Chefe da OCDE diz que os Europeus fariam bem em ouvir Mario Draghi

 Chefe da OCDE diz que os Europeus fariam bem em ouvir Mario Draghi

Mario Draghi e Ursula von der Leyen. (portugal.representation.ec.europa.eu)

Mathias Cormann, secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) afirma que, apesar das tarifas aduaneiras, continua forte a apetência pelo comércio multilateral e que a Europa deve tomar nota das recomendações do antigo presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, para manter a “História de sucesso” da União Europeia (UE).

Na Cimeira Mundial dos Governos, no Dubai, Mario Draghi afirmou que a UE é uma “História de sucesso único”, mas que enfrenta desafios estruturais, num Mundo em mudança, onde o comércio multilateral e as regras internacionais estão a ser postos à prova.  

Mathias Cormann, secretário-geral da OCDE.(oecd.org)

Na verdade, os dirigentes europeus e os representantes das empresas deslocaram-se ao Dubai, para uma das maiores reuniões mundiais, em que cerca de 150 governos e 500 ministros analisam a forma como os governos se podem adaptar e podem inovar, num Mundo em mudança.

Tanto o australiano Mathias Cormann como o italiano Mario Draghi foram convidados para a reunião e falaram com Maria Tadeo, editora de notícias da UE da Euronews, que também está no Dubai para esta ocasião.

De regresso à Bélgica, Mario Draghi lançou um alerta aos líderes europeus. A 2 de fevereiro, numa cerimónia na Universidade de Lovaina, o ex-presidente do BCE e ex-primeiro-ministro italiano disse que os países da UE não devem ter medo de se integrarem a diferentes velocidades, se isso for necessário para o bloco ganhar influência na cena mundial.

O líder da OCDE sustentou, em declarações ao programa matinal “Europe Today” da Euronews, que os líderes europeus (e toda a gente) devem “ouvir, com atenção”, as palavras de Mario Draghi – “um líder excecional”, que elaborou, em 2024, um relatório apelando à mudança radical no funcionamento da UE –, numa altura em que o continente procura uma nova receita, a fim de ultrapassar o impacto das tarifas aduaneiras na sua economia.

O líder da OCDE, Mathias Cormann.
(facebook.com/theOECD)

No dia 2 de fevereiro (recente segunda-feira), Mario Draghi reiterou o seu apelo, sugerindo que a UE deveria ser gerida no espírito de uma “verdadeira federação”, e não de um mosaico de países individuais. “A Europa é um continente de sucesso esmagador, mas está a enfrentar desafios. A UE tem de se posicionar da melhor forma possível face à evolução das circunstâncias”, vincou.

Numa entrevista à Euronews, em janeiro, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, disse esperar que os líderes da UE deem “orientações políticas claras” para a implementação das recomendações apresentadas no relatório Draghi – influente, mas em grande parte não implementado – o qual apelava à UE para se transformar, radicalmente, sob pena de enfrentar uma “lenta agonia”, numa nova era de geopolítica agressiva.

Na sequência, o presidente do Conselho Europeu convidou os líderes da UE para um “retiro” informal, no dia 12 de fevereiro, na Bélgica, com a presença de Mario Draghi, que tem apelado, repetidamente, para que o bloco funcione como uma verdadeira união.

Além disso, Mario Draghi manifestou apoio à contração conjunta de empréstimos pelos estados-membros da UE, para financiar projetos de interesse comum, como a segurança e a defesa, e apelou à integração dos mercados de capitais europeus para atrair e aumentar os investimentos.

O líder da OCDE aludiu a preocupações “legítimas”, relativamente às distorções do mercado, apontando as práticas comerciais chinesas. (facebook.com/theOECD)

Por seu turno, Mathias Cormann sugeriu que o comércio continua a ser uma força positiva nas relações globais e afirmou que a apetência pela cooperação internacional não diminuiu, apesar da introdução de direitos aduaneiros, a nível mundial, pelo governo dos Estados Unidos da América (EUA) e da utilização dos excedentes comerciais como armas.

O líder da OCDE aludiu a preocupações “legítimas”, relativamente às distorções do mercado, apontando as práticas comerciais chinesas. A UE assinalou que Pequim tem de resolver o problema do crescente défice comercial e alertou para um segundo “choque chinês”, pois a segunda maior economia mundial inunda o Mundo com mercadorias que não consegue colocar no seu mercado interno. “Há áreas em que estamos preocupados com práticas de distorção do mercado e [com] níveis excessivos de subsídios estatais. Preferíamos que houvesse um maior alinhamento com as práticas baseadas no mercado”, afirmou Mathias Cormann.

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António Costa organizou uma série de reuniões informais que juntarão os 27 líderes da UE, para debaterem ideias, sem as formalidades de uma cimeira europeia. E, como dissemos, a primeira ocorrerá a 12 de fevereiro e nela participará Mario Draghi, a convite do próprio presidente do Conselho Europeu, que pretende acelerar a aplicação do relatório sobre a competitividade, pelo que o encontro de fevereiro se centrará na dinamização da economia europeia.

Também participará no encontro Enrico Letta, antigo primeiro-ministro italiano e presidente do Instituto Jacques Delors, que apresentou, em 20 de abril de 2024, ao Conselho da União Europeia, em Bruxelas, o relatório de alto nível sobre o futuro do mercado único.

Enrico Letta, antigo primeiro-ministro italiano e presidente do Instituto Jacques Delors. (eurocid.mne.gov.pt)

Algumas das questões fundamentais do relatório “Muito mais do que um Mercado”, incluem as questões energéticas, o reforço da segurança da UE e a promoção da criação de emprego e a facilidade em fazer negócios.

O também conhecido como Relatório Letta desdobra-se em cinco capítulos temáticos: uma 5.ª liberdade, para aumentar a Investigação, a Inovação e a Educação no Mercado Único; um Mercado Único para jogar grande: a escala é importante; um Mercado Único Sustentável para Todos; um Mercado Único para ir rápido e ir além; e um Mercado Único para além das suas fronteiras.

Já o Relatório Draghi resulta de incumbência da Comissão Europeia para a preparação de um relatório com a visão pessoal do ex-presidente do BCE – uma das grandes mentes económicas da Europa – sobre o futuro da competitividade europeia. Efetivamente, a desaceleração da produtividade, os desafios demográficos, o aumento dos custos de energia e a crescente concorrência global pressionam a prosperidade da Europa, a longo prazo. Ao mesmo tempo, as transições verde e digital postulam níveis sem precedentes de investimento e de inovação. Para enfrentar tais desafios, em setembro de 2023, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, solicitou a Mario Draghi a elaboração de um relatório sobre o futuro da competitividade europeia. O objetivo era definir como a UE se pode adaptar a um Mundo em rápida transformação e garantir um crescimento sustentável, nas próximas décadas.

(eurocid.mne.gov.pt)

Assim, o relatório analisa os desafios enfrentados pela indústria e pelas empresas no Mercado Único, descreve como a Europa não poderá mais contar com muitos dos fatores que sustentaram o crescimento, no passado, e apresenta um diagnóstico claro, além de recomendações concretas para colocar a Europa numa trajetória diferente.

(consilium.europa.eu – estudoautonomo.dge.mec.pt)

Em entrevista à Euronews a partir de Nova Deli, onde a UE assinou um importante acordo comercial com a Índia, António Costa disse que o retiro de fevereiro servirá para lançar um debate interinstitucional sobre a forma de reforçar a economia europeia e de implementar a agenda de reformas. “Convidei Mario Draghi e Enrico Letta a juntarem-se a nós, para fazermos um balanço do que fizemos, mas também para analisarmos o que temos de fazer”, afirmou.

Retrato oficial de Keir Starmer, primeiro-ministro do
Reino Unido. (pt.wikipedia.org)

Vincando que “precisamos de criar uma dinâmica renovada e [de] dar um novo impulso” às reformas, o presidente do Conselho Europeu disse esperar que “os líderes deem uma orientação política clara à Comissão e ao Conselho, como fizeram no ano passado, em matéria de defesa e segurança”, mas, desta vez, sobre “o mercado único”.

O formato de retiro, segundo António Costa, permite discussões mais abertas. Assim, em 2025, os líderes europeus reuniram-se com Mark Rutte, secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), e com Keir Starmer, primeiro-ministro do Reino Unido, para discussão sobre a segurança e a defesa europeias. Agora, espera-se restabelecer a dinâmica em torno das recomendações dos dois peritos, Letta e Draghi.

Em 2025, os esforços da Comissão Europeia centraram-se na redução da burocracia e da burocracia associada ao excesso de regulamentação da UE. Apesar da insistência na simplificação das regras existentes, os analistas sugerem que o executivo não está a fazer o suficiente para avançar com reformas reais, em conformidade com as recomendações dos relatórios. Um relatório do Conselho Europeu de Inovação Política (European Policy Innovation Council), publicado em setembro de 2025, sugeria que só 11% das recomendações enumeradas no relatório Draghi tinham sido implementadas no seu primeiro ano, apesar de a Comissão o referir como a sua “bússola económica”.

(Créditos fotográficos: Adam B. –pexels.com)

A presença de Mario Draghi pode servir para aguçar os ânimos, visto que o antigo presidente do BCE é muito influente nos círculos diplomáticos, nas capitais europeias e nas instituições da UE, onde os seus discursos são acompanhados de perto. E apelou, repetidamente, a que o bloco trabalhasse como uma verdadeira união, tal como sugeriu uma abordagem “federalista pragmática”, num Mundo em mudança.

O perito manifestou o seu apoio à contração conjunta de empréstimos pelos estados-membros da UE, para financiar projetos de interesse comum, como a segurança e a defesa, e apelou à integração dos mercados de capitais europeus, para atrair e aumentar investimentos.

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Em novembro de 2025, levantava-se a questão sobre, se, depois dos referidos relatórios (Letta e Draghi), o mercado único e a competitividade melhoraram. Acerca desta matéria, pronunciaram-se várias personalidades, em especial, o antigo comissário britânico Lord Jonathan Hill e o chanceler alemão, Friedrich Merz.

Chanceler alemão, Friedrich Merz. (bbc.com)

O antigo comissário britânico sustenta que os estados-membros se sentiriam “muito mais confortáveis em ceder poderes a reguladores europeus supranacionais”, desde que estes fossem “favoráveis ao crescimento”.

Por sua vez, o chanceler alemão defendeu a criação de uma bolsa de valores europeia única, frisando que a fragmentação em função das fronteiras nacionais entrava o investimento na UE.

Pelo menos, de acordo com o antigo comissário Lord Jonathan Hill, embora uma proposta deste tipo não seja nova, a consolidação financeira torna-se cada vez mais urgente. Com efeito,  na sua ótica, com a alteração das antigas alianças, “a urgência da necessidade de mudar tornou-se claramente maior”.

Antigo comissário Lord Jonathan Hill. (pt.wikipedia.org)

O político britânico, antigo comissário europeu para a União dos Mercados de Capitais, falando ao The Big Question, sobre a competitividade da Europa na cena mundial, considerou: “As mudanças geopolíticas são como uma grande campainha de alarme a soar. Os reguladores e supervisores na Europa ainda se comportam como se estivéssemos a operar no velho Mundo. Penso que esse Mundo desapareceu e não vai regressar. […] Os políticos europeus têm de assumir uma maior responsabilidade na argumentação a favor do crescimento.”

Desbloquear o investimento tornou-se fundamental para a UE, confrontada com uma série de desafios, como a agressão russa e as tarifas comerciais dos EUA.

Em termos de valor, o mercado bolsista norte-americano é quatro vezes superior ao valor total das empresas cotadas nas bolsas europeias e as ações norte-americanas são muito mais líquidas. Estas disparidades, combinadas com uma menor carga regulamentar nos EUA, denotam que muitas empresas europeias migram para o outro lado do oceano, quando querem cotar as suas ações, ansiosas por avaliações mais elevadas. Outros fluxos de capitais, como os mercados de dívida e o investimento de risco, continuam fragmentados na UE. Isto significa menos dinheiro a fluir para as economias do bloco, menos empregos criados, menos oportunidades de investimento e perda de soberania, quando as tensões geopolíticas são elevadas.

(pt.euronews.com)

Jonathan Hill diz que “o relatório Draghi e o anterior relatório Letta” o encorajaram bastante, no quadro das propostas da UE em matéria de competitividade. Todavia, passado um ano, pensa que “a Europa está a avançar mais lentamente do que o necessário”.

Os apelos de Bruxelas para melhorar a competitividade da UE centram-se também na União Bancária e no seu potencial para aumentar a capacidade de concessão de empréstimos. Criada para responder à crise da dívida da Zona Euro, a iniciativa pretende preparar os bancos para períodos de tensão financeira e reduzir a fragmentação regulamentar.

Desde o regresso de Donald Trump à Casa Branca, os bancos norte-americanos têm vindo a prever uma onda de desregulamentação financeira, porque a administração norte-americana se comprometeu a reduzir os requisitos de capital, podendo tais mudanças de política libertar biliões de dólares, visto que os bancos são obrigados a manter almofadas mais pequenas para os choques financeiros. Porém, enquanto os EUA são cautelosos, a UE avança mais lentamente. Alguns pensam que esta hesitação resulta da aprendizagem com os erros do passado, ao passo que outros sustentam que “esta abordagem é demasiado cautelosa no clima atual”.

Casa Branca, em Washington, nos Estados Unidos da América. (Créditos fotográficos: Nils Huenerfuerst – Unsplash) 

Segundo Jonathan Hill, o ocorrido em 2010 e nos anos seguintes foi uma reação humana natural a uma enorme crise e exigiu um trabalho enorme e muito importante para tornar o sistema mais seguro. Agora, o maior problema da Europa é a falta de crescimento, mas os juízos que se fazem tendem a ser os de há dez ou doze anos, quando a maior preocupação era a estabilidade financeira. Efetivamente, deviam fazer-se alguns julgamentos diferentes, porque os problemas são diferentes. Contudo, no quadro da regulamentação, “não querem ter essa discussão”.

Um dos obstáculos a uma maior coesão da UE é a relutância de os estados-membros cederem o controlo da tomada de decisões a um organismo supranacional. E Jonathan Hill considera que “esta mentalidade tem, por exemplo, impedido o progresso de uma bolsa de valores europeia única”, pois, na sua perspetiva, “os estados-membros sentir-se-iam muito mais confortáveis em ceder poderes a reguladores europeus supranacionais, se achassem que estes são a favor do crescimento”.

(adcoesao.pt)

Efetivamente, conclui o político britânico,  “se as pessoas se sentirem confiantes de que, no centro, haverá pessoas que compreendem a importância da competitividade, penso que o argumento da centralização se torna mais fácil de defender.”

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Têm razão o líder da OCDE e o presidente do Conselho Europeu, quanto à conveniência de a UE ouvir Mario Draghi e Enrico Letta, mas devem ser escutadas todas as personalidades cujo pensamento e ação contribuam para a Europa chegar a bom porto, em termos estratégicos, de desenvolvimento e de segurança. O Brexit não impede que se ouçam políticos como Lord Jonathan Hill, pois a sanidade do projeto da UE também interessa ao Reino Unido.

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05/02/2026

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Louro Carvalho

É natural de Pendilhe, no concelho de Vila Nova de Paiva, e vive em Santa Maria da Feira. Estudou no Seminário de Resende, no Seminário Maior de Lamego e na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi pároco, durante mais de 21 anos, em várias freguesias do concelho de Sernancelhe e foi professor de Português em diversas escolas, tendo terminado a carreira docente na Escola Secundária de Santa Maria da Feira.

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