Crónica da China: oitavo dia

 Crónica da China: oitavo dia

(© RUNA – Rute Norte)

Centro de Investigação e Reprodução do Panda-Gigante de Chengdu

Hoje é quinta-feira, 16 de abril de 2026.

Dormi com a luz natural que vem de fora. Não acendi nenhumas luzes durante a noite, nem fechei quaisquer cortinas. Tomei o pequeno-almoço também à luz natural. Assim farei em toda a minha restante estadia. Durante a noite, ouvi as rãs a coaxar. E, às cinco, começaram os primeiros pássaros a cantar.

Há muitas melgas por aqui. Todo este verde húmido e quente é favorável a isso. Comecei a usar o meu spray repelente para usar no corpo, que trouxe de Portugal. Uso sempre o mais potente do mercado, com a maior percentagem de deet (50%), chamado Previpiq Tropics. É fabricado na União Europeia e, para ser mais exata, em Portugal mesmo, através do Grupo Medinfar, uma empresa farmacêutica portuguesa. É comercializado internacionalmente e acompanha-me, há muitos anos, nestes ambientes quentes e húmidos. Chengdu tem um clima classificado como subtropical húmido.

Ontem, passei algum tempo a estudar o Centro de Investigação e Reprodução do Panda-Gigante de Chengdu (o nome oficial, em Inglês, é “Chengdu Research Base of Giant Panda Breeding”) e percebi que existem muitas coisas para nos inteirarmos: o bilhete deve ser comprado online, previamente, porque há entradas limitadas diárias e, portanto, pode esgotar; e tem horários convenientes para visitar, quando os pandas estão acordados e a alimentar-se, na parte da manhã.

Os bilhetes são comprados através do WeChat, mas está tudo em Chinês. Pedi ontem ajuda à Mia, que me comprou um bilhete para hoje. É preciso fornecer os dados do passaporte. Não há metro para lá, fica longe. Porém, há um shuttle bus a partir da última estação do metro. O Centro tem dois portões – a sul e a oeste – e a IA aconselha-me a entrar pelo do oeste, perto dos pandas.

O outro portão pode ser visitado a qualquer hora do dia – tem o museu, loja e afins. Eu quero ir logo na primeira hora da manhã, sem multidões, quando os pandas estão acordados e a brincar, nomeadamente as crias.
Os táxis são muito baratos aqui e, por isso, decidi ir de táxi para lá, às 6h45, para acelerar a chegada. São 31 quilómetros (km), meia hora de viagem e custa sete euros. O Centro abre às 7h30. Depois, regressarei de metro.

Prefiro sempre misturar-me com a população e imbuir-me da sua vida quotidiana. Além de que de metro é mais tranquilo, sem trânsito. No entanto, acerca dos táxis, existe um tal de “tráfico controlado” e só consegui reservar um táxi para a entrada sul, muito longe da entrada oeste. Vou então para a entrada sul. Existem autocarros dentro do parque para transportar as pessoas em toda a sua extensão.

Todavia, quando cheguei ao Centro, deparei com uma multidão ainda mais madrugadora do que eu. E tanto faz entrar no portão sul como no do oeste, há pandas por todo o lado.

Passei cinco horas e meia no Centro, desde que cheguei, às 7h18, até que parti no shuttle bus gratuito, às 12h50. Usei o autocarro dentro do parque, para percorrê-lo, e mesmo assim não consegui ver tudo.

São 6h34. Um funcionário do parque abriu-me o portão, para eu sair. Foi combinado previamente, ontem, através do grupo que temos no WeChat.

(Direitos reservados)

Através da aplicação Alipay, entra-se na aplicação DiDi, para os táxis. A aplicação utiliza a minha localização. Eu digo qual o destino que quero e a aplicação manda-me um táxi. 58,4 yuans correspondem, ao câmbio atual (de 0,12€), a 7,00€.

A aplicação DiDi informa-me que o meu táxi está a caminho. Está a 1,3 km de distância e chegará dentro de dois minutos. Dá-me a matrícula e a cor do carro, bem com o nome do motorista.

O motorista é capaz de ter estranhado o forte odor que eu exalo – é o repelente de insetos que espalhei pelo corpo. Os pandas estão no meio de abundante vegetação e eu achei melhor ir preparada.

Os sanitários na China são do tipo squat, ou seja, não têm sanita ocidental e utilizam-se na posição de cócoras, ao contrário dos modelos habituais em Portugal e na Europa, que são de sentar.

Do outro lado do vidro, está outro limpador, que se move ao mesmo tempo que o limpador deste lado. Eu nunca tinha visto isto. Assim o vidro é limpo, simultaneamente, nos dois lados.

Estes são os “WC família”. Encontrei-os muitas vezes em Chengdu.

São duas crias.

Estas casas estão muito longe, eu é que estou a usar o zoom máximo.

O vidro tem pintas e explica-se porquê: “As aves acreditam que a vegetação, as paisagens ou o céu refletido no vidro são reais e, assim, colidem, causando ferimentos ou a morte.”

Outro WC. Há muitos, espalhados pelo parque.

Um panda sem uma única pessoa a vê-lo. A zona oeste do parque é muito mais tranquila.

A saída.

shuttle bus 409 parou em frente do Hospital Geral da Região Militar – cuja estação de metro tem o mesmo nome – e ninguém sabia que tinha de sair. Quem vai visitar o Centro dos Pandas não mora propriamente aqui, pelo que ficámos todos sentados dentro do autocarro, até que o motorista tenha gritado algo como “estação final”, porque toda a gente se levantou e saiu – e eu fui atrás. Agora, tenho o metro aqui, algures, que me levará até à residência. No meio desta (pequena e adorável) confusão, estava outra rapariga também a tentar perceber o caminho, com o GPS ligado no telemóvel, e eu abordei-a em Inglês. Estas coisas divertem-me, é verdade. Não há melhor para conhecer pessoas do que estar perdida numa cidade.

Entretanto, os passageiros dirigiram-se quase todos no mesmo sentido, nesta rua. E eu disse a essa rapariga – que se chama Renata, entretanto apresentámo-nos – que se eles vão, nós vamos também. De certeza, estas pessoas não moram todas aqui e estarão, provavelmente, a ir nesta direção para o metro. A Renata perguntou-me de onde sou e respondi: ”Portugal!” E a Renata respondeu-me em Português: “Podemos então falar Português, eu sou do Brasil!”

(Direitos reservados)

A Renata Vieira é oriunda do Rio de Janeiro. Anda três semanas a viajar sozinha pela Ásia. Está pela primeira vez neste continente. Esteve em Xangai e chegou ontem a Chengdu. Eu até estranho falar em Português. A Renata vai para o centro da cidade e eu tenho de ir também. Posteriormente, tenho de fazer transferência para a linha 9. Nem pus a minha app do Amap a funcionar, fui seguindo a Renata. Faltou foi um pormenor: comprar o bilhete. A Renata entrou, depois de passarmos as duas nas máquinas do raio-x, e fiquei do lado de fora. Onde é que está a bilheteira?

Então, a Renata – já depois de atravessar as cancelas do metro – pediu-me para eu lhe passar o meu telemóvel e procurou “metro” dentro do Alipay. Apareceu logo. E, mesmo estando tudo em Chinês, a Renata ativou-me o botão para passar igualmente na cancela. Aparece um QR Code e temos de passar esse QR Code na máquina. A cancela abriu-se e atravessei-a, finalmente. Isto foi tudo muito rápido – o metro estava a chegar. Esta é a linha 3, que vai para o centro de Chengdu. Está sempre cheia e o metro passa de dois em dois minutos.
Eu estou divertidíssima, no meio desta azáfama.

No final da viagem, é necessário passar o QR Code na máquina para sair. Aqui, é calculado o preço do bilhete, que varia consoante a distância percorrida. Quando estive em Pequim, há nove anos, comprava sempre os bilhetes na bilheteira, com dinheiro. Aqui em Chengdu, nove anos após, em algumas estações nem existem bilheteiras.

Despedi-me da Renata que, entretanto, saiu no centro da cidade. Segui para a linha 9. Desejei-lhe continuação de boa viagem e convidei-a a visitar o meu estúdio.

Esta rapariga cumprimentou-me e disse-me que sou bonita. “You’re beautiful”, disse-me ela em Inglês. Eu ri-me. Uma pessoa não está à espera destas coisas, no metro. Perguntou-me de onde sou, mas ela teve de sair antes de eu conseguir traduzir.

“Taiping Temple” é a estação de metro mais movimentada da China. E, pelo que me disseram, não existe nenhum templo aqui. Quis ir visitá-lo, mas observaram que deve ser algum nome antigo, porque não existe nenhum templo aqui.

As máquinas do raio-x, para quem está a entrar na estação. Eu acabei de sair (para sair não é preciso passar nas máquinas) e paguei 6,30 yuans pelo bilhete de metro – ou seja, 0,76€. Sempre é melhor pagar 76 cêntimos do que 7,00€ pelo táxi. É uma opção mais amiga do ambiente e ainda se conhecem algumas pessoas pelo caminho.

E agora 1,5 yuans pela bicicleta, ou seja, 0,18€. Este caminho entre o metro e a residência pode, perfeitamente, ser feito a pé: é um quilómetro a direito, sem inclinações. Recordemos que quando cheguei do aeroporto, com as bagagens, fi-lo a pé.

Naturalmente, vou pintar a minha nova tela de vermelho. Nem os pandas pretos e brancos me demoveram.

Hoje, janto na companhia da nova artista que chegou: Anna Pustovalova, pintora, de São Petersburgo, na Rússia.

Aquele caldo no centro da mesa é feito com hortelã e ovos, uma delícia. O cheiro da hortelã paira à nossa volta. A cozinheira Han pareceu-me que queria dizer-nos que apanhou a hortelã algures, perto dali. Na outra tigela, estão ovos de codorniz, igualmente muito saborosos. Se eu não comento mais vezes a comida, é porque, simplesmente, não sei o que estou a comer. Geralmente, é tudo muito picante e saboroso.

Entretanto, descobri que o Huji pertence à presidente e fundadora da NongYuan: Yang Li, a qual passará a aparecer nas próximas crónicas.

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15/06/2026

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RUNA

https://rutenorte.com/

RUNA (“aka” Rute Norte) nasceu e vive em Lisboa, Portugal. Licenciou-se na Universidade de Lisboa e concluiu o mestrado em Pintura, na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa (em 2022). A sua dissertação de mestrado incidiu sobre o tema dos artistas-viajantes e intitula-se “A experiência do lugar: a sua influência na produção pictórica do artista-viajante, no século XXI”. Frequentou ainda o curso de Fotografia no Cenjor — Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas, em Lisboa (182 horas de formação, em 2018). RUNA foi distinguida com uma Bolsa de Mobilidade da União Europeia para realizar uma residência artística de um mês na Arménia. Realizou também residências artísticas na Bulgária, na Itália e na China, no âmbito da sua prática enquanto artista-viajante, com apoio do Ministério da Cultura da Bulgária, da Fundação Frenkiel & Ponti e da NongYuan Culture. RUNA participou em mais de trinta exposições, individuais e colectivas, em Portugal, Espanha, Reino Unido, Áustria, Alemanha, Itália, Bulgária, Arménia, Colômbia, Coreia do Sul, Turquia, Estados Unidos da América e Canadá.

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