Autonomia, interioridade e Europa: o que ainda falta cumprir no ensino superior português
João Carrega foi presidente do Conselho Geral da Universidade de Évora. (uevora.pt)
Há livros que não pretendem fazer barulho, mas que, pela serenidade com que são escritos, acabam por iluminar com mais nitidez aquilo que o país tende a esquecer. “Ensino Superior. Da Interioridade à Europa das Universidades…”, de João Carrega, é um desses livros. Não é um manifesto, não é um relatório técnico, não é um exercício de nostalgia. É, antes, um convite à responsabilidade: pensar o ensino superior português a partir do território, da missão pública e da inserção europeia – três dimensões que, quando articuladas, revelam tanto o que já foi alcançado como o que ainda está por cumprir.

A primeira dessas dimensões é a interioridade. João Carrega não a trata como um problema, mas como um critério de justiça territorial. O interior não é um apêndice do país; é parte integrante da sua identidade e da sua coesão. As instituições que aí nasceram – universidades e politécnicos – tornaram visíveis tensões que persistem: a centralização das decisões, a litoralização dos investimentos, a dificuldade em fixar população qualificada. No interior, a universidade não é apenas um lugar de ensino; é um polo cultural, um motor económico, um instrumento de qualificação e, muitas vezes, a única âncora de futuro para comunidades que lutam contra décadas de desigualdade acumulada.
É neste ponto que o livro convoca uma figura decisiva da História recente: Veiga Simão. O antigo ministro da Educação teve a coragem – e a visão – de avançar com a criação de novas universidades num país que ainda não percebia plenamente a importância estratégica dessa decisão. Contra resistências políticas, corporativas e orçamentais, Veiga Simão abriu o ensino superior ao interior, democratizou o acesso ao conhecimento e lançou as bases para um desenvolvimento territorial mais equilibrado. João Carrega recupera este legado não por nostalgia, mas para lembrar que as grandes reformas exigem convicção, persistência e sentido de país.

O segundo eixo do livro é a universidade como bem público. Aqui, o autor escreve com a serenidade que o caracteriza, mas também com uma firmeza que não deixa margem para equívocos. A universidade não é um serviço transacionável, nem um centro de prestação de contas burocráticas. A sua legitimidade deriva da missão de formar cidadãos, de produzir conhecimento crítico, de contribuir para o desenvolvimento social e de responder ao território que a acolhe.
É, precisamente, neste ponto que o diagnóstico se torna mais incisivo. João Carrega identifica dois travões estruturais que limitam a capacidade das instituições: a falta de autonomia efetiva e a dureza da burocracia. A autonomia, tantas vezes proclamada, continua a ser condicionada por mecanismos de tutela que restringem a capacidade de decisão e a agilidade institucional. A burocracia, por sua vez, transformou-se num labirinto de relatórios, de plataformas, de pareceres e de procedimentos que consomem tempo e energia, desviando recursos humanos altamente qualificados para tarefas de mera sobrevivência administrativa. O autor não acusa ninguém, não dramatiza, não personaliza. Porém, deixa claro que um sistema que desconfia das suas instituições não pode pedir-lhes inovação, risco ou visão estratégica.

Conselho Geral do Instituto Politécnico de Castelo
Branco. (ipcb.pt)
O terceiro eixo é a Europa das Universidades. João Carrega reconhece a importância das redes europeias, da mobilidade estudantil e docente, dos consórcios universitários e da investigação colaborativa. A Europa é um horizonte de circulação e de partilha de conhecimento. No entanto, o autor alerta para o risco de uma uniformização burocrática que, em nome da harmonização, possa apagar identidades institucionais ou ignorar especificidades territoriais. A internacionalização é virtuosa quando amplia o território, não quando o substitui. A universidade deve ser simultaneamente local e europeia, enraizada e cosmopolita.

A força do livro reside, justamente, na articulação destes três eixos. A interioridade oferece o lugar onde a missão pública se torna mais visível. A ideia de universidade como bem público fornece o fundamento ético. A Europa das Universidades abre o horizonte de futuro. Daqui resulta uma visão de universidade enraizada, autónoma, solidária, crítica e aberta – uma universidade capaz de dialogar com o Mundo sem perder o território que lhe dá sentido.

Num tempo em que o ensino superior enfrenta pressões contraditórias – entre a exigência de eficiência e a necessidade de missão, entre a internacionalização e a coesão territorial, entre a autonomia proclamada e a burocracia crescente –, o livro de João Carrega é um gesto de lucidez e de responsabilidade. Não aponta o dedo, não procura culpados, não dramatiza. Todavia, lembra-nos, com elegância e firmeza, que o futuro do país passa, inevitavelmente, pela capacidade de as suas instituições de ensino superior cumprirem a missão que lhes foi confiada.
E talvez seja esse o contributo mais importante da obra: recordar que a universidade não é apenas um lugar onde se ensina e se investiga. É um compromisso com o território, com a sociedade e com o futuro. Um compromisso que exige autonomia real, confiança responsável e políticas públicas capazes de olhar para o país inteiro – como fez Veiga Simão e como o livro de João Carrega nos desafia a fazer novamente.
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25/05/2026