As vozes naturais da Amazónia
(aca.org.br)
Para o bem e para o mal, os meios tecnológicos de hoje permitem-nos observar em directo, na outra metade do planeta, o voo de uma borboleta da Amazónia, certamente – tal como as demais espécies animais e vegetais, sem excluirmos as dos outros clássicos três reinos de seres vivos – muito conhecedora do seu habitat e, por isso, bastante sensível às alterações do ecossistema. Assim, embora saibamos que as borboletas não falam como nós, elas têm a capacidade de comunicarem entre si através de sinais químicos e visuais, sobretudo pelas cores e pelos padrões das suas asas, que nos maravilham. Os lepidopteristas e outros especialistas estudam também a biologia e a ecologia de algumas variedades de borboletas que utilizam os sons para interagirem.

Esses frágeis e belos insectos que simbolizam a renovação, a evolução e a transformação (sendo a metamorfose um fenómeno que ainda nos espanta, principalmente quando emergem, já adultos, da crisálida ou do casulo) são perfeitos bioindicadores do que se passa à sua volta, apercebendo-se das mudanças climáticas e ambientais que nos escapam ao olhar ou que teimamos em descurar. É, pois, preciso atender ao que nos diz essa borboleta que, mesmo à distância de muitos milhares de quilómetros, alerta para os perigos que nos são comuns. Por outra perspectiva, imagine-se o que aconteceria se a planta hospedeira que acolheu e alimentou a lagarta que se transformou numa comunicativa borboleta não se adaptasse à mudança do seu meio ou nicho ecológico.

Na tradição oral, os índios do Amazonas crêem que as almas dos mortos se transformam em borboletas e, naturalmente, reconhecem a sua necessidade de voar de flor em flor. Não sei se as dezenas de indígenas do povo Munduruku (que vivem, maioritariamente, em três estados brasileiros: Amazonas, Mato Grosso e Pará) transmitem esta lenda aos seus filhos, mas leio que, na manhã de sexta-feira (14 de Novembro), barraram a entrada principal da Zona Azul da 30.ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), iniciativa que está a decorrer em Belém do Pará, até 21 de Novembro.
A COP30 evidencia que as pessoas têm de se mobilizar, a nível local e global, para transformar as preocupações em acções concretas e para trabalhar em conjunto na mitigação dos impactos do calor extremo e das alterações climáticas, entre outros. O mutirão – enquanto trabalho colectivo, gratuito e voluntário – é um exemplo a seguir para benefício das comunidades.

Por outro lado, mais de 1600 representantes de empresas ligadas aos combustíveis fósseis garantiram acesso à primeira Conferência do Clima sediada na Amazónia (COP30), o que constitui a maior concentração de lobistas na história das cúpulas anuais em torno mudança do clima, superando o número de elementos de quase todas as delegações dos países presentes. Como nos conta a jornalista Aline Flor, a “presença maciça da indústria, com quase um em cada 25 participantes a representar sectores ligados à produção e consumo de combustíveis fósseis, intensifica o debate sobre a necessidade de um quadro de responsabilização para proteger as negociações da chamada ‘captura corporativa’”.

Neste contexto, segundo as agências noticiosas, os manifestantes protestam contra projectos do Governo brasileiro que podem afectar os povos autóctones que vivem na bacia dos rios Tapajós e Xingu, além das actividades extractivistas nos territórios indígenas. Em conversa com a ONU News (junto do seu enviado especial Felipe de Carvalho), a jovem indígena Amanda Pankará, do povo Pankará, no estado de Pernambuco, afirma que estas reivindicações são válidas: “Nós estamos reivindicando direito à terra, direito à vida e […] nós que fazemos essa barreira de prote[c]ção […] queremos ser ouvidas de fa[c]to. Então, estar aqui hoje, representando aqueles que não tiveram a oportunidade de estar é reforçar ainda mais a nossa presença e responsabilidade.”
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Nota:
O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 3 de Novembro) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.
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17/11/2025