Edgar Morin: pensador e cidadão planetário (2)

 Edgar Morin: pensador e cidadão planetário (2)

Edgar Morin ministrando uma “masterclass” no Théâtre des Célestins, em Lyon (França), em 2018. (news.cnrs.fr)

No artigo anterior sobre Edgar Morin, na edição de 4 de Junho, referi as estreitas relações deste filósofo humanista francês com Portugal. Na origem dessas relações teve um papel preponderante António Alçada Baptista e a sua ligação com Jean-Marie Domenach, então diretor da revista Esprit. Foi nessa altura que Alçada conheceu Morin, em Paris. Recordemos ainda que foi Alçada Baptista quem apresentou Edgar Morin ao político Mário Soares, nascendo uma amizade que ficou para sempre.

Edgar Morin (pt.wikipedia.org)

Não podemos ter dúvidas de que o pensamento de Edgar Morin chegou cedo ao mundo pedagógico português, nomeadamente através do papel de António Oliveira Cruz, do  Instituto Piaget, e  de Teresa Ambrósio, quando foi presidente do Conselho Nacional de Educação. E não será, por isso, estranho que, em Portugal, o atual “Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória” tenha bases no pensamento de Edgar Morin. Recordemos as palavras do prefácio1 desse documento: “Devemos, assim, compreender os sete pilares que Edgar Morin considera numa cultura de autonomia e responsabilidade: prevenção do conhecimento contra o erro e a ilusão; ensino de métodos que permitam ver o contexto e o conjunto, em lugar do conhecimento fragmentado; o reconhecimento do elo indissolúvel entre unidade e diversidade da condição humana; aprendizagem duma identidade planetária considerando a humanidade como comunidade de destino; exigência de apontar o inesperado e o incerto como marcas do nosso tempo; educação para a compreensão mútua entre as pessoas, de pertenças e culturas diferentes; e desenvolvimento de uma ética do género humano, de acordo com uma cidadania inclusiva.”2

(edgarmorinmultiversidad.org)

Também nunca é demais realçar o papel de António Oliveira Cruz, que foi fundador do Instituto Piaget. Esta instituição foi responsável, em 1988,  pela criação das Edições Piaget. E  grande quantidade das obras  de Edgar Morin publicadas entre nós foram da responsabilidade desta estrutura editorial. Foi, de facto, António de Oliveira e Cruz o grande responsável pela divulgação, em Portugal, da chamada Epistemologia da Complexidade, uma das ideias mais importantes de Morin, que influenciou toda a Pedagogia em Portugal, assim como a Sociologia e a Filosofia, num contexto mais académico.

Há outras editoras, nomeadamente as Publicações Europa-América, que também publicaram obras de Edgar Morin. Contudo, merecem maior destaque as Edições Piaget, responsáveis  pelas  seguintes  obras:  “O Método” (seis volumes)  onde encontramos os pilares principais da Filosofia e da Sociologia de Morin; “Manifesto de Introdução ao Pensamento Complexo”; “Os Sete Saberes para a Educação do Futuro”; “A Cabeça Bem-Feita: Repensar a Reforma, Reformar o Pensamento”; “A Via Para o Futuro da Humanidade”; “De Guerra em Guerra: De 1940 à Ucrânia”; “Ciência com Consciência”; “Cultura e Barbárie Europeia” e “O Esplendor da Amizade – A Experiência Portuguesa de Edgar Morin”.

(edgarmorinmultiversidad.org)

Um dia, numa entrevista (no âmbito do programa “Milénio” (GloboNews); reproduzida no projeto “Fronteiras do Pensamento”) perguntaram a Edgar Morin3 qual seria a melhor classificação para o seu trabalho3. E Morin confessou: “A melhor definição seria não ter definição […] A palavra ‘filósofo’ talvez me conviesse bem, mas hoje a filosofia, no geral, fechou-se em si mesma e a minha é uma filosofia que observa o mundo, os acontecimentos, etc. Sou muito marginal, quer dizer, sou marginal em todas essas áreas. Então, sou aquele que querem que eu seja.”

Confrontado, nessa mesma entrevista, se o poderíamos comparar aos pensadores renascentistas, Edgar Morin não teve dúvidas em declarar que  o Renascentismo foi admirável pelos homens que tinham um conhecimento  aberto a várias áreas. A este respeito, o pensador francês observa: “Se quiserem, acho que as perguntas fundamentais de cada um a si mesmo, ‘Quem somos nós, para onde vamos e de onde viemos?’, são questões fundamentais, precisamos [de] respondê-las e não [as afastar]. A tragédia do nosso sistema de conhecimento atual é que ele compartimenta tanto os conhecimentos que a gente não consegue se fizer essas perguntas. Se perguntarmos ‘O que é o ser humano?’, não teremos respostas, porque as diferentes respostas estão dispersas. E, no fundo, é isso que chamo de pensamento complexo, um pensamento que reúne conhecimentos separados. […] Acredito que, para uma melhor compreensão da realidade, para entender quem somos, que você é um ser complexo, que eu sou um ser complexo, não podemos estar reduzidos a um único aspecto da personalidade, para saber que a sociedade é complexa, para entender a globalização. Acredito que é sim necessário um pensamento assim, senão temos um pensamento mutilado, o que é muito grave, porque um pensamento mutilado leva a decisões erradas ou ilusórias.”

Edgar Nahoum, conhecido como Edgar Morin, é um dos mais famosos sociólogos e filósofos franceses da nossa contemporaneidade. (courier.unesco.org)
Edgar Morin: “[…] a única resposta aos que têm a angústia de
morrer é o amor e a vida em comum.” (edgarmorinmultiversidad.org)

Edgar Morin tem razão quando, nessa mesma entrevista, diz que o mais importante é incluir, em todo o ensino, o tema da compreensão humana, referindo  que isso deve começar na família, onde filhos não são compreendidos pelos pais e os pais não entendem os seus filhos. Mas que pode continuar na escola, com os professores e os colegas, e deve igualmente continuar na vida do trabalho e  no amor. E acrescentou: “Temos [de] ensinar também a enfrentar as incertezas. Porque em todo destino humano[,] há uma incerteza desde o nascimento. Antes, a gente achava que existia um progresso certo e agora o futuro é uma angústia. Por isso, suportar, enfrentar a incerteza é não naufragar na angústia, saber que é preciso, de certa forma, participar com o outro, de algo em comum, porque a única resposta aos que têm a angústia de morrer é o amor e a vida em comum.”

(edgarmorinmultiversidad.org)

Quando confrontado sobre as ameaças do presente, o filósofo não teve dúvidas  de que, hoje, duas barbáries nos ameaçam: a da crueldade, que vem dos primórdios da História; e a fria barbárie do cálculo económico. Segundo ele, “quando existe um pensamento fundado exclusivamente em contas, não se vêem mais os seres humanos”. Por conseguinte, o “que se vê são estatísticas, produtos brutos”. No fundo, como se apercebe Edgar Morin, “o cálculo, que é útil, mas como instrumento, torna-se um meio de conhecimento, mas de falso conhecimento, que mascara a realidade humana”. Ou seja, quando entra o cálculo, os humanos são tratados como objectos.

Creio, pois, que temos boas razões para lermos cada vez mais este pensador que nos pode obrigar a sair do conforto das nossas certezas. E ler Edgar Morin, revisitar ou iniciar a  sua leitura, é a melhor homenagem que lhe podemos fazer. 

.

………………………….

.

Notas da Redacção:

Edgar Morin com Guilherme d’Oliveira Martins.
(edgarmorinmultiversidad.org)

1 – Na sua obra Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro”, o filósofo e sociólogo Edgar Morin propõe que a educação deve promover uma cultura de autonomia e de responsabilidade por meio de princípios estruturais que combatam a fragmentação do saber. Esta obra foi elaborada a pedido da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), na qual os sete saberes são apresentados como princípios para a educação do século XXI.

2 – Esta passagem remete-nos para textos de Guilherme d’Oliveira Martins sobre os “sete pilares” ou “sete saberes” de Edgar Morin.

3 – A formulação da pergunta foi a seguinte: “Sociólogo, antropólogo, filósofo, professor, escritor, e até, às vezes, jornalista. Qual a melhor definição de Edgar Morin e por quê?”

.

18/06/2026

Siga-nos:
fb-share-icon

José Vieira Lourenço

José Vieira Lourenço é da colheita de Agosto de 1952. Estudou Teologia e fez a licenciatura e o mestrado em Filosofia Contemporânea, na Universidade de Coimbra. Professor aposentado do Ensino Secundário, ensinou Português, Filosofia, Psicologia, Sociologia, Teatro e Oficina de Expressão Dramática. Foi, igualmente, professor do Ensino Superior, na Universidade Católica de Leiria e no Instituto Superior Miguel Torga, em Coimbra. Foi ainda coordenador do Centro da Área Educativa de Coimbra (1998-2002) e só então conheceu verdadeiramente a classe docente. Descobriu bem cedo a sua paixão pela poesia, pela literatura, pela música e pelo Teatro. Foi Menino Jesus aos quatro meses no presépio vivo da sua freguesia. Hoje, como voluntário, dirige o Grupo de Teatro O Rebuliço da Associação Cavalo Azul e também o Grupo de Teatro de Assafarge. Canta no Coro D. Pedro de Cristo, em Coimbra. Apaixonado pela Natureza, gosta de passear a pé pelos trilhos da Abrunheira, na companhia do seu cão. Dedicado às causas da cidadania, é dirigente do Movimento Cidadãos por Coimbra, que insiste em fazer propostas para criar uma cidade diferente. Casado, tem duas filhas e uma neta, a quem gosta de contar histórias.

Outros artigos

Share
Instagram