Dia Mundial do Teatro

 Dia Mundial do Teatro

(Créditos fotográficos: Richard Multimedia – Unsplash)

Foram precisos 2500 anos para que se concretizasse uma comemoração ou um dia especial dedicado à arte do teatro. E foi pela mão do Instituto Internacional do Teatro (International Theatre Institute) que, a 27 de Março de 1962, o dramaturgo e poeta francês Jean Cocteau iniciou uma nova tradição ligada a uma das mais nobres e antigas artes da Humanidade com estas palavras: “Acontece, pelo privilégio do teatro, este paradoxo: a História, que se deforma com o tempo, e o mito, que com o tempo se fortifica, encontram a sua verdadeira realidade sobre as tábuas de um palco.”

Teatro Romano, Rua Taha Al-Hashemi, Amã, na Jordânia. (Créditos fotográficos:  Ahmed Alani – Unsplash)

E Jean Cocteau continua a sua Mensagem Internacional (de 1962), seguindo a tradução do actor e encenador Rogério Paulo: “Seria, sem dúvida, vantajoso que um faquir viesse hipnotizar uma sala de teatro para a convencer de ter visto um espectáculo sublime, mas, infelizmente, esse faquir não existe e é ao dramaturgo que compete provocar, pelos seus modestos meios, a hipnose colectiva e compartilhar o seu sonho, pois o sono e o sonho põem ao alcance de todas as bolsas uma espécie de génio. 
O teatro, imitando este fenómeno, exige do público uma credulidade quase infantil – o melhor público é ainda o das ‘marionnettes’, e o nosso seria igual se conseguisse perder a sua resistência orgulhosa e se se encontrasse, por exemplo, em estado de gritar a Édipo: ‘Não cases com Jocasta! É a tua mãe!’

“The Versatile Jean Cocteau” (© Philippe Halsman / Magnum Photos,
1949 – nossaradio.blogspot.com)

[…] Os povos, graças aos Dias Mundiais do Teatro, tomarão, finalmente, consciência das suas respectivas riquezas, e trabalharão juntos num grandioso empreendimento de paz. Nietzsche dizia: ‘As ideias que mudam a face do mundo vêm até nós nas patas das pombas.’

É, talvez, em virtude de um meio que se limitou tantas vezes a ser um simples pretexto de divertimento que a juventude virá a beneficiar de uma Universidade brilhante e viva, de diálogos de carne e osso, substituindo assim as fadigas de um estudo que enfraquecia as obras-primas, fazendo-as perder a sua violência de origem.”     

Há nesta mensagem referências que, tradicionalmente, ainda hoje se mantêm vivas e que nos conectam com o dia-a-dia do teatro e o seu ofício: o tempo, o mito, as tábuas, o palco, o espectáculo, o sentido de uma catarse (hipnose colectiva – como lhe chama o poeta), o teatro para todos e para a infância… É também feita alusão ao teatro de marionetas – hoje, designado por Teatro de Objectos ou Teatro de Formas Animadas – e ainda menção a Édipo, ao mito ou drama fundacional do teatro universal, até à actualidade.

O Dia Mundial do Teatro 2026 será comemorado amanhã (27 de Março). A
mensagem deste ano será proferida pelo actor americano e director
artístico da Bienal de Teatro de Veneza, Willem Dafoe. (cofae.net)

Como poderão imaginar, em cada ano, mais de uma centena de mensagens foram escritas por actores, encenadores, dramaturgos e galardoados com o Nobel da Literatura, os quais foram convidados a partilhar o seu universo e a sua ligação com o teatro.

Na sua mensagem para o Instituto Internacional de Teatro, em 1974 , o actor Richard Burton sugere que o papel principal do teatro é comunicar: “O teatro é criado por aqueles de nós no mundo que não conseguem conter o impulso de dizer ‘Olá’”. 

Richard Burton, no filme “O Mais Longo dos Dias” (de 1962).
(en.wikipedia.org)

Richard Burton faz referência ao título da peça de William Saroyan: “Olá, aí fora” e exalta o aspecto igualitário do teatro ao reunir todos na sociedade: “Reis e trabalhadores, coronéis e lojistas, podem assistir juntos a uma peça porque ela fala com todos eles – por um pequeno momento, acreditamos em dizer: ‘Olá’ através do teatro; e os nossos festivais, encontros e eventos são exa[c]tamente a oportunidade para o fazer”. E acrescenta: “Em todo o mundo, seja um filme para 50 milhões de pessoas, ou uma peça para 50 pessoas, toda a arte e o trabalho do teatro têm um propósito: ‘Olá, aí fora’.”

Encenador inglês Peter Brook. (pt.wikipedia.org)

O grande encenador inglês Peter Brook legou-nos um pensamento que conectou o seu teatro e a sua visão como o momento sagrado da criação:  ‘Posso pegar qualquer espaço vazio e chamá-lo de palco. Alguém atravessa esse espaço vazio enquanto outro assiste, e isso é o suficiente para começar o a[c]to teatral.” 

Durante os mais de 40 anos como docente, leccionei Teatro, preocupei-me sempre de dar a conhecer aos meus alunos, especialmente nesta data, o pensamento dos grandes criadores do teatro, através das suas ideias, pensamentos e obra… 

Hoje, reafirmo o meu compromisso com o teatro, com a sua história, com as suas lutas e reivindicações, com o seu papel formador, criativo e impulsionador para uma sociedade mais justa, igualitária e comprometida com o Mundo, com o seu desenvolvimento e progresso!  

Voltando ao autor inicial, Jean Cocteau, retomo algumas das suas palavras: “O Dia Mundial do Teatro assinala o acontecimento extraordinário dessas núpcias profundas, entre o singular e o plural, o objectivo e o subjectivo, o consciente e o inconsciente, apresentando ao mundo os monstros prestigiosos que daí resultam. […] disseram que a máquina daria o golpe de misericórdia ao teatro. Não acredito e, uma vez que o Instituto Internacional do Teatro me encarrega de falar em seu nome, grito, como antigamente se gritava para os nossos reis (alterando um pouco a fórmula): ‘Se o teatro morreu, viva o teatro!’”

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26/03/2026

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Roberto Merino

Roberto Merino Mercado nasceu no ano de 1952, em Concepción, província do Chile. Estudou Matemática na universidade local, mas tem-se dedicado ao teatro, desde a infância. Depois do Golpe Militar no Chile, exilou-se no estrangeiro. Inicialmente, na então República Federal Alemã (RFA) e, a partir de 1975, na cidade do Porto (Portugal). Dirigiu artisticamente o Teatro Experimental do Porto (TEP) até 1978, voltando em mais duas ocasiões a essa companhia profissional. Posteriormente, trabalhou nos Serviços Culturais da Câmara Municipal do Funchal e com o Grupo de Teatro Experimental do Funchal. Desde 1982, dirige o Curso Superior de Teatro da Escola Superior Artística do Porto. Colabora também como docente na Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, desde 1991. E foi professor da Balleteatro Escola Profissional durante três décadas. Como dramaturgo e encenador profissional, trabalhou no TEP, no Seiva Trupe, no Teatro Art´Imagem, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (UP) e na Faculdade de Direito da UP, entre outros palcos.

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