Caminhos espanhóis e um caminho português
Toledo e o rio Tejo. (pt.wikiloc.com)
Interessava-me conhecer Toledo, buscar num dia de folguedo o seu enredo: a sua inclinação ecuménica, ver de perto a inclinação reverente que ali lhe faz o Tajo (ou Tejo). Um lugar onde o rio se apresenta numa curva assemelhada a uma ferradura, onde cumpre uma espécie de trôpego meneio de cumprimento à cidade, tal e qual consegue vê-la encimada a partir do desfiladeiro.

Nascido espanhol, em Albarracín1, cumpre o seu destino: sempre em frente, até vir a tornar-se português. Portugal o reverencia, conferindo-lhe uma honorífica presença: Alentejo, Ribatejo e, quiçá, haverá ainda “aquéntejo”, “acolátejo”… Adotam-no até desembocar no mar, não sem antes ser um cenário lisboeta. Trata-se de um rio espanhol que quis ser português. Não seria o único: o Douro, o Guadiana, o Minho e o Lima tornam-se portugueses no caminho. Bem, o Minho e o Lima são “galegos”…2 Até por isso “nunca deixaram” de ser Portugal, mas isto é uma outra história.

Rios não são afeitos a limitações territoriais terrosas, fluem independentes, ávidos de virarem mar. Conferi a cidade de Toledo como um lugar onde qualquer fé não demandava medos. O seu rio habituou-a a contemplar o seu arremedo de uma paz cordial. Impressionou-me o convívio religioso arquitetónico mantido, os vislumbres do lugar a partir das cores de El Greco, a mesquita do Cristo de la Luz , o gótico e o El Transparente da sua Catedral, a Sinagoga de Santa Maria la Blanca. Toledo faz bem ao espírito aberto. Mas eu estava a escrever sobre um rio, quero falar de rios.

Há rios em Portugal genuinamente portugueses. Aliás, um deles seria(m) dois, é o caso do rio Ul, quando se associa ao rio Antuã3. Em Santiago de Riba-Ul, ele é Ul; em Estarreja, ele é Antuã. Por lá, intercala-se com o único “rio” feminino existente: a ria de Aveiro4.
Nada como começar o caminho português de Santiago de Compostela na pequena Santiago de Riba. Santiago, em razão do seu orago, ora arriba. Atravessar a ponte do Salgueiro com os seus dois arcos medievos é dar as voltas ao tempo. Só não espere encontrar vestígios do que outrora teria existido no lugar: um mosteiro de freiras que teria sido destruído pelos Mouros. A propósito, Portugal tem umas boas lembranças dos Mouros, quer sejam na azulejaria, no idioma, na culinária, nos perfis, nos cabelos e olhos de muitas pessoas. Não se parece com a Espanha, que se, supostamente, se fundou acuada5 pelos Mouros e que parece estar sempre a defender-se deles.

A Galiza foi integrada no reino de Leão por razões políticas, e não apenas pela sua semelhança com Portugal. Os reinos de Leão, de Castela e de Aragão não formaram a Espanha de uma só vez; foram-se unindo aos poucos, através de alianças e de casamentos reais. A luta contra os Muçulmanos na Península Ibérica foi um dos fatores que ajudou a aproximar esses territórios diferentes.
A Galiza, como Portugal, não precisou de uma catolicidade majestosa a estabelecer um contraste beligerante em face dos avanços dos califados. Há, é claro, Santiago de Compostela, que é até solene… Porém, aquele lugar, mais que um lugar, é um caminho. Uma via de aprendizagem, de ressignificações, de despojamento, de encontros pessoais. Contudo, fazer esse caminho numa temporada de chuvas intensas e de frio pareceu-me inviável.

Contento-me com a observação de tritões, de salamandras, de rãs e de sapos, bem como de cogumelos no parque natural de Santiago de Riba-Ul. Um vislumbre da Casa dos Rebelos que, em si, contém um brasão eclesiástico. Estar a ver o lugar do Outeiro, no concelho de Oliveira de Azeméis, sob uma matriz desprovida de afetação, tendo como guia Samuel Santos, no “petit chemin” santiaguense.
Samuel é um manancial de cultura, de uma eloquente expressividade, vitalidade. É um guia de amizade, que promove um encontro humano tão subtil como o dos rios Ul e Antuã5, estabelecendo prontamente uma harmonia indivisa. E, afinal, não teria sido para isso que fui a Toledo? Para estar a experimentar harmonia à beira-rio? Samuel como eu somos “escribas”, talvez a querermos aproximarmos o Galaico-Português, não somente como sistema linguístico, mas como um ideal de “unidade”, de confiança e de propósitos, tal e qual o rio Ul e o rio Antuã. Verdadeiramente, partilha e amizade são e serão sempre o melhor caminho.
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Nota:
Dedico este texto ao jovem jornalista Samuel Santos.
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Notas da Redacção:
1 – Embora o Tejo (ou Tajo) nasça na província de Teruel, na serra de Albarracín, a nascente exacta fica nas proximidades da aldeia de Frías de Albarracín, num local conhecido como Fuente García, e não no município de Albarracín propriamente dito.

uma altitude de 950 metros no monte Talariño, na serra de São Mamede, na
província de Ourense, na Galiza (em Espanha), e que atravessa o Alto Minho,
no Norte de Portugal. (pt.wikipedia.org)
2 – Esta afirmação é imprecisa. O rio Minho nasce na Galiza (em Espanha), mas serve de fronteira e desagua em Portugal, sendo um rio internacional (luso-espanhol). O rio Lima nasce também em Espanha, mas a maior parte do seu curso inferior, onde é amplamente reconhecido, é em Portugal. Nenhum deles é estritamente “galego” no sentido territorial exclusivo.
3 – O autor sugere uma fusão directa, mas, na realidade, tanto o Ul como o Antuã são rios distintos que correm para a ria de Aveiro, formando um sistema lagunar complexo.
4 –A ria de Aveiro não é um rio, mas sim uma laguna costeira (ria) formada por um cordão litoral, que recebe as águas de vários rios, como o Vouga e o Antuã. Não é, portanto, o “único rio feminino”.
5 – O texto induz a ideia de que a Espanha foi fundada “acuada pelos Mouros” e que vive “sempre a defender-se deles”. A formação da Espanha é um processo complexo de séculos (durante a Reconquista – período de quase oitocentos anos ao longo do qual os reinos cristãos da Península Ibérica procuraram recuperar progressivamente os territórios ocupados pelos reinos mouros ou muçulmanos), com alianças, casamentos e conflitos, não se limitando a uma postura defensiva contínua ou a um único momento de fundação.
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26/03/2026