Entre o palco e a praça pública
(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)
Uma leitura deliberadamente simples, sumária e até radical, mas conveniente aos propósitos do argumento que aqui se procura delinear, permite dividir o mundo em dois campos distintos: de um lado, os que atribuem aos protagonistas da vida cultural responsabilidades que excedem os limites da sua atividade, reconhecendo-lhes deveres de natureza social e política; do outro, os que entendem que deles apenas deve ser exigida a arte que produzem, deixando-os inteiramente livres de qualquer obrigação de intervenção pública para além dela.

O universo cultural oferece exemplos em abundância para os dois casos, desde cantores que se recusam sistematicamente a pronunciar-se sobre matérias alheias à música, a futebolistas que assumem veementes posições sobre questões políticas e sociais. Não é a existência de uma ou outra espécie de ator cultural que merece aqui especial atenção – ambas se encontram sobejamente representadas. Mais interessante, e decisiva para o argumento que se seguirá, é a forma como o público se posiciona perante cada uma delas.
Duas questões orientarão a reflexão que se segue. Devemos ver com bons olhos que os agentes culturais se pronunciem sobre matérias de relevância social e política, ainda que inteiramente alheias ao domínio em que exercem o seu ofício? E, logo que escolhemos fazê-lo, que atitude devemos nós, enquanto público, adotar? A ambas procuraremos dar respostas claras e devidamente fundamentadas, sem pretensão de lhes atribuir alcance que exceda os planos expositivo – e, quando muito, normativo.

Aos atores culturais deve reconhecer-se, antes de mais, uma condição inseparável da própria natureza humana: são animais políticos. O ser humano possui uma inclinação natural para a vida em comunidade; apenas no seu interior encontra as condições para desenvolver plenamente a razão e perseguir uma existência realizada. A esta condição acrescenta-se outra, que dela não pode ser dissociada: ao contrário dos restantes animais, mesmo daqueles que também se organizam coletivamente, os seres humanos dispõem da linguagem racional – uma faculdade que lhes permite discutir o Bem e o Mal, distinguir o justo do injusto e, por esta via, participar na construção da vida comum. Talvez não fosse necessário convocar uma autoridade tão venerável como a de Aristóteles, mas é justamente a este génio grego que devemos a ideia de “animal político”, mais ou menos nos termos em que a definimos acima.

considera Aristóteles. (linkedin.com/in/clovis-
la-pastina-cloveta)
Nada há na condição de ator cultural que suspenda esta pertença política fundamental. Pelo contrário: quando a comunidade concede a alguém um espaço particularmente amplo de expressão e visibilidade – ainda que conquistado por mérito num domínio inteiramente distinto –, estranho seria exigir-lhe que deixasse à porta a condição de cidadão. A notoriedade artística não impõe o dever de intervenção, mas tão-pouco pode constituir fundamento para a interditar. Se entenderem que determinada questão merece a sua palavra, os atores culturais são inteiramente legítimos em fazê-la ouvir e em servir-se, para este efeito, dos palcos de que dispõem.

(en.wikipedia.org)
Naturalmente, esta defesa não equivale a legitimar o abuso da posição ou a colonização sistemática de espaços cuja finalidade primeira é outra; significa apenas reconhecer que a projeção pública adquirida pela arte não lhes retira a liberdade política que lhes pertence enquanto membros da comunidade.
Aqui chegados, dir-me-ão que não dispenso o mesmo tratamento a Kylian Mbappé, estrela maior do futebol contemporâneo que tem manifestado publicamente a sua oposição a Marine Le Pen e à extrema-direita francesa, e a Kanye West, cuja deriva pública incluiu declarações de admiração por Adolf Hitler, sucessivas manifestações de antissemitismo e até a comercialização de vestuário pautado por referências ao imaginário nacional-socialista. Acrescentarão, talvez, que semelhante diferença de tratamento compromete a imparcialidade do princípio que, alguns parágrafos atrás, procurei sustentar com o auxílio de Aristóteles.

em North Charleston, Carolina do Sul, em 19 de
julho de 2020. (en.wikipedia.org)
A objeção seria pertinente, não fosse partir de uma premissa que nunca subscrevi: a de que reconhecer a todos igual legitimidade para participar no espaço público nos obriga a receber com igual benevolência tudo aquilo que nele escolhem dizer – não, não obriga. E sim, é justamente de parcialidade que aqui se trata, na medida em que ter uma opinião significa discriminar entre argumentos e reconhecer diferenças morais entre posições que não são equivalentes.
Posso defender que ambos disponham da liberdade de usar a projeção que conquistaram para intervir politicamente e, simultaneamente, recusar-me a tratar como comparáveis as intervenções que daí resultam. Não me merece o mesmo juízo quem aproveita a sua posição pública para se declarar “chocado” perante a ascensão dos extremos, que considera “catastrófica”, e quem a utiliza para professar admiração por uma das figuras responsáveis pelos maiores crimes da História contemporânea e dirigir ataques antissemitas contra a comunidade judaica. A igualdade no direito à palavra nunca implicou – nem poderia implicar – igualdade no juízo sobre aquilo que por meio dela se diz.

Como agir perante este binómio? Talvez resida aqui a resposta menos satisfatória de todo o texto: dependerá de cada um. Pela minha parte, não gastaria um cêntimo num concerto de Kanye West, vivesse ou não uma paixão desenfreada pela sua música. Do mesmo modo, dificilmente celebraria um golo de Kylian Mbappé, mesmo que ao serviço do meu clube do coração, se nele reconhecesse a defesa ostensiva do nazismo que West protagonizou. Não há nisto contradição alguma com o que antes se defendeu – se aos atores culturais pertence a liberdade de intervir, ao público pertence a liberdade de julgar esta intervenção e de retirar dela as consequências que entender.
É justamente na recusa de tratar como equivalente aquilo que não o é que se encontra uma das exigências elementares da responsabilidade social e política que cabe a cada um de nós. Se tolerar a expressão de uma opinião não obriga a acolhê-la com indiferença, reconhecer a alguém o direito de falar não impõe o dever de continuar a ouvi-lo ou a financiá-lo. A liberdade de quem dispõe de um palco para se pronunciar não suspende a liberdade de quem, do outro lado, decide o valor que atribui ao que acaba de ouvir.
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Nota do Director:
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13/08/2026