Depois do pudor

 Depois do pudor

(arquivos.rtp.pt)

No livro “O Fim da Vergonha – Como a direita radical se normalizou” (de 2024), Vicente Valentim chama a atenção para algo inquietante: existem mais indivíduos com predisposições radicais do que aquilo que habitualmente se supõe.

(facebook.com/gradiva.publicacoes)

Aplicada ao caso português, esta perspetiva sugere que muitos que, hoje, se apresentam discretos ou reservados nas suas preferências políticas poderão partilhar posições próximas das defendidas pelo Chega – não por ausência de convicção, mas porque as circunstâncias sociais e políticas não lhes parecem favoráveis à sua expressão. A questão que se coloca é se não estarão alguns dos nossos compatriotas apenas à espera de um contexto mais propício para afirmar abertamente aquilo que vêm preferindo manter em silêncio – e poucos momentos parecem tão adequados como o presente.

(facebook.com/comunidadeculturarte)

Segundo o politólogo português, doutorado pelo Instituto Universitário Europeu, em Florença, a chave para compreender este fenómeno reside na normalização. A linha de raciocínio percorre uma ideia simples: quem percebe a sua posição como dominante tende a expressá-la sem reservas; quem a julga minoritária prefere, muitas vezes, o silêncio.

Partindo deste pressuposto, Vicente Valentim sustenta que as atitudes políticas raramente se transformam de forma súbita – e, assim sendo, muito dificilmente acompanham o ritmo vertiginoso com que os partidos da direita radical têm acumulado sucessos eleitorais em várias democracias ocidentais. Resultarão, portanto, muito menos de uma conversão ideológica em massa do que da crescente legitimidade social conferida a ideias que, até há pouco tempo, permaneciam relegadas para as margens do debate público. A dado momento, o autor lança a seguinte interrogação: quantas vezes conseguimos, no seio de uma qualquer conversa, alterar as convicções políticas de alguém? A resposta, pelo menos no meu caso, é imediata: zero.

Vicente Valentim, politólogo português, doutorado pelo
Instituto Universitário Europeu. (Créditos fotográficos: David
Fisher – ualmedia.pt)

Para trazer a discussão para o plano concreto, basta olhar para o que sucedeu recentemente em Coimbra. No passado domingo (31 de maio), terminou a semana dedicada à Queima das Fitas – período do calendário em que milhares de estudantes suspendem as exigências do quotidiano para se entregarem desenfreadamente à celebração. Durante estes dias, como se a excecionalidade da festa atenuasse quaisquer juízos morais ou académicos, quase tudo parece permitido. Nem todos, porém, viveram a tão ansiada semana como a generalidade: duas jovens foram vítimas de violação nas proximidades do espaço onde decorreram os concertos – uma foi encontrada inconsciente, a outra em estado de extrema vulnerabilidade.

(Créditos de imagem: Laura Chouette – pexels.com)

Perante um cenário desta natureza, a distinção moral é inequívoca: de um lado, quem sofre a violência; do outro, quem a exerce. Duas vítimas, dois agressores. Ou, pelo menos, assim deveria ser – o simples facto de o autor destas linhas ter sentido necessidade de o confirmar diz muito sobre o clima de inversão moral que atravessa o espaço público contemporâneo. Como é hábito nesta rubrica, e porque as caixas de comentários das redes sociais oferecem um vislumbre – ainda que imperfeito – de determinados estados de espírito coletivos, vale a pena espreitar o que por lá se escreveu.

Os comentários apresentados em seguida, retirados de uma publicação no Facebook do Diário de Coimbra sobre este caso, mantêm-se integralmente fiéis à sua formulação original (mesmo com. A opção é deliberada: apenas assim o leitor poderá confrontar-se, sem mediações, com os juízos e as sensibilidades que, presentemente, encontram nas redes sociais um dos seus principais espaços de manifestação.

(instagram.com/diariocoimbra)

Exatamente assim:

  • Fazem cada filme.. A cerveja e o gim são mesmo potentes
  • Que bebam água
  • Não me admiro nada!!! Muita cerveja, demais!!!
  • elas põem se a geito, só merda isto..
  • Daqui a nove meses o resultado do álcool está a vista
  • Já se sabia, com as figuras, era estranho se não acontecesse. Mas enfimm, não vale a pena.
  • Elas gostam, devem ter gemido mal
  • Elas foram á missa. E devem ter rezado mal o Pai-Nosso. E Deus, castigou-as, por andarem por tão “bons caminhos”…
  • Que se foda, não fossem

Há um outro elemento particularmente revelador: todos os comentários aqui reproduzidos foram escritos por mulheres. Vindo de homens, sabemos, por experiência, que muitos discursos tendem a assumir contornos ainda mais agressivos e desumanizantes. Chegámos a um ponto em que nem sequer a partilha de uma mesma condição de género garante a emergência espontânea da empatia.

(Créditos fotográficos: Héctor J. Rivas – Unsplash)

É para este mecanismo que Vicente Valentim dirige a sua atenção. Na sua perspetiva, o que hoje se observa poderá não ser o triunfo definitivo de determinadas posições, mas antes a progressiva erosão das barreiras que anteriormente as mantinham à margem. À medida que estas barreiras enfraquecem, discursos que eram considerados inaceitáveis tornam-se mais frequentes, mais tolerados e menos suscetíveis de condenação pública. Tomando de empréstimo o título da sua obra, pela acuidade com que capta a essência deste fenómeno, torna-se difícil dissociar as duas dinâmicas: sim, a crescente normalização da direita radical caminha a par do fim da vergonha.

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Nota do Director:

O jornal sinalAberto, embora assuma a responsabilidade de emitir opinião própria, de acordo com o respectivo Estatuto Editorial, ao pretender também assegurar a possibilidade de expressão e o confronto de diversas correntes de opinião, declina qualquer responsabilidade editorial pelo conteúdo dos seus artigos de autor.

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04/06/2026

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Lourenço Ferreira

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Lourenço Ferreira é mestrando em Comunicação Social, investigador na área da Comunicação Política e colaborador em projetos de Educação para a Cidadania. Interessa-se por temas como a opinião pública, o discurso político e o impacto das novas formas de mediação na cultura contemporânea. Escreve com regularidade sobre política, sociedade e “media”, procurando sempre um olhar crítico e fundamentado sobre os fenómenos do seu tempo.

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