Caminhar como acto político e de resistência
(Créditos fotográficos: Alvin Mahmudov – Unsplash)
Caminhar parece, à primeira vista, um gesto simples, quase automático. Um pé à frente do outro, o corpo em movimento, o mundo a passar. No entanto, ao longo da história do pensamento, caminhar foi muito mais do que deslocação: foi subsistência, resistência, contemplação e, sobretudo, uma necessidade natural. Num tempo em que o silêncio se tornou raro, a atenção fragmentada, regressar à ideia de caminhar como prática livre assume um carácter quase subversivo.

Henry David Thoreau, no ensaio “Walking”, defendia o acto de caminhar como uma forma de vaguear sem destino útil, afastado da lógica produtiva. Para Thoreau, caminhar era simultaneamente um exercício espiritual e político: sair da cidade, do trabalho e das obrigações para se perder na Natureza. Não se tratava de chegar a algum lugar, mas de permanecer no caminho. Caminhar era, assim, uma recusa do tempo cronometrado e uma afirmação da autonomia individual. O corpo em movimento tornava-se instrumento de pensamento; e a paisagem um texto a ser lido com lentidão. É um gesto mínimo, mas profundamente político. Ao caminhar sem finalidade, o corpo escapa por instantes à economia da produtividade e da visibilidade, devolvendo-se a si próprio.

Mais de um século depois, Frédéric Gros recupera essa tradição em “Marcher, une philosophie”. Para o filósofo francês, caminhar continua a ser um gesto radical num mundo dominado pela velocidade, pela “performance” e pela visibilidade constante. Gros sublinha que caminhar não serve para “melhorar” nada: não é treino, não é desafio, não é optimização. É, pelo contrário, uma suspensão. Ao caminhar, o sujeito deixa de ser um projecto a cumprir e passa a ser um corpo sensível, atravessado pelo vento, pela luz e pelo silêncio. É nesse intervalo que o pensamento se solta e a atenção se reorganiza.
Essa dimensão do silêncio é central. O silêncio do caminhar não é a ausência de som, mas uma escuta mais ampla. O ruído da cidade, das notificações e da urgência permanente dá lugar a outros ritmos: o som dos passos, da respiração, do mundo. Caminhar ensina a estar presente sem finalidade, algo cada vez mais raro numa cultura que transforma qualquer prática em rendimento mensurável. O silêncio, neste contexto, é uma condição necessária à contemplação.

Charles Baudelaire, ao falar do “flâneur”, descreveu outra figura do caminhar: o deambular urbano, o vaguear atento pelas ruas da cidade. O “flâneur” não caminha para escapar à modernidade, mas para a observar. Mistura-se com a multidão sem se dissolver nela, observa montras, rostos e gestos, numa postura concomitantemente distanciada e presente. Também aqui o caminhar se afirma como forma de resistência: num espaço urbano pensado para o consumo e para a circulação rápida, o “flâneur” abranda, olha e demora-se. A cidade transforma-se, assim, num cenário de contemplação e crítica.

Hoje, porém, esse caminhar livre parece ameaçado por uma lógica de mercantilização que tudo absorve. Caminhar tornou-se “actividade”: contam-se passos, queimam-se calorias, mede-se produtividade. A meditação e o ioga, práticas ancestrais ligadas ao silêncio, à interioridade e à disciplina do espírito, são frequentemente vendidas como soluções rápidas para o “stress” produzido pelo próprio sistema que as incorpora. Aplicações, retiros de luxo e aulas “premium” prometem paz interior em pacotes mensais, transformando o recolhimento em mais um produto de mercado.
Paralelamente, o chamado “estilo de vida natural” tornou-se fetiche. Um “lifestyle” que denuncia estatuto social. A caminhada na floresta, o banho gelado, a alimentação “limpa” ou a vida simples são exibidos nas redes sociais como símbolos de autenticidade e distinção. A Natureza, que para Thoreau era um espaço de retirada e de questionamento, converte-se em cenário estético, cuidadosamente enquadrado para consumo visual. O silêncio é fotografado, a contemplação partilhada, o retiro transformado em conteúdo. O gesto que deveria libertar acaba, assim, por reforçar a lógica da exposição permanente. Cada acção é avaliada pelo seu retorno, cada prática pela sua utilidade, cada experiência pela sua capacidade de ser vendida, exibida ou convertida em desempenho. Até o descanso precisa de justificar-se e a contemplação deve mostrar a sua eficácia.

Neste contexto, caminhar sem objectivo, deambular sem registo, torna-se um acto quase político. Não para melhorar a “performance”, não para produzir imagens, não para cumprir metas, mas para recuperar uma relação directa com o corpo e com o mundo. Caminhar, tal como sugerem Thoreau, Gros ou Baudelaire, implica aceitar a inutilidade, a lentidão e a solidão. Implica reconhecer que nem tudo pode ser mercantilizado ou optimizado. Não se trata de nostalgia nem de romantização da vida natural, mas de uma afirmação concreta de liberdade: a liberdade de perder tempo, de não render, de simplesmente estar.
Talvez resida aí a verdadeira importância do caminhar hoje: não como prática de bem-estar formatada, mas como experiência de silêncio num mundo ruidoso; não como fetiche naturalista, mas como exercício de atenção; não como consumo, mas como presença. Num tempo em que até o descanso se tornou tarefa, caminhar sem finalidade permanece uma lembrança simples e poderosa de que estar vivo não é um projecto, mas um percurso. Um passo depois do outro, fora do circuito do mercado, o caminhar recupera aquilo que hoje parece mais ameaçado: a possibilidade de existir sem justificação.
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12/01/2026