As vozes naturais da Amazónia

 As vozes naturais da Amazónia

(aca.org.br)

Para o bem e para o mal, os meios tecnológicos de hoje permitem-nos observar em directo, na outra metade do planeta, o voo de uma borboleta da Amazónia, certamente – tal como as demais espécies animais e vegetais, sem excluirmos as dos outros clássicos três reinos de seres vivos – muito conhecedora do seu habitat e, por isso, bastante sensível às alterações do ecossistema. Assim, embora saibamos que as borboletas não falam como nós, elas têm a capacidade de comunicarem entre si através de sinais químicos e visuais, sobretudo pelas cores e pelos padrões das suas asas, que nos maravilham. Os lepidopteristas e outros especialistas estudam também a biologia e a ecologia de algumas variedades de borboletas que utilizam os sons para interagirem.

(papillonschenilles49.fr)

Esses frágeis e belos insectos que simbolizam a renovação, a evolução e a transformação (sendo a metamorfose um fenómeno que ainda nos espanta, principalmente quando emergem, já adultos, da crisálida ou do casulo) são perfeitos bioindicadores do que se passa à sua volta, apercebendo-se das mudanças climáticas e ambientais que nos escapam ao olhar ou que teimamos em descurar. É, pois, preciso atender ao que nos diz essa borboleta que, mesmo à distância de muitos milhares de quilómetros, alerta para os perigos que nos são comuns. Por outra perspectiva, imagine-se o que aconteceria se a planta hospedeira que acolheu e alimentou a lagarta que se transformou numa comunicativa borboleta não se adaptasse à mudança do seu meio ou nicho ecológico.

(aca.org.br)

Na tradição oral, os índios do Amazonas crêem que as almas dos mortos se transformam em borboletas e, naturalmente, reconhecem a sua necessidade de voar de flor em flor. Não sei se as dezenas de indígenas do povo Munduruku (que vivem, maioritariamente, em três estados brasileiros: Amazonas, Mato Grosso e Pará) transmitem esta lenda aos seus filhos, mas leio que, na manhã de sexta-feira (14 de Novembro), barraram a entrada principal da Zona Azul da 30.ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), iniciativa que está a decorrer em Belém do Pará, até 21 de Novembro.

A COP30 evidencia que as pessoas têm de se mobilizar, a nível local e global, para transformar as preocupações em acções concretas e para trabalhar em conjunto na mitigação dos impactos do calor extremo e das alterações climáticas, entre outros. O mutirão – enquanto trabalho colectivo, gratuito e voluntário – é um exemplo a seguir para benefício das comunidades.

Povo Munduruku da região do Médio Tapajós. (infoamazonia.org)

Por outro lado, mais de 1600 representantes de empresas ligadas aos combustíveis fósseis garantiram acesso à primeira Conferência do Clima sediada na Amazónia (COP30), o que constitui a maior concentração de lobistas na história das cúpulas anuais em torno mudança do clima, superando o número de elementos de quase todas as delegações dos países presentes. Como nos conta a jornalista Aline Flor, a “presença maciça da indústria, com quase um em cada 25 participantes a representar sectores ligados à produção e consumo de combustíveis fósseis, intensifica o debate sobre a necessidade de um quadro de responsabilização para proteger as negociações da chamada ‘captura corporativa’”.

Povo Munduruku reivindicando demarcação de território, em 2016. (Créditos fotográficos: Divulgação / Tiago Miotto / Cimi – noticias.uol.com.br)

Neste contexto, segundo as agências noticiosas, os manifestantes protestam contra projectos do Governo brasileiro que podem afectar os povos autóctones que vivem na bacia dos rios Tapajós e Xingu, além das actividades extractivistas nos territórios indígenas. Em conversa com a ONU News (junto do seu enviado especial Felipe de Carvalho), a jovem indígena Amanda Pankará, do povo Pankará, no estado de Pernambuco, afirma que estas reivindicações são válidas: “Nós estamos reivindicando direito à terra, direito à vida e […] nós que fazemos essa barreira de prote[c]ção […] queremos ser ouvidas de fa[c]to. Então, estar aqui hoje, representando aqueles que não tiveram a oportunidade de estar é reforçar ainda mais a nossa presença e responsabilidade.”

.

………………………….

.

Nota:

O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 3 de Novembro) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.

.

17/11/2025

Siga-nos:
fb-share-icon

Vitalino José Santos

Jornalista, cronista e editor. Licenciado em Ciências Sociais (variante de Antropologia) e mestre em Jornalismo e Comunicação. Oestino (de Torres Vedras) que vive em Coimbra.

Outros artigos

Share
Instagram