Escritores estrangeiros abandonam a Grasset, devido à inflexão à direita
Sede da Editora Grasset em Paris. (Créditos fotográficos: LPLT – Obra própria, CC BY-SA 4.0 – eldiario.es)
A 15 de maio, no jornal Público, Isabel Coutinho, dá nota de que escritores estrangeiros desertam da Grasset, em rutura com a sua inflexão à direita.

Com efeito, a editora detida por Vincent Bolloré galgou fronteiras e agrega nomes, como Ali Smith ou Han Kang. E, no cinema, 600 profissionais temem a expansão deste império conotado com a extrema-direita.
Trata-se de inédito movimento, no campo da edição francesa, a alargar-se a autores estrangeiros, que eclodiu, depois do despedimento, a 14 de abril, do editor Olivier Nora, à frente da editora, há décadas, e depois da sua substituição por Jean-Christophe Thiery, homem de confiança do milionário Vincent Bolloré, patrão do poderoso grupo de media Vivendi e principal acionista do grupo Hachette Livre que a prestigiada chancela Grasset integra. Bolloré tem empenhado, nos últimos dez anos, o seu império, que inclui jornais, revistas, canais de rádio e de televisão, numa batalha cultural para impor um projeto ideológico de extrema-direita.
Porém, já a 17 de abril, a Euronews, publicava um artigo intitulado “170 autores deixam editora francesa Grasset após destituição do seu diretor-geral”, em que Nina Borowski relatava que “mais de uma centena de escritores anunciaram a sua saída da editora Grasset, na sequência do anúncio da demissão do seu presidente, Olivier Nora”, e que, “em carta conjunta, denunciam a influência de Vincent Bolloré, acusando-o de “impor o autoritarismo por todo o lado na cultura e nos media”.

de tela de um vídeo do YouTube – elespanol.com)
Trata-se, como diz o jornalista, de cisão sem precedentes, que abala o setor editorial francês. Efetivamente, a 15 de abril, 115 escritores cujas obras eram publicados pela Grasset anunciaram a sua saída, depois de Vincent Bolloré, proprietário do grupo Hachette Livre que detém a editora, desde 2023, ter destituído Olivier Nora. E, em carta conjunta, denunciaram a “guerra ideológica” liderada pelo bilionário ultraconservador, para “impor o autoritarismo na cultura e nos media” e avisaram: “Não assinaremos o nosso próximo livro com a Grasset.”
170 autores deixam editora francesa Grasset após destituição do seu diretor-geral.

Emmanuel Macron, aludiu ao caso, após um discurso no Festival do Livro de Paris, apelando à “liberdade dos autores, à sua qualidade e ao papel da editora”, como noticiou o jornal Le Monde, invocando a necessidade de defender o “pluralismo editorial”. “A editora não é simplesmente aquela que imprime livros, é um espírito, é uma editora, é também parte do património literário, uma corrente humana”, frisou o presidente francês.

Esta mobilização, rara na sua dimensão, foi lançada, rapidamente, após o anúncio da saída, de surpresa, de Olivier Nora, com 66 anos, que dirigiu a editora, durante 26 anos, e que é um nome de respeito no meio. Embora as razões oficiais do despedimento não tenham sido comunicadas, os autores acusam, diretamente, o empresário de impor a sua linha: “Mais uma vez, Vincent Bolloré diz: ‘Estou em casa e posso fazer o que quiser.’ […] Não queremos que as nossas ideias, o nosso trabalho, sejam propriedade dele”, clamam os escritores.
A saída de Olivier Nora pode estar ligada a tensões sobre a publicação do próximo livro de Boualem Sansal, que entrou, recentemente, para a Grasset. Parece ter havido desacordo entre a equipa de direção quanto ao calendário de publicação do livro sobre a sua prisão na Argélia. Porém, o escritor contestou esta versão, revelando que Olivier Nora lhe tinha escrito para lhe dizer: “Não tens nada a ver com isto.”

Os signatários incluem autores bestseller, como Virginie Despentes, Vanessa Springora e Sorj Chalandon. Todos prestam homenagem ao homem que descrevem como “o baluarte e o cimento” de uma editora conhecida pela diversidade dos seus escritores. Contudo, num post, no Facebook, Chalandon apela a que a reação contra a Grasset não se traduza num boicote aos livros que a editora irá lançar, na próxima rentrée, fruto do trabalho de Nora.
Entretanto, segundo o jornalista, o episódio insere-se num contexto mais vasto de transformação do grupo Hachette Livre, controlado por Vincent Bolloré, detentor de vários meios de comunicação social e tido como querendo espalhar a sua doutrina ultraconservadora através deles, desde 2023. Bolloré detém, nomeadamente, o canal televisivo CNews, tido como próximo da extrema-direita.
Por divergências estratégicas, já abandonaram os seus cargos vários quadros superiores, como Arnaud Nourry e Sophie de Closets. Em contraponto, algumas editoras do grupo, como a Fayard, viram a sua linha editorial evoluir, com a publicação de autores de direita ou de extrema-direita, como Nicolas Sarkozy, Jordan Bardella e Philippe de Villiers.
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Como refere a Wikipédia, a Éditions Grasset, editora fundada, em 1907, por Bernard Grasset, por fusão, em 1967, com a Éditions Fasquelle, tornou-se Éditions Grasset & Fasquelle. Publica literatura francesa e estrangeira, como ensaios, romances e obras na área das humanidades, entre outras coisas. Foi, sucessivamente, presidida pelo fundador, pelo seu sobrinho Bernard Privat e por Jean-Claude Fasquelle. Jean Vigneau esteve entre os primeiros diretores. Porém, Bernard Grasset vendeu o seu capital à Hachette, em 1954.
Com a fusão da Grasset com a Éditions Fasquelle, que era dirigida, desde 1954 por Jean-Claude Fasquelle, este tornou-se diretor-gerente da Éditions Grasset & Fasquelle, em 1969, depois, em 1981, seu presidente e CEO. Em 2000, tornou-se presidente do conselho de supervisão e Olivier Nora sucedeu-lhe como presidente do conselho de administração. A editora gerou 17,5 milhões de euros de receitas, em 2007.
Grasset, subsidiária da Hachette Livre, integra o grupo Lagardère, desde 1981, pelo que faz parte do grupo de Vincent Bolloré, a partir da sua aquisição da Lagardère, em 2023.

A 14 de abril de 2026, a revista L’Express relata que o acionista Vincent Bolloré decidiu substituir Olivier Nora por Jean-Christophe Thiery de Bercegol du Moulin. Ex-aluno da École Nationale d’Administration (ENA), CEO do Grupo Louis Hachette e diretor-geral adjunto da Hachette Livre, Thiery é considerado “muito próximo” do bilionário, que apoiou na sua expansão nos setores de media e de cultura. Segundo o jornal Libération, Vincent Bolloré teria dito aos seus funcionários, referindo-se ao CEO Olivier Nora: “Não aguento mais esse idiota, demitam-no.”
Em artigo publicado no Le Journal du Dimanche, de que é proprietário, Vincent Bolloré afirma que a editora Grasset “continuará” e que aqueles que estão a sair “permitirão que novos autores sejam publicados”. Refere-se, no caso, a “uma pequena camarilha que se considera superior a todos e que se coopta e se sustenta”. Por outro lado, menciona “os dececionantes resultados financeiros da Grasset”, citando uma faturação que, segundo ele, caiu de 16,5 milhões de euros, em 2024, para 12 milhões de euros, em 2025, bem como queda no lucro operacional. Não obstante, segundo afirma, a remuneração anual de Olivier Nora aumentou de 830 mil euros para 1,017 milhão de euros, uma remuneração paga pela Hachette que foi faturada à Grasset pela metade, melhorando as despesas aparentes da Grasset e o seu resultado.

Segundo informação do Le Canard Enchaîné, confirmada pelo Mediaport, a demissão de Olivier Nora resultou de desentendimento com Boualem Sansal sobre a data de publicação do seu próximo livro. Enquanto Sansal considerava o seu manuscrito pronto para publicação, o ex-CEO da Grasset preferia esperar até outubro, “após a temporada dos principais prémios literários, para não atrapalhar os lançamentos de outono dos autores”, de acordo com a análise do Le Figaro. Porém, o escritor franco-argelino desmente, citando, em entrevista, a mensagem que Nora lhe enviou, dizendo tratar-se de conflito antigo entre a editora e Bolloré. E Le Nouvel Obs sugere que foi a sua recusa em publicar os próximos livros do ensaísta “muito católico” Nicolas Diat, também editor de Philippe de Villiers e de Jordan Bardella, que levou à sua demissão, por decisão do chefe da Hachette Livre, Arnaud Lagardére, que lhe ordenou saída imediata.

No dia seguinte, mais de cem escritores reuniram-se para anunciarem a sua saída da editora, criticando a falta de garantia de independência e afirmando que não queriam que as suas ideias e trabalhos se tornassem propriedade de Vincent Bolloré e que se recusavam a ser “reféns de uma guerra ideológica destinada a impor o autoritarismo em toda a cultura e nos media”. A socióloga Gisèle Sapiro analisou a situação em artigo publicado no Le Monde, a 30 de abril, e concluiu que “a estratégia de Vincent Bolloré consiste em conquistar os meios de comunicação e a publicação, para os tornar instrumentos de propaganda”.

A maioria dos autores estrangeiros publicados pela Grasset declarou: “Recusamos que o nosso trabalho seja usado para fins políticos que não compartilhamos. A extrema-direita opera além das fronteiras; deve ser combatida além das fronteiras. Nessas condições, não submeteremos os nossos trabalhos futuros à Éditions Grasset.”
Após artigo no L’Express, de 26 de agosto de 2019, Le Monde revelou ao público, com documentos comprovativos, que Yann Moix participou, em 1989 e em 1990 (aos 21 anos), quando era estudante, em três edições da Ushoahia, revista “caseira” que negava o Holocausto e promovia o antissemitismo e o racismo virulento contra os negros. E referia que, na Grasset, editora de Yann Moix, três pessoas tinham conhecimento das publicações em questão: Bernard-Henri Lévy, Jean-Paul Enthoven e o CEO Olivier Nora. Yann Moix perguntou a este, em 2007, se continuaria a confiar nele. Para Joseph Confavreux, o caso Moix mancha a editora Grasset, com a questão de se saber se a gestão da Grasset pode ocultar dos leitores o passado negacionista de um dos seus autores favoritos.

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Ganharam nomeada algumas coleções da Grasset. Entre elas, figuram os “Cadernos Verdes”, coleção de literatura geral lançada, em 1921, sob a direção de Daniel Halévy. O primeiro volume foi “Maria Chapdeleine”, de Louis Hénon, que obteve sucesso, seguido por “Les Cœurs des autres”, de Gabriel Marcel. Porém, a publicação cessou no início da década de 1960.

E, em 1983, Jean-Claude Fasquelle, presidente da Grasset, criou os “Cadernos Vermelhos”, coleção reconhecível pelas capas vermelhas dos seus mais de 370 títulos, a qual, pelo preço e pelo formato, se posicionava num nível intermédio entre as edições de bolso e as edições padrão e incluía cerca de uma dúzia de títulos, por ano. A publicação revitaliza o acervo de autores da editora, recorrendo, em particular, aos “clássicos modernos” (expressão americana): Jean de la Ville de Mirmont, Paul Morand, Jean Cocteau, Irène Némirosvky, Thomas e Klaus Mann, Jean Giono. E o seu catálogo apresenta clássicos, como Sainte-Beuve ou Giorgio Vasari, e autores estrangeiros, como F. (Francis) Scott Fitzgerald, Truman Capote, Gabriel García Márquez, Paul Theroux. Arte e poesia têm ali o seu espaço, com Cézanne, Degas, Vincent van Gogh, Paul Klee e Salvador Dalí. Figuram os poemas de Paul Verlaine e os de Walt Whitman.

A série “Cahiers Rouges” traz de volta, ao centro das atenções, obras literárias esquecidas, como as de Irène Némirosvky, que permaneceram na obscuridade por muito tempo, antes de se tornarem bestsellers, ao lado de Stefan Zweig e dos “Diários” de Kafka. E textos considerados clássicos cult, como “L’Horizon chimérique”, de Jean de la Ville de Mirmont, e “J’adore”, de Jean Desborde, também integram a coleção.
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O acontecimento mereceu um artigo de opinião intitulado “De Grasset a Bolloré” de Pedro Mexia, publicado, no Expresso online, a 29 de abril, sustentando que, de início, tudo “parecia uma quezília editorial” sobrevalorizada pela imprensa parisiense. Boualem Sansal, romancista franco-argelino muito premiado e muito censurado, foi eleito para a Academia Francesa, após ter sido libertado em resultado de perdão presidencial que o salvou de uma condenação por “atentar contra a unidade nacional”.

(© Gallimard/C. Hélie – rfi.fr)
Refugiado em França, o autor, de longa data, da editora Gallimard trocou-a por uma concorrente, do grupo Hachette. A decisão, como lembra o colunista, “tinha a ver com o conteúdo do novo livro, que evocava os tempos em que esteve preso, e com a atitude da Gallimard, que o autor considerou demasiado tímida e complacente”. Sansal manteve “a intransigência e a coragem de que deu provas”, face ao “regime iníquo do seu país”, enquanto Gallimard preferia outra abordagem. E o autor mudou-se para a Grasset, do universo empresarial de Bolloré, da direita musculada.
O articulista sublinha que “o grupo Bolloré detém, entre muitos outros, o Canal+ e a militante CNews, as rádios Europe 1 e Europe 2, o Journal du Dimanche e a revista Paris Match, e editoras, como a Fayard, a Plon, a Stock, a Larousse, a Calmann-Lévy, além de posições importantes na distribuição ou no digital”. A par da preocupação com o poderio dos media, emergia o receio de que Bolloré não quisesse este conglomerado só por motivos comerciais, mas que o projetasse como plataforma política. Por exemplo, a Fayard, segundo Pedro Mexia, tornou-se, nos últimos anos, “verdadeira coligação das direitas”, de Sarkozy a bardellistas, ciottistas, zemmouristas, maréchalistas.

Bolloré, como recorda o articulista, fora contrariado, uma vez, por Olivier Nora e estava ansioso pela publicação do livro de Sansal, em cujo manuscrito Nora ainda trabalhava. Assim, despediu o CEO, dirigindo-lhe palavras duras, e desprezando a vantagem de contar com o editor atento, amável e incansável, que os autores estimavam.
Dezenas desses autores anunciaram que iam procurar outra chancela. E, a 29 de abril, segundo Pedro Mexia, já eram 250, dos quais se destacam, a nível mediático, Bernard-Henri Lévy, Laure Adler, Virginie Despentes ou Vanessa Springora, apoiados por autores, como Carrère, Slimani ou Le Clézio. Todos entendem que uma grande editora não deve estar enfeudada às estritas convicções do proprietário e que despedir um editor culto e cuidadoso, para editar livros marcadamente ideológicos, alguns dos quais sem grande retorno, é “destruir a autonomia editorial e desbaratar o prestígio da Grasset”. Num dos seus jornais, Bolloré respondeu aos descontentes com deslavada brutalidade, dizendo que eram “uma casta que se acha acima de tudo e todos” e que, com a sua saída, ficavam abertas as portas para outros, quiçá melhores.

Considera Pedro Mexia que “o delíquio francês” se mostrou mais significativo do que se julgava, pela concentração, pela diversidade, pela autonomia e pela questão jurídica de saber a quem pertencem os direitos dos livros anteriores dos ex-Grasset, além da provável ideia de Bolloré engendrar, pelos seus meios, uma “direita unida” para as presidenciais de 2027, o que significa, segundo o articulista, um regresso ao passado e ao fundador (em 1907), Grasset, que gozava de grande consideração, até aderir, em 1940, ao colaboracionismo com o ocupante alemão, deixando de editar os judeus e contribuindo para a lista de autores a afastar (a “lista Otto”), enquanto, na Gallimard, o prestigiado escritor Pierre Drieu La Rochelle dirigia a Nouvelle Revue Française, sem judeus nem resistentes. Na Libertação, Grasset foi castigado com pena insignificante, mas, como releva o colunista do Expresso, “o estatuto da editora nunca voltou à altura de entre as guerras, ou apenas mais tarde, no ensaio, nomeadamente, na coleção amarela canelada”, que veremos se editará escritores ou propagandistas.
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É triste, para as democracias, que o dinheiro, o poder e ambição autárcica condicionem a produção cultural, literária e artística e a liberdade de opinião e de expressão.
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18/05/2026