E se Adorno estivesse na oposição?
(Créditos fotográficos: Chintya Akemi Keirayuki – Unsplash)
Theodor Ludwig Wiesengrund-Adorno, filósofo da Escola de Frankfurt, analisou com lucidez como a modernidade ocidental se distancia da promessa da emancipação. Na “Dialética do Esclarecimento” (de 1947), obra escrita com Max Horkheimer, Theodor W. Adorno identificou aquilo a que chamou “razão instrumental” – uma racionalidade orientada exclusivamente por utilidade, eficácia e produtividade, que sacrifica qualquer consideração ética ou humana em nome da funcionalidade. Quando a técnica se emancipa dos valores, advertia Adorno, a sociedade pode tornar-se mais eficiente, mas também mais brutal.

É, precisamente, essa lógica que atravessa a proposta do Governo para rever o Código do Trabalho. O que se apresenta como uma modernização legislativa configura, na realidade, uma ofensiva ideológica mascarada de neutralidade técnica. Entre as mais de cem alterações propostas, destacam-se medidas como o regresso ao banco de horas individual, o alargamento dos contratos a termo, a fragilização da contratação coletiva e alterações à licença de amamentação – todas promovidas sob a bandeira da “flexibilidade”, mas cujos efeitos concretos são a precarização e o enfraquecimento da proteção laboral.

Adorno reconheceria aqui um padrão: o trabalho deixa de ser entendido como expressão de uma vida digna e passa a ser tratado como uma simples variável num cálculo de rendibilidade. Quando se propõe que faltas justificadas deixem de ser remuneradas ou que a “necessidade de renovação” da empresa seja suficiente para justificar despedimentos, a mensagem é clara: o trabalhador é reduzido à condição de recurso descartável, subordinado a uma lógica funcionalista e desumanizante.
A crítica adorniana alerta, exatamente, para esta transformação: o sujeito, outrora fim em si mesmo, é convertido em meio para atingir fins – como a competitividade e a eficiência. Esta mutação, de forma subtil e mascarada, infiltra-se nos discursos públicos. “Inovação”, “modernização” e “progresso”, ouvimos uma e outra vez. É, justamente, quando o vocabulário pomposo e enganador substitui o da justiça que o perigo se torna mais insidioso: o debate sobre o que constitui um trabalho justo desaparece, para logo surgirem métricas abstratas de “adaptabilidade” e de “eficiência”.
Erguem-se algumas questões: para quê? Para que serve uma reforma que desvaloriza a segurança, o cuidado, a estabilidade? Que tipo de sociedade se está a construir quando o trabalho – que deveria ser também espaço de autonomia, de reconhecimento e de bem-estar – se transforma num território de submissão e de incerteza?
Se Adorno estivesse, hoje, na oposição ao Governo, não seria brando nem apontaria simples correções de detalhe. Como escreveu, “num mundo falsamente racionalizado, o irracional apresenta-se como razoável”. Recusar esta reforma não é apenas uma posição política: é uma exigência ética. Onde os direitos são esvaziados em nome da flexibilidade, instala-se a barbárie sob o disfarce da ordem.
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07/08/2025