Ary – poeta de Abril: nasceu há 87 anos

 Ary – poeta de Abril: nasceu há 87 anos

(abrilabril.pt)

(aerp.pt)

José Carlos Ary dos Santos nasceu há 87 anos, no dia 7 de Dezembro de 1936. Em Lisboa, menina e moça, que ele bordou a ponto luz. Ary, poeta de Abril e Maio, partiu cedo, a 18 de Janeiro de 1984. Evocar Ary dos Santos, hoje, é resgatá-lo à sua campa rasa no cemitério do Alto de São João.

Evocar Ary, hoje, é lembrar o Poeta que sentenciou sobre si próprio: “[…]  Serei tudo o que disserem / por temor ou negação: Demagogo mau profeta / Falso médico ladrão / Prostituta proxeneta / Espoleta televisão. / Serei tudo o que disserem: / Poeta castrado não!”1

(rateyourmusic.com)

Evocar Ary, hoje, é falar de um Poeta e Cidadão de Abril e Maio que, em 1969, fintou os coronéis da Censura e colocou um país inteiro a cantar com Simone de OliveiraCorpo de linho / lábios de mosto / meu corpo lindo / meu fogo posto. / Eira de milho / luar de Agosto / quem faz um filho / fá-lo por gosto. / É milho-rei / milho vermelho / cravo de carne / bago de amor / filho de um rei / que sendo velho / volta a nascer quando há calor.”2

Evocar Ary, hoje, é falar de um Poeta e Cidadão de Abril e Maio que, em 1973, através da voz de Fernando Tordo, anunciou: Com bandarilhas de esperança / afugentamos a fera / estamos na praça da Primavera. / Nós vamos pegar o mundo / pelos cornos da desgraça / e fazermos da tristeza graça.”3

A 26 de Fevereiro de 1973, foi realizado, no Teatro Maria Matos, em Lisboa, o X Grande Prémio TV da Canção Portuguesa. (festivaiscancao.wordpress.com)

Evocar Ary, hoje, é falar de um Poeta “[…] que se origina a si mesmo / que numa sílaba é seta / noutra pasmo ou cataclismo / o que se atira ao poema / como se fosse ao abismo. / Original é o poeta capaz de escrever em sismo […]”4

Evocar Ary, hoje, é trazer à lembrança as palavras que espalhou por mais de 600 canções e 20 livros (e relembrar as três linhas que integram a sua poesia: a lírica, a satírica e a de intervenção).

Evocar Ary, hoje, é lembrar o “poeta do povo”, pois, para ele, a poesia, é em primeiro lugar, a maneira que eu tenho de falar com o meu povo”. “Depois é por causa desse povo, a própria razão da minha vida. É pesquisa, luta, trabalho e força”, confirma.5

Evocar Ary, hoje, é relembrar um valoroso soldado da Língua Portuguesa (um general da genialidade que se recusou a ficar entre as quatro paredes da sua casa na Rua da Saudade e que, por assim ter decidido, percorreu centenas de aldeias, vilas e cidades a disparar poemas pesados e canções ligeiras).

(imagensdemarca.pt)

Evocar Ary, hoje, é (re)lembrar um trovador e um grande poeta português. Com invenção verbal e coluna vertebral. Erudita e popular. Tendo a boa companhia de Bocage, Junqueiro, Aleixo, Brecht e O’Neill (ou seja: de porta-vozes do Verbo e da Consciência Contra a Poesia da Resignação).6

Evocar Ary, hoje, é prestar homenagem a um Poeta que, por razões políticas e académico-literárias, alguns querem esconder numa gaveta da História da Literatura Portuguesa (literatura portuguesa que, cada vez mais, só tem lugar para quem embrulha as palavras em papel de celofane, que a generalidade das editoras coloca em vistosos pacotes disfarçados de livros).

Evocar Ary, hoje, é impedir que calem a sua voz. É impedir que calem uma das vozes que nos ensinou a cantar Abril. E nós bem precisamos dela, da sua voz (sobretudo, agora, neste tempo de retrocesso das conquistas democráticas e civilizacionais, num país que tem um governo duro com os mais fracos e mole com os mais poderosos).

Evocar Ary, hoje, é justiciar um filho da alta burguesia lisboeta que preferiu ser um aristocrata da Rebeldia e da Camaradagem.

Evocar Ary, hoje, é lembrar que, depois de abandonar o conforto da casa paterna, por decisão própria, o Poeta exerceu vários e modestos ofícios no ofício de sobreviver.

Evocar Ary, hoje, é (re)lembrar o Publicitário, excelente, a quem os empresários tiveram de recorrer para revolucionar o discurso social dos produtos, mas a quem nunca prestou vassalagem (“[…] Aqui ninguém me diz / quando me vendo / a não ser os que eu amo / os que eu entendo / os que podem ser tanto como eu.”7

Evocar Ary, hoje, é pedir-lhe que continue ao nosso lado a “pegar o mundo / pelos cornos da desgraça”.

Evocar Ary, hoje, é convocá-lo para as lutas de hoje e para os combates de amanhã.

(jornaldeca.pt)

Evocar Ary, hoje, é garantir-lhe que continuaremos a disparar os seus poemas pesados contra um sistema criminoso:

  • que dita a morte de cinco crianças por fome, a cada minuto, no Mundo;
  • que transforma o Mediterrâneo num mar de cadáveres de homens, mulheres e crianças que fogem à miséria extrema e à guerra em África;
  • que produz milhões de sem-terra no Brasil;
  • milhões de sem-abrigo na velha Europa, entregue a indignos governantes;
  • e pretos pobres assassinados pelas balas de polícias brancos nos Estados Unidos da América;
  • que esmaga o povo palestiniano contra o muro da vergonha na Faixa de Gaza.
(facebook.com – Museu do Aljube Resistência e Liberdade)

E é jurar-te, Ary, que aqui na tua e nossa mátria, por mais que alguns queiram, ninguém cerrará “As Portas Que Abril Abriu”.

Viva, Ary! Poeta/Cidadão de Abril e Maio.

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Notas:

1 – Excerto do poema “Poeta Castrado, Não!”, incluído no livro “RESUMO”, edição de autor, em Lisboa, no ano de 1972 (p.13), com distribuição da Livraria Quadrante.

2 – Primeiro verso da “Desfolhada Portuguesa”, canção vencedora do Festival da Canção RTP / 1969, interpretada por Simone de Oliveira e que representou o nosso país no Festival da Eurovisão, que, nesse ano, se realizou em Madrid. No regresso da capital espanhola, e segundo testemunho da cantora, “as pessoas apareciam nas estações de comboio, manifestando-se com espigas vermelhas” (como foi relembrado na sessão de homenagem a Ary dos Santos, na Livraria-Galeria de Arte Arca das Letras, em Gondomar, a 17 de Janeiro de 2004).

3 – Excerto de “Tourada”, canção vencedora do Festival RTP / 1973, com letra de Ary dos Santos e música de Nuno Nazareth Fernandes, interpretada por Fernando Tordo.

(farpasblogue.blogspot.com)

4 – Excerto de “O Poema Original”, que integra o livro “RESUMO”, edição de autor, em Lisboa, no ano de 1972.

5 – “O Poeta morreu a voz continua”, in Diário de Notícias (suplemento de domingo), colectânea de textos, a partir de entrevistas (Lisboa, 22 de Janeiro de 1984, pp. 38-40).

6In “Poemas de Megafone”, de César Príncipe, edição Seara de Letras, Porto, Abril de 2011

7 – Excerto de “Soneto Presente”.

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07/12/2023

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Soares Novais

Porto (1954). Autor, editor, jornalista. Tem prosa espalhada por jornais, livros e revistas. Assinou e deu voz a crónicas de rádio. Foi dirigente do Sindicato dos Jornalistas (SJ) e da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto (AJHLP). Publicou o romance “Português Suave” e o livro de crónicas “O Terceiro Anel Já Não Chora Por Chalana”. É um dos autores portugueses com obra publicada na colecção “Livro na Rua”, que é editada pela Editora Thesaurus, de Brasília. Tem textos publicados no "Resistir.info" e em diversos sítios electrónicos da América Latina e do País Basco. É autor da coluna semanal “Sinais de Fogo” no blogue “A Viagem dos Argonautas”. Assina a crónica “Farpas e Cafunés”, na revista digital brasileira “Nós Fora dos Eixos”.

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