Bem te avisei, Luís!
(Créditos fotográficos: Carl Tronders – Unsplash)

no extremismo político e no populismo na Europa e nos Estados
Unidos da América. (Créditos fotográficos: Frankie Fouganthin –
pt.wikipedia.org)
As interpretações do populismo movem-se frequentemente entre dois pólos: o da convicção e o da estratégia. Se, para alguns atores políticos, os pressupostos da gramática populista refletem uma conceção genuína da sociedade e da política, para outros, constituem sobretudo um repertório discursivo e organizacional mobilizado de forma pragmática, em função das oportunidades e constrangimentos do contexto em que atuam. Em última instância, esta clivagem remete para um dos debates centrais da literatura contemporânea sobre o populismo: entre a perspetiva ideacional de Cas Mudde, que o entende como uma ideologia de núcleo reduzido, e a abordagem performativa de Benjamin Moffitt, que privilegia a sua dimensão estratégica e comunicacional.

comunicacional do populismo. (research.monash.edu)
Como em tantas tipologias das Ciências Sociais, as fronteiras não são absolutas. Muitos atores populistas ocupam um espaço intermédio, alcançado pela conjugação de elementos ideacionais e estratégicos em proporções variáveis. Ainda assim, na maioria dos casos, é possível identificar uma inclinação predominante para uma destas dimensões. Tomemos Donald Trump como exemplo paradigmático de um populismo movido mais pela convicção do que pelo cálculo. Ao longo da sua trajetória política, multiplicam-se decisões e declarações cuja utilidade eleitoral imediata parece, no mínimo, duvidosa: a insistência em confrontos diplomáticos, a retórica agressiva dirigida a adversários internos e externos, a escalada verbal em torno de temas geopolíticos sensíveis ou a sucessão quase ininterrupta de controvérsias.
Há figuras que moldam o discurso em função das sondagens; Trump procura moldar a realidade às suas próprias obsessões e intuições. É neste sentido que se aproxima mais da conceção ideacional de Cas Mudde: menos um ator que interpreta habilmente as correntes da opinião pública do que um líder que atua a partir de um conjunto de crenças e impulsos que, certos ou errados, parecem anteceder qualquer cálculo político rigoroso.
Já para encontrar um exemplo mais próximo da abordagem de Benjamin Moffitt, não precisamos de sair de Portugal — e é justamente aqui, considerando André Ventura, que quero chegar.

Os elementos que Moffitt identifica como característicos do estilo populista surgem com notável regularidade na sua comunicação política: dramatização permanente dos acontecimentos, transgressão das convenções discursivas, construção recorrente de cenários de crise, simplificação de conflitos complexos e uma elevada sensibilidade às correntes da opinião pública. Costumo dizer – meio a brincar, meio a sério – que, se o populismo fosse um piano, André Ventura não deixava uma única tecla por tocar. A metáfora tem alguma utilidade analítica, na medida em que um político pode recorrer ao populismo sem que toda a sua identidade política se esgote nele. Ser populista, ainda que estrategicamente, não implica habitar permanentemente este tipo de registo; não obstante, quanto mais completa e sistemática for a mobilização deste repertório, mais plausível se torna a hipótese de que estamos perante uma performance cuidadosamente construída.

única tecla por tocar. (pianoeteclado.com.br)
Para quem procura evidência empírica para o quadro supracitado, a discussão em torno da reforma laboral apresenta-se como particularmente esclarecedora. Atentemos à sequência de acontecimentos: apoio inicial à proposta; aproximação às posições dos manifestantes que a contestavam; oposição cautelosa e condicionada pela questão da idade da reforma; reabertura à possibilidade de apoio. Por fim, rejeição da viabilização do diploma, um dia após o anúncio pomposo de que seria aceite.
Emerge, deste emaranhado de posições, uma extraordinária capacidade de adaptação ao contexto político e ao clima de opinião de cada momento. Além disso, é precisamente esta versatilidade que permite ocupar simultaneamente lugares discursivos que, à primeira vista, pareceriam incompatíveis – André Ventura reclama para si a bandeira da mudança, enquanto atribui a responsabilidade pela estagnação à alegada incapacidade dos “partidos de sempre”.

O padrão é suficientemente evidente para que todos o compreendam? É. Todos o compreendem? Quase todos – não o descobriram ainda Luís Montenegro, Hugo Soares e outros dirigentes, ou dificilmente teriam demonstrado tamanha confiança na véspera da votação: “Por muito que vos custe, amanhã a proposta vai ser aprovada”, clamavam no dia anterior à rejeição do Chega. A convicção desta frase, tão enfática quanto mal colocada, sugere uma leitura deficiente de um ator político cuja lógica de atuação já, há muito, deixou de poder ser interpretada pelos critérios convencionais da negociação parlamentar.
Consequentemente ou não, ainda que depois de cedências aos critérios do Chega, o novo regime de Prestação Social Única foi aprovado com o Partido Socialista. Talvez – um “talvez” não muito assistido pela esperança – já tenham percebido quais são as pontes frequentáveis no Hemiciclo da Assembleia da República. Talvez – não com mais esperança do que na última vez – não tenhamos de repetir algo como: “Bem te avisei, Luís!”
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25/06/2026