Como é óbvio, há alternativa 

 Como é óbvio, há alternativa 

Palácio de Belém (tcontas.pt)

A não haver mais candidatos à Presidência da República, a eventual vitória de Gouveia e Melo teria um significado político preocupante, manifestado, aliás, pelo seu discurso de candidatura. Embora se declare como fazendo parte do sistema democrático pluripartidário, não tem deixado de lhe manifestar as suas críticas, sendo que, a partir da altura em que deu sinais de se candidatar, passou a ter outras responsabilidades.

A ausência de antecedentes políticos que se conheçam, partidários, ou não – o que fazia ele no 25 de Abril, e que contributo deu –, contém um elevado grau de incertezas, num tempo em que elas se distribuem por todas as decisões que são necessárias tomar. É por isso que a votação que vier a obter deverá ser interpretada como uma espécie de regresso aos tempos do fim da I República – talvez por alguma razão inconsciente apresentou a sua candidatura num 29 de Maio, quando o golpe de 28 de Maio fazia 99 anos –, nesta vez, revista e actualizada.

Cais de Alcântara, Porto de Lisboa. (Créditos fotográficos: Horácio Novais. Fotografia sem data, produzida durante a actividade do Estúdio Horácio Novais, 1927-1988 / flickr.com)

O candidato não vem de Braga, mas do cais de Alcântara, não é general, é almirante, não vem impor uma ditadura militar, mas traz consigo a cultura militar, sobejamente demonstrada na postura com que se apresentou, apesar de trajar à civil. Não havendo mais nada digno de avaliação, a não ser a discricionariedade com que tratou os sargentos que se negaram a sair para a Madeira, porque o navio não oferecia condições de segurança, o que vem mostrando não é exemplo de um democrata exemplar, porventura aguardando pela melhor oportunidade para revelar, no final da contagem dos votos, o que lhe vai no pensamento. Por estas razões, se deseja, porque ainda vai a tempo, que surja um candidato que reúna as condições, e ele existe, para se poder confiar nele/a. Esta seria a altura. 

Palácio Nacional de Belém, Pátio dos Bichos. (Créditos fotográficos: Bruno Saraiva / © Museu da Presidência da República)

Nesse discurso, o candidato referiu-se ao estado do Mundo, ao equilíbrio instável em que se encontra. Porém, ficar-se por aqui é quase nada, pela função a que se vai candidatar, O cargo de Presidente da República, a que Gouveia e Melo se vai candidatar, tem, de momento, outras exigências. E entre elas está a referência e denúncia do desastre humanitário que está a ocorrer em Gaza. Passar por cima disto, omitir o seu significado político, é dar um sinal da maneira como o candidato avalia aquela catástrofe. Nos tempos que correm, não gastar um minuto com esse assunto é uma manifestação de desprezo pelo que lá se passa.

Sintomaticamente, o candidato escolheu um lugar simbólico para se apresentar: na Gare Marítima de Alcântara, de onde, nos anos 60 e 70, partiram milhares de portugueses para a guerra colonial, e aonde chegaram outros milhares de caixões. Isso pode resumir o espírito do seu pensamento político, porque, quanto ao resto, foi um desfiar de banalidades só possível em quem passou grande parte da vida em submarinos. Contudo, se mesmo assim, quiséssemos respigar alguma coisa que tenha ficado a pairar na noite, a referência a um inimigo interno foi o mais além que conseguiu ir. E qual foi ele? Ainda chegámos a temer pelo que se seguia, mas era a ineficiência, a incapacidade de produzir mais com os mesmos custos de produção. Desenvolva-se a ideia e iremos ver onde ela vai dar. Temos, portanto, um candidato que deseja ser diferente, supostamente do actual titular do cargo, mas isso não devia ser suficiente para angariar o voto dos eleitores. Num país tão assimétrico, não se ouviu uma palavra para o lado onde a assimetria mais pesa, para a exigir dos governantes soluções que desfaçam essa assimetria. 

A Gare Marítima de Alcântara foi mandada edificar pelo, então, ministro das Obras Públicas e Comunicações, Duarte Pacheco, tendo sido projectada, entre 1934 e 1936, pelo arquitecto Porfírio Pardal Monteiro e inaugurada a 17 de Julho de 1943. (informacoeseservicos.lisboa.pt)

Depois de consumada a apresentação da candidatura de Gouveia e Melo, e de quem vai ser o seu mandatário, aquele que será a voz da campanha eleitoral, é tempo de equacionar a alternativa que lhe possa fazer frente, de facto. E esse é Sampaio da Nóvoa. Por isso, aproveito para lhe enviar o meu apelo para que se apresente como o candidato de todos quantos aguardam por saber em quem irão votar, sem ser no senhor Branco, como alguém já lhe chamou. Ainda estamos lembrados da sua campanha de há dez anos contra um candidato que já era Presidente antes de o ser, e, no entanto, teve a coragem de disputar essa eleição.

Hoje, Sampaio da Nóvoa é uma personalidade que traz consigo uma carreira profissional reconhecida e prestigiada, associada a um pensamento político e cultural, inequivocamente comprometido com todos, e são muitos milhões, a quem lhes dão os despojos do que produzem. Esses precisam de ter quem os represente no mais elevado cargo do Nação, quem seja exigente e tenha argumentos para se fazer ouvir. Porque essa é a diferença que faz de Sampaio da Nóvoa o candidato mais indicado para este tempo. Pelo que conheço dele, estou certo de que não iria ser necessário denegrir o actual Chefe do Estado para afirmar as suas ideias. Elas valem por si e deu-as a conhecer a todos quantos, na ocasião, o quiseram ouvir.

(ffms.pt)

Foi o desassombro como se referiu aos temas que ainda ninguém antes dele os tinha referido, por ocasião do 10 de Junho de 2012, que a democracia ficou a saber que devia contar com ele para a representar como Presidente da República. E este apelo não é por não ter militância partidária, é por estar alinhado com a exigência de melhoria das condições de vida da maioria dos Portugueses.

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Nota do Director:

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05/06/2025

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Cipriano Justo

Licenciado em Medicina, especialista de Saúde Pública, doutorado em Saúde Comunitária. Médico de saúde pública em vários centros de saúde: Alentejo, Porto, Lisboa e Cascais. Foi subdiretor-geral da Saúde no mandato da ministra Maria de Belém. Professor universitário em várias universidades. Presidente do conselho distrital da Grande Lisboa da Ordem dos Médicos. Foi dirigente da Associação Académica de Moçambique e da Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. É um dos principais impulsionadores da revisão da Lei de Bases da Saúde.

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