Carcassonne: Carca soa, Carca chama!
Carcassonne, em França. (Créditos fotográficos: Alain Bonnardeaux – Unsplash)
As árvores estavam a sinalizar a aproximação do inverno, ninguém por perto.
O freio do comboio levou a descer alguma gente, pouca. Observo as estações: a climática e aqueloutra, a das chegadas e partidas.
O que leva alguém a Carcassonne? A resposta deve estar no alto: aquela cidadela, uma outra cidade nela, de torres redondas de encontro às nuvens cinzentas, a ter ao fundo uma cortina de montanhas que são França; todavia, a quase serem Espanha. Um lugar remissivo a tempos outros, ainda que o relógio e o calendário prossigam em atualizações.

Desapressado, entro num bistrô. Aparece um jovem atendente de mesa a ter no pescoço uma gravata borboleta e a ter no olhar um aspeto residual de saudade. Arrisco falar em Português. Toma! Um poema! O qual teria escrito numa servillete, enquanto aguardava ser servido. Uma meia dúzia de linhas a conterem as minhas primeiras impressões sobre a Occitânia, um tanto incompreensíveis como parece a ser o seu dialeto, mas enfim: eram divagações com uma inspiração tomada ao Eça já que se tratava de uma ode ao campo, à serra, em contraposição à ignomínia citadina. Eu esperava um guardanapo de pano, aquilo em papel pareceu-me inadequado, urbano, coisa de rede de fast food. Haveria de aproveitá-lo como bout de papier. Uma caneta viaja sempre comigo.

Adivinhara, ele era mesmo português. Porém, não parecia estar disposto a conversas. Ao ver na ementa a sugestão de cassoulet,abdiquei da especialidade da casa. Nunca como carne. Na dúvida sobre o boulabaisse, optei por um crepe proclamado ser vegetariano. Pedi sidra para acompanhar a minha refeição. Eu era o único freguês. Por fim, disse-lhe: “Agora devo ir!” Ao que ele respondeu: “Reviens toujours ici poète!” O que diria o Eça de Queirós frente a essa situação? Um gajo que bem poderia ter vindo de Tormes a fazer-se de francês! Ora, essa!
Restaurado, quis ver Carcassonne. O que haveria para ver no meio daquela calmaria?


(© Lúcio Marques Ferreira)

Saint-Michel, o local mais visitado de França.
(Créditos fotográficos: Maria Lupan – Unsplash)
Andava o rio Auge a deslisar no Canal du Midi, alguns barquinhos baloiçavam ao vento, a não se ver por perto gente. Entretanto, não seria o rio que me levaria à cidadela, mas, sim, a velha ponte que confere acesso a ela. Segui adiante, a Bastide sempre a indicar: “Ainda não basta! Ide!” Eram dois quilómetros, em cerca de uns vinte minutos, chegaria lá. Doravante, a espreitar os muros, eu perguntava-me onde seria a entrada. Silencio absoluto, até que, por fim, vislumbrei uma porta. Encontrava-me cara a cara com a Carca, uma figura folclórica que, ao que dizem, chamava as pessoas intramuros, para si, a fazer soar uns sinos: “Carca chama!” Dos que vinham extramuros, desconfiada, não gostava. Conta-se que, uma vez, ela atirou um javali com a barriga cheia de trigo, no intuito de ocultar que os moradores do feudo estariam a passar fome. No entanto, já estavam prestes a abrirem os portões aos invasores.
Verifiquei o fosso e entrei, muito facilmente, no colosso. Facto é que aquela atmosfera medieval engana toda a gente. O segundo monumento medieval mais visitado da França é, tão-somente, uma réplica do que um dia foi. Apenas 15% do original foi mantido. Há quem leve a sério aquele aspecto de moradia da Bela Adormecida, um cenário meio “Disneyland”, que tal e qual, é oferecido. Um menestrel, um bobo da corte e uma fada madrinha serão, frequentemente, encontráveis pelo caminho. Gaiteiros e flautistas fantasiados. E há uma profusão de lojas e de restaurantes, todos eles demasiadamente atuais. Por sorte, encontrei um coro e um órgão que estavam a trazer à basílica gótica de São Nazário e São Celso a sonoridade dos tempos medievos com uma honesta autenticidade.
No Château Comtal (ou Castelo do Conde), onde viveu o Conde de Toulouse, não há nada. As paredes são nuas, não há móveis. Contudo, paga-se para o visitar, o que até vale a pena, porque é a partir dali que se tem uma visão extraordinária da cidadela. A barbacã, as poternas, o castelejo, as 59 torres, a linha dupla de muralhas, a partir daquele baluarte parecem evocar tempos medievos. No mais, foi inevitável, percebi que houve muitas intervenções no cenário o qual Carca chama! Cansei-me da simulação.

paredes são nuas, não há móveis. Contudo, paga-se para o visitar,
o que até vale a pena, porque é a partir dali que se tem uma visão
extraordinária da cidadela.” (© LMF)
Já quase a sair de lá, percebi que um casal estava a conversar em Português. Dispus-me a conhecê-los. Ela contou ser natural de Monsaraz. Habituada com uma vida vivida intramuros, parecia sentir-se muito em casa na cidade de Carcassonne. Empregada numa mercearia, encontrava-se – penso – de folga ou de férias naquele dia.
Ele – brasileiro, de Boa Vista – confessou-se insatisfeito com os Franceses. Entregador de mercadorias, colecionava invisibilidades, só o encaravam quando os pacotes e as bolsas se apresentavam rotos. Neste caso, recebia olhares furiosos, por vezes, com opróbios. Adverti-o para que “copiasse” Carcassonne, um lugar que exala restauração, que se reerguesse.

Ponderei que não me entusiasmara por demais com o aspeto fantasioso da cidadela, pareceu-me ser um embuste, algo irreal. Prontamente me indicaram uma visita ao verdadeiro: à frente da cidadela há uma outra, a Bastide Saint-Louis. Basta atravessar a velha ponte e chega-se a, hoje, um lugar com melhor proveito para o viajante errante. Transitámos pela Place Carnot obsequiados pela visão daquela fonte que fora tão amada por Honoré de Balzac, flanei sobre o pavimento marmóreo rosado, lado a lado com vendedores de frutas, de legumes e, é claro, de rosas! Percebi que todas as brasseries têm um apelo para as conversas; nelas, as pessoas não se isolam em telemóveis.
Carcassonne – enquanto terra dos Cátaros, vizinha dos Albigenses, outrora – foi um lugar controverso. Os Cruzados andaram a dizimar a vida dos seus supostos hereges. Para a Igreja, não interessava haver interpretações díspares do Evangelho nem nenhum modus vivendi alheio ao inferido, imposto para ser o habitual.

foi um lugar controverso.
(Créditos fotográficos: Maria Lupan – Unsplash)
Os Cátaros (do termo grego “katharos”, equivalente a “puro”) propunham uma catarse, uma libertação da corrupção do corpo, do apego material. Essencialmente castos, inventaram um segundo batismo no fim da vida, o Consolamentum, anulador dos erros de uma vida. Ademais, acreditavam em reencarnações; essas aprovisionavam um aprimoramento humano. Não comiam carnes, consumiam tão-somente peixes. Acreditavam que eram oriundos de geração espontânea e não de copulações. Recusavam o Antigo Testamento, pois viam naquele Deus o Demiurgo, um falso Deus. Ponderavam que a dualidade “bem e mal” estava na criação das almas pelo Deus do bem e na dos corpos pelo Deus do mal. Por isso, viviam uma vida ascética e contemplativa. Ainda que cristãos, eram considerados desordeiros, mas eles tinham o beneplácito do conde, um nobre que desprezava o papa e o rei.
Despedi-me dos meus amigos lusófonos na Porta dos Jacobinos, a última que restou dos antigos acessos a Carcassonne. Deixaram-me num lugar onde eu haveria de comer um bom peixe, sem estranhamentos nem perseguições, parecesse eu um novo cátaro por só querer comer peixe. Ainda hesitava se seguiria para Albi, localizada nas margens do rio Tarrn. Afinal, como haveria de por lá estar a explicar que creio que a existência do mal se encontra nos turistas, desalmados que apreciam carne e que aprecio seulement peixe, assim como viajar sozinho, contemplativo? Seria eu um cátaro ou um albigense? Achei por bem seguir para Narbonne, um lugar que soma fundações paleocristãs, abadias cistercienses, a gótica Catedral de Saint-Just-et-Saint-Pasteur e a Église Saint-Paul, embora se diga que o seu primeiro bispo, São Paulo de Narbonne, nunca existiu, admitindo-se que seja uma figura lendária.
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12/02/2026