“Magnifica humanitas”, de Leão XIV (1)

 “Magnifica humanitas”, de Leão XIV (1)

Em 25 de Maio de 2026, o Vaticano publicou a primeira encíclica do Papa Leão XIV, “Magnifica humanitas”. (cafod.org.uk)

Um alerta para toda a Humanidade!

Promulgação da Carta Lettera Encíclica “Magnifica humanitas”.  (@Vatican Media)
(bookstore.wordonfire.org)

O verdadeiro progresso nasce sempre de um coração aberto ao outro, de uma inteligência disponível para ouvir, de uma vontade que procura mais o que une do que o que separa. (Leão XIV)

O homem moderno não está educado para usar correctamente o seu poder. (Romano Guardini) 

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O Papa Leão XIV publicou, em Roma, a 15 de Maio de 2026, um texto de uma notável actualidade, a carta encíclica “Magnifica humanitas”, que pretende ser um alerta para a Humanidade. Trata-se de um texto muito longo, muito bem fundamentado e de acordo com toda a tradição da Doutrina Social da Igreja Católica. Na conclusão (síntese do conteúdo do número 229) desse texto, o Papa é claro: temos de nos interrogar sobre o mundo que estamos a construir e perguntarmo-nos “o que significa salvaguardar a pessoa humana na era da Inteligência Artificial (IA)”

(agencia.ecclesia.pt)

 Para Leão XIV, “a Magnífica Humanidade criada por Deus encontra-se hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a Humanidade habitam juntos”, recordando ainda que “sobre cada época, porém, paira o risco de construir um mundo desumano e mais injusto”.

Não será por acaso que o Papa recorda a Encíclica “Rerum novarum”,publicada por Leão XIII, em 1891, em que este falava de “novas questões” (rerum novarum), mas concluindo que “hoje não podemos simplesmente repetir os seus preciosos ensinamentos, mas devemos pedir a Deus a sabedoria para interpretar as grandes tendências do nosso tempo, em particular os progressos da técnica”.

Leão XIV lembra-nos, nos tempos mais recentes, “quão rápida e profundamente a digitalização, a inteligência artificial (IA) e a robótica estão a transformar o nosso mundo”, salientando – contudo, recordando palavras de Bento XVI – que a  técnica “não deve ser considerada, em si mesma, como uma força antagónica em relação à pessoa”: pelo contrário, está enraizada na nossa história desde o início, na medida em que é “um dado profundamente humano, ligado à autonomia e à liberdade do homem”. 

(instagram.com/puc_sp)

Para este Papa, é óbvio que o desenvolvimento tecnológico trouxe aos seres humanos melhores condições de vida, embora também tenha manifestado o lado ambíguo de algum progresso, quando não é orientado para o bem. Mas relembra que, hoje, estamos perante uma  situação nova  “em que o poder e a disseminação das tecnologias emergentes se inserem no curso da vida quotidiana, moldam os processos de decisão e incidem profundamente no imaginário coletivo”. E este, a propósito, recorda a “Laudato si”, de 2015, do Papa Francisco, defendendo que “nunca a Humanidade teve tanto poder sobre si mesma”. 

E salienta  que, hoje, “as novas tecnologias abrem um horizonte alargado em direcções que, embora imagináveis, não podemos ainda antever plenamente. Isto torna mais complexo avaliar o seu impacto, bem como os efeitos a longo prazo sobre a dignidade das pessoas e o bem comum” (número 4).

Leão XIV alude ainda aos alertas do Papa Francisco, o qual já salientara, na sua “Caritas in Veritate”, que “não podemos, porém, ignorar que a energia nuclear, a biotecnologia, a informática, o conhecimento do nosso próprio DNA e outras potencialidades que adquirimos […] dão, àqueles que detêm o conhecimento e sobretudo o poder económico para o desfrutar, um domínio impressionante sobre o conjunto do género humano e do mundo inteiro”.

Papa Leão XIV (Instagram @pontifex)

O Pontífice tem razão quando denuncia que, presentemente, os principais motores do desenvolvimento são actores privados, frequentemente  “transnacionais, dotados de recursos e capacidades de intervenção superiores aos de muitos Governos. O poder tecnológico assume […] uma identidade inédita, predominantemente ‘privada’ e, portanto, ainda mais difícil de discernir, gerir e orientar para o bem comum” (passagem n.º 5). E conclui que é forçoso parar um pouco e interrogarmo-nos, perguntando para onde vamos, que metas queremos que nos orientem, que direcção temos de escolher enquanto povos, enquanto comunidade humana.

É neste contexto que  Leão XIV evoca  o episódio bíblico  da construção da torre de Babel (cf. Gn 11, 1-9),  sublinhando que  “Babel revela o limite de qualquer construção, ainda que grandiosa, surgida da absolutização do humano e da sua pretensão de autossuficiência, do sacrifício da dignidade das pessoas em nome da eficiência e da ambição de alcançar o céu sem a bênção de Deus” (n.º 7).

Fica claro que, para Leão XIV, a tecnologia é benéfica, porque permite curar, conectar, educar, cuidar da casa comum. Só que ela permite igualmente dividir, descartar, gerar novas injustiças. Acrescenta ainda que a tecnologia na prática, “não é neutra, porque tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam. Por isso, a primeira escolha não é entre um ‘sim’ ou um ‘não’ à tecnologia, mas entre edificar Babel ou reconstruir Jerusalém: entre um poder que pretende dominar o céu ou um povo que unido, na presença de Deus, começa o trabalho de reerguer os muros da convivência fraterna” (passagem n.º 9).

Por conseguinte, é urgente evitarmos  “a ‘síndrome de Babel’: a idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos; a uniformidade, que anula as diferenças; a pretensão de uma linguagem única – mesmo digital – dedicada a traduzir tudo em dados e desempenhos, inclusive o mistério da pessoa. Este é o risco da desumanização: construir o futuro excluindo Deus e reduzindo o outro a um meio; uma tentação tão antiga e tão nova, que hoje assume também uma faceta técnica” (n.º 10).

Fica claro, neste documento do Papa, que a ilusão da técnica deixa para trás povos inteiros e que as forças do progresso podem exacerbar as desigualdades. Assim, frisa “que a verdadeira realização não nasce da supressão das fragilidades, mas de um crescimento harmonioso: onde a liberdade e a responsabilidade se entrelaçam com o cuidado recíproco e a verdadeira solidariedade, e onde o progresso se mede pela dignidade de cada um e pelo bem dos povos” (passagem n.º 12).

Dada a riqueza de conteúdos deste documento papal, a ele voltaremos em próximo artigo. Para já, esperamos ter contribuído para que os leitores leiam este precioso documento que está ao alcance de todos, quer em livro quer na Internet.

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Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

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09/07/2026

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José Vieira Lourenço

José Vieira Lourenço é da colheita de Agosto de 1952. Estudou Teologia e fez a licenciatura e o mestrado em Filosofia Contemporânea, na Universidade de Coimbra. Professor aposentado do Ensino Secundário, ensinou Português, Filosofia, Psicologia, Sociologia, Teatro e Oficina de Expressão Dramática. Foi, igualmente, professor do Ensino Superior, na Universidade Católica de Leiria e no Instituto Superior Miguel Torga, em Coimbra. Foi ainda coordenador do Centro da Área Educativa de Coimbra (1998-2002) e só então conheceu verdadeiramente a classe docente. Descobriu bem cedo a sua paixão pela poesia, pela literatura, pela música e pelo Teatro. Foi Menino Jesus aos quatro meses no presépio vivo da sua freguesia. Hoje, como voluntário, dirige o Grupo de Teatro O Rebuliço da Associação Cavalo Azul e também o Grupo de Teatro de Assafarge. Canta no Coro D. Pedro de Cristo, em Coimbra. Apaixonado pela Natureza, gosta de passear a pé pelos trilhos da Abrunheira, na companhia do seu cão. Dedicado às causas da cidadania, é dirigente do Movimento Cidadãos por Coimbra, que insiste em fazer propostas para criar uma cidade diferente. Casado, tem duas filhas e uma neta, a quem gosta de contar histórias.

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