De Euclides a Bachelard 

 De Euclides a Bachelard 

(Créditos fotográficos: National Cancer Institute – Unsplash)

Euclides, xilogravura colorida, de 1584. “Seus Elementos”
é um tratado sobre geometria e matemática e um dos
livros mais influentes já escritos. (britannica.com)

Seria simplista e redutor considerar que a actividade do Serviço Nacional de Saúde (SNS) se limitaria  ao tratamento da doença. O conceito de “serviço”, neste caso, deverá ser considerado de uma forma holística, remetendo para tudo quanto possa contribuir para a Saúde, definido de maneira a captar as suas componentes biológica, psicológica e social. Tem sido na ponderação dada a cada uma destas componentes que o SNS tem funcionado, devendo, por isso, procurar-se nela a explicação para os problemas que o SNS tem enfrentado. 

A  menor importância que tem sido dada aos aspectos sociopsicológicos das pessoas decorre da incompreensão do impacto que os ambientes das diversas comunidades – familiar, escolar, laboral e social – têm nas suas vidas; e de como eles fazem oscilar o estado de saúde, consoante a presença e a variabilidade dos factores que lhes sejam protectores.  

Gaston Bachelard (1884 –1962) foi um filósofo, químico e
poeta francês. O seu pensamento está focado
principalmente em questões referentes à Filosofia da
Ciência. (pt.wikipedia.org)

A visão quântica do que nos rodeia informa-nos que tudo influencia a vida humana, que não existem vazios, só continuidades. Daí que, existindo, apesar disso, um interior e um exterior anatómico, a redução ao anatómico, a tudo quanto é axiomático, portanto, deve ser considerado actualmente como um regresso à visão euclidiana do conhecimento. Ou seja, o modelo epistemológico que serviu, durante mais de oito séculos, para explicar a geometria da vida: a biologia que se desenrolava em paralelo com a sociedade, que nunca se encontrava com a mente; a cada uma era dado um tratamento parcelar e distinto, sem que alguma delas interferisse com os resultados obtidos pela outra. 

É à luz deste entendimento axiomático que o SNS continua a estar organizado – o que é para tratar não é miscível com o que deve ser prevenido, que não deve ser misturado com o que deve ser promovido. Tudo se desenvolve em territórios exclusivos, suficientemente longínquos para que nenhum deles contamine o outro. Não fosse descobrir-se, afinal, que com menos esforço se podiam alcançar melhores resultados: isso seria revolucionar a ordem escolástica – passar da explicação euclidiana para a explicação bachelardiana, assente em redes, fundamentada em hipóteses, em constante mudança, resolvendo problemas e procurando a eficácia. 

(Créditos fotográficos: ThisisEngineering – Unsplash)

Se, actualmente, qualquer ramo da ciência se caracteriza, antes de mais, por trabalhar com probabilidades, deve-se considerar, então, que a verdade é sempre transitória e que qualquer tentativa para a tornar definitiva representa uma manifestação de arrogância intelectual, que se transforma em dogma político quando se tornar normativa. Tudo vai bem quando essa manifestação fica confinada às paredes onde ela é especulada;  quando a realidade se insurge contra ela e declara que a verdade, mesmo momentânea, para ser socialmente útil, precisa do rigor com que se construíram as catedrais. Assim, a humildade é o valor intelectual que se deve fazer valer. Fora desta concepção, tudo o que se diga e faça é por razões estranhas à verdade e estarão em jogo interesses que utilizam toupeiras para atingir os seus fins. A vida política está recheada dessas figuras prontas a prestarem-se a esse papel, defensoras de verdades sintéticas, laboratorialmente construídas para alcançarem o efeito pretendido. Na sua composição entram dinheiro, poder e prestígio, as recompensas pelo lucro facilitado. 

(Créditos fotográficos: Joseph Shohmelian – Pixabay)

Há custa de tanto se divulgar a sua utilidade, sem curar de se demonstrar a sua validade para o que interessa, a solução que, hoje, vigora no SNS representa o típico exemplo euclidiano do voluntarismo axiomático. Se muito do que assalta o espírito humano pode ser aproveitado, nomeadamente no campo artístico, quando aplicado à vida das organizações, exige que seja escrutinado e tão abrangente quanto os problemas para resolver o exigem. Esta é a premissa que deve estar sempre presente quando só existe uma finalidade – considerar exaustivamente tudo quanto possa contribuir para ela, cuidando das preferências, de que as linhas rectas nunca mais serão paralelas e que todas as verdades são probabilísticas. 

(Créditos fotográficos: Tim Büning – Unsplash)

Sendo indiscutível a razão de existência de um serviço público de saúde, assim como a sua manutenção, sem que para tal se tenha de andar a demonstrar a sua racionalidade, a única maneira de o tornar indispensável é fazer dele a peça insubstituível para o bom andamento da vida em comunidade. Para tal, não basta que se diga que quem a ele acorre vai ser servido e sai de lá tratado conforme o que os protocolos mandam fazer; torna-se indispensável  que se faça a sua ronda diária pelas ruas e calçadas, à boa maneira dos filósofos gregos, interpelando quem está com sábias palavras e demonstrações sobre o que há para fazer, se quiser viver até tarde, em paz com o corpo, com o ambiente e com o trabalho. 

.

06/04/2026

Siga-nos:
fb-share-icon

Cipriano Justo

Licenciado em Medicina, especialista de Saúde Pública, doutorado em Saúde Comunitária. Médico de saúde pública em vários centros de saúde: Alentejo, Porto, Lisboa e Cascais. Foi subdiretor-geral da Saúde no mandato da ministra Maria de Belém. Professor universitário em várias universidades. Presidente do conselho distrital da Grande Lisboa da Ordem dos Médicos. Foi dirigente da Associação Académica de Moçambique e da Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. É um dos principais impulsionadores da revisão da Lei de Bases da Saúde.

Outros artigos

Share
Instagram