamento, considerando que o aumento sazonal do consumo e as temperaturas elevadas, os dois fatores que os SMAS invocam para justificar os constrangimentos, eram previsíveis e exigiam preparação prévia. A leitura ganha peso com a posição da própria ERSAR, que, na resposta aos esclarecimentos pedidos aos SMAS, considerou insuficientes as explicações apresentadas pela entidade gestora.

Há ainda dois indícios que reforçam essa tese. Por um lado, a Câmara Municipal de Almada e os SMAS admitem, no comunicado conjunto de 7 de julho, que vão agora realizar uma avaliação interna para verificar se todas as medidas de preparação para o período de verão foram adequadamente implementadas, uma avaliação que, em teoria, faria mais sentido ter sido concluída antes do verão do que durante a própria crise.
Por outro, o presidente do SMAS, Luís Palma, afirmou publicamente, a 6 de julho, que a estabilização mais aguda deverá ocorrer ainda neste mês, com a entrada de um novo furo de captação, mas que a melhoria estrutural e duradoura do sistema só está projetada para o primeiro trimestre de 2027, dependente do licenciamento de mais furos pela Agência Portuguesa do Ambiente. Um horizonte de planeamento com essa dimensão não surge do dia para a noite, o que sugere que a necessidade de reforçar a rede já era conhecida antes desta crise se tornar pública.

A Câmara, por seu lado, tem um argumento factual que não foi contestado por nenhuma das partes: os consumos registados em 2026 representam o maior volume de água já distribuído no concelho de Almada em mais de 75 anos de abastecimento público. Defende, por isso, tratar-se de uma “situação verdadeiramente excecional”, resultante de um crescimento de consumo que terá ultrapassado qualquer cenário razoável de dimensionamento da rede, o que é diferente de admitir negligência de planeamento. A isto soma-se a investigação em curso, referida pela ERSAR, sobre eventuais consumos ilícitos e ligações irregulares em zonas onde o aumento de consumo não tem correspondência na faturação, um fator adicional que, a confirmar-se, dilui parte da responsabilidade atribuída ao planeamento autárquico.
A normalização poderá chegar nas próximas semanas. Mas a pergunta que ficará muito para além desta crise é a seguinte: como é que um concelho com mais de 170 mil habitantes chegou ao ponto de ter de racionar água em pleno verão de 2026?
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13/07/2026