Em busca do sobressalto cívico que nos traga felicidade
(Créditos fotográficos: Max – Unsplash)
Que liberdade é a nossa num território minado pela desinformação? Imaginemos um laranjal que o olhar um pouco distante faz apetecível, mas que a proximidade das laranjeiras nos desengana pelo amargo dos frutos. Isto sucede em muitas das nossas vivências quotidianas sujeitas a um mercado de equívocos em que, frequentemente, as ideias pouco valem, pelo compromisso que não carregam. O que é preciso para fazer vingar a certeza e a confiança entre as pessoas?
Há um autêntico desassossego na geografia dos sentimentos e dos significados. Não necessitamos de subir uma qualquer colina para nos apercebermos de que, cada vez mais, se disseminam mentiras embrulhadas em sorrisos e em promessas enganadoras, geralmente com palavras bonitas, embora hostis para quem está fora da bolha social.

Além dos segredos dos algoritmos, dos textos e das imagens sensacionalistas no espaço público e nas redes sociais, reproduzem-se as intenções estratégicas – sejam elas políticas (influenciando resultados eleitorais), económicas (gerando enviesadas conjunções de negócio) ou ideológicas – que fomentam a distopia e a intranquilidade.
Em busca da verdade que nos humaniza e dignifica, importa sabermos fazer escolhas, reforçando as fronteiras da ponderação. Temos de atender ao contexto do que nos contam e de questionar as narrativas excessivamente apelativas ou chocantes que distorcem a realidade, que embriagam o entendimento e o debate público. Haja, sim, tempo para isso, neste mundo apressado e quase sem graça, em que tanta gente chafurda no ódio e galvaniza o conflito nas comunidades.

Estamos a precisar de um sobressalto cívico que nos torne mais alegres, menos ressentidos e mais solidários. O futuro depende também das nossas expectativas e da vontade de plantarmos árvores para os netos, admitindo que os tijolos de agora constroem o destino, mesmo que esse seja a metáfora de um universo cheio de hesitações e de enigmas. Um provérbio popular diz que a mentira tem perna curta, mas, com os meios de divulgação actuais e não escrutinados, a embustice e a falsidade conseguem ir muito longe e espalham-se rapidamente, embora lhes sondemos as inconsistências e o lado grotesco, sem ética nem elevação. Cabe-nos, pois, denunciar e impedir as trafulhices e os boatos a que chamamos “fake news”, na convicção de que a verdade vem com o pé na porta.
Na sua obra “A Condição Humana” – romance histórico, político e existencialista, focado na Revolução Chinesa de 1927 –, André Malraux conduz-nos a um ambiente e a uma época em que os homens e as mulheres são confrontados com a morte, com o absurdo e com a necessidade de agir; sobretudo, de escapar ao totalitarismo.

Praticamente no final do livro, o desencantado Gisors, desconfiando dos dogmatismos ideológicos, dialoga com a companheira do seu filho (Kyo, um revolucionário comunista em Xangai, que acredita na revolução como um dever moral colectivo): “Pode enganar-se a vida muito tempo, mas ela acaba sempre por fazer de nós aquilo para que somos feitos. Todos os velhos são um testemunho, vá, e se tantas velhices são vazias, é porque outros tantos homens o eram e o escondiam. Mas mesmo isto não tem importância.”
Porque recusamos aprender com o passado, a História repete-se e reescreve-se noutros locais e com as novas tonalidades do terror que enraíza na crueldade dos sôfregos de poder. A mais recente publicação da rubrica “Bartoon”, do cartunista Luís Afonso, é certeira: “Trump diz que não precisa de Direito Internacional… e que o único limite para o seu poder é a sua própria moralidade. Caso a tivesse, obviamente.”
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Nota:
O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 11 de Janeiro) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.
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12/01/2026