O caminho para a felicidade das crianças surdas
(unintese.com.br)
Na língua certa, na idade certa, na comunidade certa
A felicidade das crianças surdas começa onde sempre deveria ter começado: na língua.
Os relatórios mais recentes da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) sobre a educação e a proteção da primeira infância são inequívocos: os primeiros cinco anos de vida são decisivos. É neste período que se constroem as bases neurológicas, cognitivas, emocionais e linguísticas que moldam toda a vida futura. Investir na primeira infância é, segundo a UNESCO, o investimento social mais eficaz que um país pode fazer. E, no entanto, é também o período em que as desigualdades mais profundas se instalam, sobretudo nas crianças com incapacidades.

As crianças surdas enfrentam um paradoxo que a ciência já não permite ignorar. Se o desenvolvimento humano depende da linguagem e se os primeiros anos são o tempo crítico da sua aquisição, então qualquer política que impeça uma criança surda de ter acesso imediato a uma língua natural viola frontalmente as recomendações internacionais. E, no entanto, a pressão médico-industrial (alimentada por campanhas publicitárias que prometem que um implante coclear fará a criança “ouvir como os ouvintes”) continua a empurrar famílias para decisões que atrasam ou impedem esse acesso.


Os implantes são, geralmente, recomendados por volta dos três anos. Mas, aos três anos, já passou o período mais fértil da aquisição linguística. E entre cirurgias, afinações, desconfortos e rejeições, muitas crianças chegam aos cinco anos sem língua (linguagem verbal) ou com uma língua profundamente deficitária. Uma criança sem língua é uma criança privada de pensamento estruturado, de comunicação plena, de desenvolvimento emocional seguro. É uma violação direta da estratégia da UNESCO, que insiste na importância da linguagem e da equidade na primeira infância.
A minha experiência na Suécia mostrou-me o que acontece quando se respeita o desenvolvimento natural da criança. No hospital, num espaço dedicado, bebés surdos observam a comunicação em língua gestual. Gatinham, encontram uma assistente no caminho e os gestos surgem espontaneamente. Nada é forçado; tudo é natural. Aos doze meses, comunicam sem trauma, sem cirurgia, sem dor. Aos seis anos, são crianças felizes, competentes, integradas – com língua. Na Dinamarca, na Austrália e noutros países, surgiram escolas na mesma linha. E em regiões dos Estados Unidos da América e de Israel, onde mutações recessivas provocaram surtos de surdez, comunidades inteiras adotaram a língua gestual como língua comum de surdos e de ouvintes.

A vasta literatura científica que analisei na minha tese – “Os Surdos na Escola: a exclusão pela inclusão” – confirma: a língua gestual é o caminho mais eficaz, mais saudável e mais acarinhado pelas próprias comunidades surdas.
É por isso que a tríade que proponho – na língua certa, na idade certa, na comunidade certa – não é um “slogan”; é uma política educativa baseada em ciência.
.
Na língua certa
A língua certa é aquela que a criança pode adquirir naturalmente. Para a criança surda, essa língua é a língua gestual, constituída por sinais visuais. É ela que permite estruturar o pensamento, organizar a memória, desenvolver a imaginação, construir relações, aceder ao conhecimento. Privar uma criança surda da língua gestual é privá-la da sua própria humanidade linguística.
.
Na idade certa
A idade certa é agora. É o período crítico dos 0–5 anos, quando o cérebro está mais disponível para adquirir uma língua. Adiar a língua à espera de cirurgias ou de milagres tecnológicos é condenar a criança a um atraso que não é da surdez, mas da negligência linguística. A idade certa não é depois; é antes de qualquer implante.

Na comunidade certa
A comunidade certa é aquela que reconhece a criança, que a acolhe, que lhe oferece modelos linguísticos e culturais. Para a criança surda, essa comunidade é a comunidade surda. É nela que encontra adultos fluentes na sua língua, pares com experiências semelhantes, uma cultura visual rica, uma identidade positiva. A comunidade surda não é um refúgio; é um berço de humanidade. É o primeiro lugar onde a criança deixa de ser exceção e passa a ser pertença.
.
Depois da língua certa, todas as línguas são possíveis
Quando uma criança surda cresce na sua língua, tudo se torna possível. A língua gestual não fecha portas; abre todas. É ela que garante o desenvolvimento cognitivo pleno. E quando estas bases estão sólidas, a criança surda pode aprender qualquer língua escrita – Português, Inglês, Francês, o que quiser. A escrita é visual. A leitura não exige audição; exige linguagem. A escrita é o território onde surdos e ouvintes se encontram em igualdade.
O que impede a literacia não é a surdez; é a ausência de língua nos primeiros anos.

A dignidade de uma vida inteira
O primeiro reitor surdo da Universidade Gallaudet deixou-nos uma frase que atravessou gerações: “Os surdos podem fazer tudo, menos ouvir.” A frase não é metáfora; é estatística. A História confirma-o: médicos, juristas, engenheiros, professores, artistas, pilotos de aviação – uma lista infindável de diplomados ao longo de décadas. A surdez nunca foi o obstáculo. O obstáculo sempre foi a falta de língua, a falta de acesso, a falta de respeito.

Felicidade: o que queremos para as crianças surdas
Não queremos regressar à tortura dos surdos de outrora – à humilhação, à oralização forçada, ao silêncio imposto. Queremos a felicidade possível quando se partilha a mesma língua. Queremos crianças que crescem com mundo, com identidade, com pertença. Queremos que cada criança surda tenha aquilo que lhe pertence por direito: a sua língua, a sua idade, a sua comunidade.
Porque é assim – e só assim – que os surdos podem crescer felizes, quando o mundo lhes fala na língua que é deles.
.
08/06/2026