De Euclides a Bachelard
(Créditos fotográficos: National Cancer Institute – Unsplash)

é um tratado sobre geometria e matemática e um dos
livros mais influentes já escritos. (britannica.com)
Seria simplista e redutor considerar que a actividade do Serviço Nacional de Saúde (SNS) se limitaria ao tratamento da doença. O conceito de “serviço”, neste caso, deverá ser considerado de uma forma holística, remetendo para tudo quanto possa contribuir para a Saúde, definido de maneira a captar as suas componentes biológica, psicológica e social. Tem sido na ponderação dada a cada uma destas componentes que o SNS tem funcionado, devendo, por isso, procurar-se nela a explicação para os problemas que o SNS tem enfrentado.
A menor importância que tem sido dada aos aspectos sociopsicológicos das pessoas decorre da incompreensão do impacto que os ambientes das diversas comunidades – familiar, escolar, laboral e social – têm nas suas vidas; e de como eles fazem oscilar o estado de saúde, consoante a presença e a variabilidade dos factores que lhes sejam protectores.

poeta francês. O seu pensamento está focado
principalmente em questões referentes à Filosofia da
Ciência. (pt.wikipedia.org)
A visão quântica do que nos rodeia informa-nos que tudo influencia a vida humana, que não existem vazios, só continuidades. Daí que, existindo, apesar disso, um interior e um exterior anatómico, a redução ao anatómico, a tudo quanto é axiomático, portanto, deve ser considerado actualmente como um regresso à visão euclidiana do conhecimento. Ou seja, o modelo epistemológico que serviu, durante mais de oito séculos, para explicar a geometria da vida: a biologia que se desenrolava em paralelo com a sociedade, que nunca se encontrava com a mente; a cada uma era dado um tratamento parcelar e distinto, sem que alguma delas interferisse com os resultados obtidos pela outra.
É à luz deste entendimento axiomático que o SNS continua a estar organizado – o que é para tratar não é miscível com o que deve ser prevenido, que não deve ser misturado com o que deve ser promovido. Tudo se desenvolve em territórios exclusivos, suficientemente longínquos para que nenhum deles contamine o outro. Não fosse descobrir-se, afinal, que com menos esforço se podiam alcançar melhores resultados: isso seria revolucionar a ordem escolástica – passar da explicação euclidiana para a explicação bachelardiana, assente em redes, fundamentada em hipóteses, em constante mudança, resolvendo problemas e procurando a eficácia.

Se, actualmente, qualquer ramo da ciência se caracteriza, antes de mais, por trabalhar com probabilidades, deve-se considerar, então, que a verdade é sempre transitória e que qualquer tentativa para a tornar definitiva representa uma manifestação de arrogância intelectual, que se transforma em dogma político quando se tornar normativa. Tudo vai bem quando essa manifestação fica confinada às paredes onde ela é especulada; quando a realidade se insurge contra ela e declara que a verdade, mesmo momentânea, para ser socialmente útil, precisa do rigor com que se construíram as catedrais. Assim, a humildade é o valor intelectual que se deve fazer valer. Fora desta concepção, tudo o que se diga e faça é por razões estranhas à verdade e estarão em jogo interesses que utilizam toupeiras para atingir os seus fins. A vida política está recheada dessas figuras prontas a prestarem-se a esse papel, defensoras de verdades sintéticas, laboratorialmente construídas para alcançarem o efeito pretendido. Na sua composição entram dinheiro, poder e prestígio, as recompensas pelo lucro facilitado.

Há custa de tanto se divulgar a sua utilidade, sem curar de se demonstrar a sua validade para o que interessa, a solução que, hoje, vigora no SNS representa o típico exemplo euclidiano do voluntarismo axiomático. Se muito do que assalta o espírito humano pode ser aproveitado, nomeadamente no campo artístico, quando aplicado à vida das organizações, exige que seja escrutinado e tão abrangente quanto os problemas para resolver o exigem. Esta é a premissa que deve estar sempre presente quando só existe uma finalidade – considerar exaustivamente tudo quanto possa contribuir para ela, cuidando das preferências, de que as linhas rectas nunca mais serão paralelas e que todas as verdades são probabilísticas.

Sendo indiscutível a razão de existência de um serviço público de saúde, assim como a sua manutenção, sem que para tal se tenha de andar a demonstrar a sua racionalidade, a única maneira de o tornar indispensável é fazer dele a peça insubstituível para o bom andamento da vida em comunidade. Para tal, não basta que se diga que quem a ele acorre vai ser servido e sai de lá tratado conforme o que os protocolos mandam fazer; torna-se indispensável que se faça a sua ronda diária pelas ruas e calçadas, à boa maneira dos filósofos gregos, interpelando quem está com sábias palavras e demonstrações sobre o que há para fazer, se quiser viver até tarde, em paz com o corpo, com o ambiente e com o trabalho.
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06/04/2026