Desfetichize-se o tempo de antena
(Créditos fotográficos: Rafa Sants – pexels.com)
Há imagens que comportam expectativas colectivas e cristalizam uma certa ontologia implícita do poder. Uma tabela elucidativa do tempo de antena das dez principais figuras políticas do momento, surgida já com a campanha em andamento, inscreveu-se claramente nesta categoria. O impacto proveio de receio antigo: quem mais aparece, mais pesa; quem mais fala, mais conta; e quem mais conta, mais votos reúne. Num único gesto visual, o pódio parecia já traçado.

Os dados apresentavam-se inequívocos: três candidatos – André Ventura, João Cotrim de Figueiredo e Gouveia e Melo – destacavam-se, separados por duas horas de um segundo bloco de quatro nomes e por muitas mais dos restantes. Três outsiders, investidos de um ímpeto explicitamente reformista, cavalgavam a mesma vaga de visibilidade. Tudo indicava que a decisão eleitoral se jogaria neste primeiro patamar de exposição: tanto pelo tempo de antena como pelo registo estilístico – eleitoralmente apelativo, então se supunha – através do qual cada um se projetava. O retrato sociológico e político do país, manifestamente inclinado à direita, contribuía para o reforço desta ilação.
O escrutínio de domingo viria, contudo, a refazer essa inferência. Apenas dois dos três figuraram no pódio: Cotrim de Figueiredo, segundo em tempo de antena e terceiro em votos, com 16%; e Ventura, líder absoluto da exposição mediática e segundo mais votado, com 23,5%. Gouveia e Melo, apesar de uma visibilidade comparável, quedou-se pelo quarto lugar, com 12,3% – um desfecho tanto menos expressivo quanto mais se atenda à sua trajectória de erosão gradual ao longo do tempo.

Perante este cenário, como surpresa maior e caso de estudo particularmente elucidativo, emerge António José Seguro. Num contexto eleitoral em que o conjunto da esquerda parecia politicamente penalizado, Seguro impôs-se com cerca de 31% dos votos. Sem exuberâncias retóricas nem golpes cénicos e sem ocupação ostensiva do espaço televisivo – não se distinguindo, neste último domínio, de Marques Mendes –, o seu triunfo desafia frontalmente a velha equação entre visibilidade mediática e rendimento eleitoral.
É aqui que a análise ganha verdadeira densidade. A televisão – já o sabíamos, mas importa sublinhá-lo – deixou, há muito, de sustentar teorias de efeitos totais, epidérmicos ou imediatos. Tanto mais se considerarmos as redes sociais como o espaço para onde migrou uma parte significativa do público e da atenção. Assim sendo, desponta destes resultados a necessidade de repensar os efeitos e as valias mediáticas: a presença prolongada diante das câmaras pode expor fragilidades, banalidades ou excessos que, quando frequentes, produzem desgaste. Num ecossistema saturado de estímulos, ter-se-á a visibilidade televisiva transformado num factor de risco comunicacional? Serão hoje mais onerosos, aos olhos do eleitorado, os reels, os TikToks e os vídeos curtos?

O caso de Ventura situa-se à margem dos demais. Dissesse o que dissesse, brandisse o que brandisse, a estratégia de hiperexposição consolidaria sempre uma base fortemente mobilizada. O tecto era, porém, evidente: cartazes de inspiração racial, referências complacentes ao salazarismo e episódios de gritaria, ainda que eficazes junto de um segmento do eleitorado, produzem – ou adensam – resistências noutros públicos. Em alguns aspectos, é possível traçar um paralelo com a campanha de Cotrim de Figueiredo: destreza no uso das redes sociais, contingência própria do outsider e tempo de antena expressivo. Alguns ataques aos media, um par de comentários de índole populista e uma boa dose de messianismo saloio. Terá pecado, junto de eleitores mais exigentes, pela manifesta assimetria de qualidade: momentos de elevação intelectual e clareza alternaram com deslizes tardios e decisivos. Gouveia e Melo, por seu turno, foi vítima do próprio pico: uma popularidade tão intensa quanto efémera dissipou-se, possivelmente por saturação e pela ausência de uma narrativa política duradoura, incapaz de converter notoriedade circunstancial em capital simbólico.
O contraste com António José Seguro, para quem uma longa década de silêncio funcionou como um activo político de primeira ordem, é particularmente elucidativo. A moderação nos debates, a recusa sistemática do soundbite fácil e a construção paciente de uma postura de estadista produziram aquilo que a presença mediática constante parece já não gerar: efeitos cumulativos positivos. Estes são, de resto, excecionais num contexto em que a ocupação prolongada do ecrã impossibilita a pertinência.

Democrata, na cidade de Viseu, em Fevereiro de 2000.
(arquivos.rtp.pt)
É, precisamente, aqui que a noção de efeitos cumulativos exige um afinamento rigoroso, sobretudo em vésperas da saída de cena de uma das últimas grandes construções mediáticas do país. Não basta acumular presença, nem sequer é suficiente uma visibilidade exuberante. O percurso de Marques Mendes é, neste sentido, revelador: uma década de holofote permanente, à la Marcelo Rebelo de Sousa, num espaço confortável, previsível e cuidadosamente controlado, deveria ter produzido um ethos robusto e politicamente mobilizável. Não o fez – e não convence invocar, como explicação suficiente, o peso das suspeitas ou o desgaste da proximidade mediática, menos ainda na ressaca da reeleição reforçada de Luís Montenegro. A diferença decisiva reside na forma como a acumulação é gerida, narrativamente estruturada e convertida – ou não – em autoridade política reconhecida.

Talvez seja esta a principal lição dos resultados de domingo: num ecossistema mediático fragmentado, acelerado e saturado, a visibilidade deixou de constituir um fim em si mesma. O que conta é a sua organização no tempo, a coerência do registo e a credibilidade da figura política que, paulatinamente, se vai sedimentando. Menos de um ano depois de o Partido Socialista ter caído de segunda para terceira força parlamentar, um candidato apoiado pelo partido é capaz de superar a barreira dos 30% em eleições nacionais. Sobra para a esquerda um exemplo a seguir – e uma réstia de esperança – num horizonte que muitos julgavam já condenado ao ruído, à crispação e ao terror.
Nota final:
Por razões de honestidade intelectual, declaro ter votado em António José Seguro – opção que reiterarei na segunda volta. Acrescento ainda que, perante um cenário em que André Ventura disputasse a segunda volta sem a presença de António José Seguro, o meu voto recairia sobre o outro candidato, qualquer que ele fosse.
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Nota do Director:
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22/01/2026