Balanço de um país que tem vergonha dos cravos
(Créditos fotográficos: Pedro Nunes / Citizenside – idtour.pt)
É rotineira, com o fim de cada ano civil, a tarefa de proceder ao balanço do exercício de uma qualquer organização produtiva ou prestadora de serviços, procurando registar os seus activos, as dívidas e os passivos, salvaguardando o capital investido. Essa é uma forma de avaliar a situação financeira e patrimonial, tendo em vista acertar estratégias de gestão e assegurar a respectiva liquidez. Assim se enfrentam as responsabilidades sociais e fiscais com mais confiança e assertividade.

Crescer é, naturalmente, o que importa no mundo possidente do deve e do haver, conhecendo as fragilidades e os pontos fortes que ajudam o pequeno capitalista ou o accionista maioritário a melhor enfrentar o futuro do seu negócio e, se possível, a juntar dinheiro líquido no bolso. Porém, mais de meio século depois do 25 de Abril, muitas das expectativas de justiça e de dignidade social continuam por cumprir.
Vivemos um novo tempo em que se acentua a distribuição desigual da riqueza e se repetem os ciclos da pobreza. Assistimos aos ataques discriminatórios e aos preconceitos que escavam a dignidade de tanta gente, com a ligeireza de quem substitui os cravos vermelhos e exalta a metáfora das rosas brancas. No entanto, o espaço público já não disfarça os sem tecto ou em situação de sem-abrigo embrulhados em serapilheira e nos cobertores puídos, mesmo nas fachadas principais das agências bancárias e dos templos do consumo.

Estas questões sublinham a necessidade contínua de políticas públicas eficazes, de reformas estruturais e de um compromisso colectivo para promover uma sociedade mais equitativa e justa, não obstante o sobe e desce das bolsas de valores.
O balanço social de um país é, sem dúvida, mais do que o somatório desse vasto conjunto das conexões financeiras, industriais, mercantis ou de outros entendimentos de produção e de troca. Em qualquer realidade nacional, o balanço social constitui um importante instrumento de gestão e de planeamento, dando conta do impacto das políticas de recursos comunitários, incluindo os do interior desertificado. Permite avaliar a eficiência e a transparência dos investimentos públicos, atendendo às melhores condições de trabalho e a uma administração estratégica que não aliene as pessoas.

Isso é o que esperamos de um estado que responda às necessidades básicas dos seus cidadãos, identificando o sofrimento dos mais frágeis, apoiando-os com acções concretas e de compromisso. A solidariedade é, pois, a matriz humana que vale numa sociedade que se diz justa e fraterna. Mas, neste final de ano, Portugal é um território com mais de dois milhões de pessoas em risco de pobreza ou de exclusão social. As fragilidades que, quase sempre, os governantes tentam esconder fazem-se sentir no acesso à habitação e nas famílias sem rendimentos e sem protecção social, expondo-as ao frio, à doença e à fome que agride crianças, idosos e imigrantes.
Citado pela professora de Economia Susana Peralta, o candidato presidencial Manuel João Vieira serve-se do burlesco para nos questionar sobre a concentração de riqueza: “Portugal é um país rico e os portugueses são pobres e deprimidos e têm razão.” Por isso, precisarão de atender aos conselhos do primeiro-ministro, Luís Montenegro, quando enaltece o paradigmático esforço de Cristiano Ronaldo. Será que a falta de princípios de figuras como Donald Trump (suposto herói de Cristiano) também é exemplo a seguir? Para fechar o texto, o candidato Vieira ainda denuncia: “O Estado português é o padrasto violador de direitos e oportunidades.” Vá-se lá saber porquê.
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Nota:
O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 28 de Dezembro) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.
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29/12/2025