“Chumbar” é um tiro no pé

 “Chumbar” é um tiro no pé

(Créditos fotográficos: Tahsin Labib – Unsplash)

A educação mundial vive uma contradição profunda: nunca se falou tanto da importância da escola, nunca se exigiu tanto aos sistemas educativos, e nunca houve tão poucos professores disponíveis para responder a essa exigência. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) estima que, até 2030, serão necessários 44 milhões de novos docentes para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. É um número que revela a dimensão da crise: faltam professores para ensinar, para apoiar, para inovar, para garantir equidade. E, no entanto, muitos países continuam a alimentar silenciosamente essa escassez através de uma prática antiga, cara e ineficaz: a retenção escolar.

(blog.softwaregeo.com.br)

A retenção, ou reprovação, ou “chumbo”, na versão mais popular – é frequentemente apresentada como um mecanismo de rigor, uma forma de “dar tempo ao aluno para recuperar”. Mas a evidência internacional é clara: os países com melhores resultados educativos são, precisamente, aqueles onde quase não se reprova. A repetência não melhora aprendizagens, não corrige desigualdades e não aumenta a qualidade. Pelo contrário, é um dos fatores que mais contribui para a ineficiência estrutural dos sistemas educativos, sobretudo nos países mais pobres e mais desiguais.

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1. A geografia da retenção coincide com a geografia da pobreza

Na Europa, os países com maior risco de pobreza, menor produto interno bruto (PIB) per capita e maior desigualdade – Roménia, Bulgária, Grécia, Espanha, Itália e Portugal – são também aqueles onde a retenção escolar é mais frequente. Esta coincidência não é acidental: é estrutural. A retenção é um mecanismo que penaliza, sobretudo, os alunos de meios socioeconómicos baixos, reforçando desigualdades que já existiam antes de entrarem na escola. E, ao penalizar os mais vulneráveis, prolonga artificialmente a sua permanência no sistema, aumentando custos e pressionando recursos humanos.

(Créditos fotográficos: Sovannkiry Sim – Unsplash)

2. Cada aluno retido duplica o custo e aumenta a necessidade de professores

A lógica económica é simples e devastadora: um aluno que repete um ano custa ao Estado duas vezes o mesmo serviço. Mas o impacto não se limita ao orçamento. A retenção tem um efeito multiplicador sobre a necessidade de professores:

  • cada aluno retido ocupa uma vaga que já deveria estar livre;
  • cada vaga ocupada exige uma turma que não deveria existir; e
  • cada turma exige um professor que não deveria ser necessário.

Num sistema com 10% de retenção, isso significa que 10% dos alunos permanecem mais um ano, 10% das turmas são adicionais e 10% mais professores são necessários. É um mecanismo silencioso de expansão artificial do sistema, que consome recursos humanos que já são escassos.

(Créditos fotográficos: Javier Trueba – Unsplash)

3. A retenção agrava a crise global de professores

A escassez docente é, hoje, um fenómeno transversal:

  • a profissão perdeu atratividade;
  • os salários estagnaram;
  • a carga burocrática aumentou;
  • a idade média dos docentes subiu; e
  • a renovação geracional é insuficiente.

Num contexto assim, a retenção funciona como um multiplicador negativo: aumenta a procura de professores num momento em que a oferta está em queda. Países como Portugal, Espanha, França ou Bélgica francófona – todos com elevadas taxas de retenção – enfrentam, presentemente, crises severas de recrutamento. A repetência não é apenas um problema pedagógico: é um fator que agrava a escassez estrutural de docentes.

(Créditos fotográficos:  ThisisEngineering – Unsplash)

4. A retenção é um luxo que os países pobres não podem pagar

Os países com menor PIB per capita e maior desigualdade são, exatamente, aqueles que menos podem desperdiçar recursos. E, no entanto, são os que mais recorrem à retenção. É um paradoxo cruel: os países mais pobres são os que mais pagam por uma prática que não produz resultados. A retenção consome recursos que poderiam ser investidos em:

  • apoio individualizado;
  • equipas multidisciplinares;
  • tutoria;
  • reforço pedagógico; e
  • intervenção precoce.

Ou seja, consome recursos que poderiam evitar a própria retenção.

 (Créditos fotográficos: Vitaly Gariev – Unsplash)
 (Créditos fotográficos: Vitaly Gariev – Unsplash)

5. Os países que não reprovam têm melhores resultados e precisam de menos professores

A comparação internacional é inequívoca. Países como a Finlândia, a Islândia, a Eslovénia ou a Dinamarca têm retenção residual. E o que ganham com isso?

  • Menos alunos extra no sistema;
  • menos turmas;
  • menos pressão sobre o recrutamento;
  • mais tempo para ensinar;
  • mais investimento em prevenção; e
  • melhores resultados educativos.

A equação é simples: menos retenção = (mais aprendizagem) + (mais equidade) + (menor necessidade de professores).

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6. Conclusão: a retenção é um erro estratégico num tempo de escassez

Num mundo que precisa de 44 milhões de novos professores, insistir na retenção escolar é um contrassenso económico e político. Cada aluno que reprova duplica o seu custo, prolonga artificialmente a sua permanência no sistema e aumenta a necessidade de mais docentes – precisamente, aquilo que os países mais pobres e mais desiguais não conseguem garantir.

(Créditos fotográficos: Erica Liwanag – Unsplash)

Se um aluno não é bom a Português, nem a Matemática, nem a Filosofia, nem a Música – é porque é bom em alguma coisa que a escola ainda não descobriu o que é.

A retenção não é rigor: é desperdício. Não é exigência, é desistência. Não é solução, é parte do problema. “Chumbar” é um tiro no pé. No pé dos professores, da escola, do orçamento, do país.

Se queremos uma escola mais justa, mais eficiente e mais sustentável, a primeira reforma é simples: deixar de reprovar para começar a ensinar.

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09/04/2026

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José Afonso Baptista

José Afonso Baptista é doutorado em Ciências da Educação. Como professor e autor, o seu foco está na organização das aprendizagens, de acordo com os princípios da equidade, da diversidade e da inclusão, numa Escola Autónoma, responsável pela eficácia, pelo sucesso e pela felicidade de todos os seus alunos. Como investigador, deu especial relevo à Educação de Surdos, tema da sua tese de doutoramento e de vários artigos em revistas da especialidade. A sua obra publicada está referenciada no seu ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2107-1997. Merece especial destaque “Dogmas e Fantasmas da Escola”, obra publicada pela Lisbon International Press, em 2026. José Afonso Baptista foi professor destacado (pelo Instituto de Meios Audiovisuais de Educação – IMAVE) na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, além de ter sido metodólogo no antigo Liceu Normal D. João III (atual Escola Secundária José Falcão, em Coimbra), coordenador da Equipa de Apoio Pedagógico (EAP) da região Centro, consultor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para Educação em Angola e em São Tomé e Príncipe, bem como diretor regional de Educação do Centro, diretor da Educação da Fundação Bissaya Barreto e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa. Foi, igualmente, membro do conselho consultivo de várias instituições públicas.

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