Crónica da China: 21.º dia

 Crónica da China: 21.º dia

(© RUNA – Rute Norte)

Museu de Jinsha / becos Kuanzhai Xiangzi / Museu do Mausoléu de Yongling / mercado agrícola / visita da Zho

Hoje é quarta-feira, 29 de abril de 2026. Pequeno-almoço às 6h45.

Quero ir visitar o Museu de Jinsha, um dos museus arqueológicos mais importantes da China para compreender a antiga civilização de Shu, que existiu na região de Sichuan há cerca de três mil anos. Entre os artefactos encontrados está o disco de ouro do “Pássaro do Sol”, que se tornou símbolo de Chengdu, o qual apresentei na crónica 15. Este museu foi construído sobre o próprio sítio arqueológico de Jinsha, descoberto em 2001, durante obras urbanas.

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(Direitos reservados)

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A aplicação Amap apresenta-me vários caminhos até ao Museu de Jinsha e escolho este: 1,8 quilómetros (km) de bicicleta até à estação de metro Huaxing, a seguir sigo nas linhas 10 e 7 do metro.

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O pior é que, hoje, não há bicicletas azuis disponíveis. Depois de andar para trás e para a frente, dentro do parque, entre os portões norte e sul, e de esperar um pouco, a ver se chegava alguém de bicicleta e a deixava aqui, desisti e fui a pé até à estação Huaxing.

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Bicicletas azuis, finalmente. São agora 9h09. Só faltam 600 metros para o metro, mas vou de bicicleta na mesma. Irei pagar 1,5 yuans (0,18 euros, mais dois cêntimos pelas taxas cobradas pelo meu banco).

Esta é a entrada para o Museu de Jinsha. Por esta altura, ainda não sei, mas diz ali no portão, em letras gigantes: “Chengdu: Construção Civil. Criar obras-primas da nossa época. Um farol para o setor da construção.”

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E o segurança não me deixou entrar. Remeteu-me para este cartaz, que tratei de traduzir com a função de “fotografia” da aplicação DeepL. Diz o seguinte: “Caros espetadores e cidadãos: A fim de melhor cumprir a missão de proteger, investigar, divulgar e transmitir o património cultural, com o objetivo de melhorar a qualidade dos serviços culturais e a experiência dos visitantes, o Museu das Ruínas de Jinsha, em Chengdu, realizará obras de renovação integral entre 5 de dezembro de 2025 e 30 de abril de 2027. Durante o período de implementação, todas as áreas do Museu das Ruínas de Jinsha estarão temporariamente fechadas ao público. Esta intervenção global irá proporcionar uma conservação sistemática do próprio sítio arqueológico e do património cultural do museu, proteger e renovar o sistema de exposições, otimizar o espaço do recinto, modernizar os sistemas de poupança de energia e redução de emissões de carbono, enriquecer os ambientes de experiência cultural, com instalações de apoio adaptadas às necessidades de acessibilidade e de terceira idade, com o objetivo de lhe proporcionar um serviço mais profissional, inteligente e de qualidade. Os espetadores que tenham feito uma reserva ou comprado bilhetes que não tenham utilizado podem, através da plataforma original de reserva/compra de bilhetes, solicitar o reembolso na bilheteira do museu; os titulares de cartões anuais e familiares podem optar por prorrogar a validade ou reembolso (para mais informações, consulte o site oficial: www.jinshasitemuseum.com). Pedimos desculpa pelo transtorno causado e agradecemos sinceramente a sua compreensão e apoio. Esperamos encontrá-lo novamente no novo sítio arqueológico de Jinsha. Se tiver alguma dúvida ou precisar de ajuda, pode contactar-nos através dos seguintes meios. Estaremos à sua disposição o mais rapidamente possível.”

Que desilusão. Estamos em abril de 2026, o museu só abre em abril de 2027!

Bom, tenho de mudar de rota já. Era suposto visitar os famosos becos chamados “Kuanzhai Xiangzi”, a seguir ao museu, mas assim vou já. Ficam a seis quilómetros, vou de bicicleta.

Recordo que as bicicletas e as motocicletas elétricas obedecem aos semáforos dos peões, quando não existem semáforos específicos para bicicletas. E atravessam nas passadeiras, tal como os peões.

Um veterinário.

O que é isto? Um museu? Estou tão triste por não ter visitado o Museu de Jinsha. Gosto tanto de museus. Aqui é um museu? Então vou visitar este. Museu do Mausoléu de Yongling. São agora 11h07.

A bicicleta ficou aqui. Ainda foi um belo passeio de 45 minutos. Ela despediu-se de mim, com a sua vozinha fininha, quando terminei a utilização. Paguei 4,5 yuans (0,54€).

O bilhete custa 20 yuans (2,40€) e tenho de apresentar o meu passaporte. Em todos os museus e monumentos, é preciso apresentar o passaporte.

Esta é uma criatura mítica, uma escultura guardiã funerária que acabou por ser descrita popularmente como “um gato mítico”. É localmente chamada “Haixizi” e não corresponde a um animal real. É uma criatura guardiã que desempenha funções de proteção de espaços sagrados ou funerários. Afasta espíritos malignos, representa autoridade e estatuto do túmulo imperial ou memorial. Mas os Chineses deram-lhe um toque especial, ao colocarem fotos dos gatos de rua adotados pelo museu, que vivem aqui dentro, no recinto (nas fotografias seguintes irei mostrar um).

Na primeira placa, é apresentado o “Gato Pão”: “Olá, humanos! Sou o famoso e popular Gato Pão! (Ai! O Huangmendun’er está sempre agarrado a mim. Até hoje, ainda não consegui tirar uma fotografia sozinho!)”
“Gato Pão” (面包猫) é a alcunha do gato laranja, uma das mascotes mais populares do museu. Tornou-se “famoso” porque o museu criou estas placas humorísticas e também conteúdos nas redes sociais a apresentá-lo como se fosse uma personagem. O nome “Gato Pão” vem do facto de ele ser redondo e fofo, com aparência “fofinha e amassável”, como pão macio.
Ou seja, de um lado, encontram-se os solenes vestígios históricos do museu, incluindo esculturas em pedra com mais de mil anos; do outro, aparecem apresentações ternurentas dos gatos residentes, escritas numa linguagem moderna, cheia de referências da Internet. Esta é uma forma de atrair visitantes, tornando o espaço histórico mais próximo, mais humano e mais acolhedor.
Fiquei a adorar o museu, com esta brincadeira.

O Museu do Mausoléu de Yongling é um sítio arqueológico construído em torno do túmulo do rei Wang Jian (847–918 d.C.), fundador do estado de Shu Posterior durante o período das Cinco Dinastias e Dez Reinos. Este túmulo foi construído em 918 d.C. e é considerado um caso raro na China: é o único túmulo imperial conhecido construído acima do solo, em vez de estar enterrado profundamente. Recordemos o túmulo de Liu Bei, que visitei na crónica 12, no Templo Wuhou, e que está enterrado dentro de um monte. Nós, visitantes, apenas andamos à volta do monte, não vemos o túmulo. Mas aqui vemos. E nas paredes existem relevos com 24 músicos e dançarinos da corte.

Está tudo em Chinês!

No recinto do museu, há um pavilhão com uma exposição temporária dedicada ao povo Naxi e à sua cultura Dongba.

Na região das Montanhas Hengduan, no encontro entre as províncias de Yunnan, Sichuan e do Tibete (Xizang), na China, erguem-se paisagens montanhosas de grande altitude, com picos cobertos de neve e vales atravessados por rios profundos. O povo Naxi vive nesta região há várias gerações.
A cultura Naxi inclui a tradição Dongba, um sistema religioso e cultural com uma longa História, que integra rituais, textos e uma escrita pictográfica própria.

O cartaz refere que esta área está associada a um importante sítio reconhecido como Património Mundial da UNESCO: a Cidade Velha de Lijiang, com arquitetura tradicional e uma estrutura urbana que reflete a cultura Naxi. Estive Cidade Velha de Lijiang há nove anos, em 2017, quando percorri Yunnan de bicicleta.

Está a exercitar o Tai Chi, em silêncio. É uma prática chinesa tradicional, ligada à filosofia taoista, que combina movimento corporal lento, respiração controlada e concentração mental. Apesar de, muitas vezes, parecer uma dança, na origem, é uma arte marcial interna. “Interna” porque se treina a coordenação mente-corpo e a energia corporal, mais do que desenvolver uma força muscular visível. Tem uma forte componente filosófica e de saúde: envolve fortalecimento muscular suave, redução de risco de quedas (muito usado por idosos), mobilidade articular, redução do stress e sensação de calma.

Estive 1h15 no Museu Yongling e respetivos pavilhões. Foi uma pausa muito agradável. São agora 12h33 e retomo o meu caminho em direção aos becos Kuanzhai Xiangzi.

Já levaram a minha bicicleta, mas ainda aqui está a outra.

Vinte minutos depois, cheguei aos becos. Estacionei aqui e paguei 2,5 yuans (0,30€).

O nome Kuanzhai Xiangzi significa literalmente: Kuan = “largo”; Zhai = “estreito” e Xiangzi = “becos”.

O conjunto é formado por três ruas paralelas: Beco Largo (Kuan Xiangzi); Beco Estreito (Zhai Xiangzi) e Beco do Poço (Jing Xiangzi). Foram criados no início do século XVIII, durante a dinastia Qing (c. 1718) e foram totalmente reabilitados no início dos anos 2000.

Alguém já tinha visto um dinossáurio de chocolate?!

103 gramas, 29 yuans (3,48€).

Excelente, este gelado: 25 yuans (3€).

Cocos: 30 yuans (3,60€). Tem água de coco, dentro, para beber com uma palhinha. Não comprei por serem muito caros. Cocos como estes comprava-os na Amazónia, em Timor-Leste e no Vietname por tuta e meia, jamais por 3,60€.

São cogumelos vivos.

São agora 14h49 e vou ao mercado agrícola Wangjin – o habitual, perto da residência. Às 17h00, tenho uma visita da Zhou, no meu estúdio.

A cozinheira Han apitou-me e eu assustei-me. Rimo-nos com a coincidência deste encontro.

Outro spray inseticida, porque o anterior acabou-se. Custa 20,9 yuans (2,51€).

O spray vai no suporte das bebidas, no cesto.

A esta hora, o Porshz já está em sua casa, na Tailândia. E a Anna e a Joanna avisaram, no grupo do WeChat, que hoje não vinham jantar.

Aqui há gato! À porta da casa do Toni e da Li.

São agora 18h47 e chegou a Zhou Hong, que conheci na crónica 3. Nessa ocasião, convidei-a para visitar o meu estúdio. O encontro era às 17h00, mas a Zhou teve alguns contratempos e só chegou agora. Irá passar quase hora e meia comigo, no meu estúdio, sempre a conversarmos com os tradutores dos nossos telemóveis.

A Zhou trouxe-nos chá quente. Dentro da minha garrafa não está um refrigerante, está um chá morno. A Zhou explica-me que se trata de uma planta medicinal cozida e colocada dentro da garrafa. É bom, o chá. Eu sou grande apreciadora de chá.

Eu tomo-me por uma pessoa cheia de energia, mas a Zhou creio que consegue ultrapassar-me. A Zhou tem uma energia esfuziante. Mora a 12 quilómetros, veio de bicicleta, tem 53 anos. Está aposentada e recebe uma reforma do Estado (isto já expliquei na crónica 3 – na edição de 28 de maio de 2026), tem uma filha de 23 anos e disse-me: “Embora eu esteja aposentada, desempenho funções de monitorização, segurança, manutenção de instalações elétricas de baixa tensão e controlo de acessos. Executo alguns projetos pequenos por conta própria e trabalho sozinha.”

A Zhou deu-me várias sugestões sobre o que visitar em Chengdu: para além da ciclovia, que já me tinha apresentado através do WeChat, agora sugeriu-me visitar a área húmida de Huanhuaxi, a maior do município de Chengdu, no dia em que eu visitar a casa Du Fu, o templo Qingyang e o museu de Sichuan – ficam os quatro perto uns dos outros. Deu-me também outras sugestões, noutros pontos do mapa. Foi a Zhou quem me deu, hoje, as primeiras explicações sobre a brincadeira dos gatos, no Museu Yongling.

O segurança do portão, Pu.

Vejam bem quem está à porta do meu estúdio!

O Huji anda à solta e é aquela funcionária que está a tomar conta dele. Claro, ele aproveitou a minha presença para dar uma voltinha no parque – e eu atrás dele. Fomos os dois passear. Esta senhora ainda gritou a chamá-lo e eu dei outro grito, do outro lado, sem a ver, dizendo: “Ele está aqui!” Falei em Português e tudo, mas, pelo menos, ela ficou a saber que andávamos perto.
Se a gente perde o Huji – o cão da presidente Yang Li –, a funcionária fica sem o emprego e eu sem a residência. É melhor termos cuidado.

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30/07/2026

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RUNA

https://rutenorte.com/

RUNA (“aka” Rute Norte) nasceu e vive em Lisboa, Portugal. Licenciou-se na Universidade de Lisboa e concluiu o mestrado em Pintura, na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa (em 2022). A sua dissertação de mestrado incidiu sobre o tema dos artistas-viajantes e intitula-se “A experiência do lugar: a sua influência na produção pictórica do artista-viajante, no século XXI”. Frequentou ainda o curso de Fotografia no Cenjor — Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas, em Lisboa (182 horas de formação, em 2018). RUNA foi distinguida com uma Bolsa de Mobilidade da União Europeia para realizar uma residência artística de um mês na Arménia. Realizou também residências artísticas na Bulgária, na Itália e na China, no âmbito da sua prática enquanto artista-viajante, com apoio do Ministério da Cultura da Bulgária, da Fundação Frenkiel & Ponti e da NongYuan Culture. RUNA participou em mais de trinta exposições, individuais e colectivas, em Portugal, Espanha, Reino Unido, Áustria, Alemanha, Itália, Bulgária, Arménia, Colômbia, Coreia do Sul, Turquia, Estados Unidos da América e Canadá.

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