Grande parte do salário é para contribuições e impostos
(Créditos fotográficos: Jeriden Villegas – Unsplash)
Terminou, a 30 de junho, o prazo para a entrega da declaração do imposto sobre o rendimento das pessoas singulares (IRS), que decorre, anualmente, entre 1 de abril e 30 de junho – obrigação declarativa que se aplica a todos os contribuintes, independentemente do tipo de rendimento, mas não do volume de rendimento, uma vez que se trata de imposto proporcional e progressivo, em conformidade com escalonamento definido por lei.
Se o prazo limite for ultrapassado, é aconselhável regularizar a situação, o mais rapidamente possível, para minimizar potenciais coimas, que podem ser aplicadas por entrega fora de prazo.

Falar de IRS é abordar uma obrigação contributiva que incide sobre o rendimento, nomeadamente, o rendimento do trabalho materializado em salário ou em pensão em regime contributivo (que se reporta à compensação pelo trabalho no passado). A par deste desconto sobre o rendimento, é de referir a conveniente contribuição mensal para a Segurança Social, seja pelo sistema estatal, seja por regimes privados, como os planos de poupança para a reforma, os complementos de reforma ou a Caixa de Previdência dos Advogados e Solicitadores (CPAS).
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A este respeito, parece-me oportuna a leitura de um artigo do jornalista Servet Yanatma intitulado “Europa: em que países os trabalhadores retêm mais do seu salário?”, publicado a 29 de junho, pela Euronews, sustentando que “a percentagem dos rendimentos absorvida por impostos e [por] outras retenções varia muito na Europa” e lança a pertinente questão: “Afinal, quanto é que os trabalhadores retêm?”

E não é só a variação dos sistemas de imposto sobre o rendimento das pessoas singulares e de segurança social que está em causa. Também o está “o peso global sobre a remuneração dos trabalhadores”, para os quais “o mais importante é saber quanto do salário conseguem, efetivamente, levar para casa, depois de impostos e deduções obrigatórias”.
Para responder a tal preocupação dos trabalhadores, a Euronews Business, com base em dados do Eurostat para calcular o rendimento anual líquido como percentagem do salário bruto e para obter um rácio de rendimento disponível, “calculou a parte do salário bruto [ou ilíquido] que é absorvida por impostos e [por] outras deduções”.
Há casos de resultado negativo. Tal acontece, quando os trabalhadores arrecadam mais do que o salário ilíquido, graças a abonos de família e a reembolsos fiscais. No caso dos trabalhadores por conta de outrem e dos pensionistas, a entidade patronal ou pagadora retém na fonte a percentagem do IRS e a da contribuição para a Segurança Social (nos casos em que há lugar a tal contribuição). Por outro lado, a percentagem destinada a impostos e deduções também varia consoante o estado civil e a existência ou não de filhos a cargo.

Segundo os dados de 2025 do Eurostat, a parcela do salário ilíquido destinada a impostos e a outras deduções varia bastante pelo continente. Para uma pessoa solteira sem filhos a auferir o salário médio, vai de 15,1%, em Chipre, a 41,5%, na Roménia. A média da União Europeia (UE) é de 29,1%. Em Portugal, é de 21,8%. Para um casal em que só um dos cônjuges trabalhe e que tenha a cargo duas crianças, a parcela vai de -3,3%, na Grécia, a 33,4%, na Roménia. A média da UE é de 8,0%. Em Portugal, é de 5,7%. Para um casal em que os dois cônjuges trabalhem e que tenha a cargo duas crianças, a parcela vai de 13,5%, em Chipre, a 38,3%, na Roménia. A média da UE é de 22,6%. Em Portugal, é de 18,1%.
Na UE, o salário ilíquido médio anual é de 37958 euros, enquanto o rendimento líquido é de 26929 euros. Assim, 11029 euros são canalizados para impostos e para outras deduções.

Além da Roménia (41,5%), há mais seis países em que mais de um terço do salário ilíquido é absorvido por impostos e por outras deduções, no caso de uma pessoa solteira sem filhos a auferir o salário médio: a Lituânia (39,1%), a Bélgica (37,6 %), a Eslovénia (36,9%), a Alemanha (34,8%), a Dinamarca (34,0%) e a Hungria (33,5%). A percentagem também fica acima da média da UE no Luxemburgo (32,6%) e na Croácia (31,5%).
No extremo oposto, a Grécia (17,0%) surge logo a seguir a Chipre, com menos de um quinto do salário ilíquido a ser destinado a impostos e a outras deduções.
Só na Roménia (33,4%), o casal em que só um dos cônjuges trabalhe e que tenha a cargo duas crianças, vê mais de um terço do salário ilíquido absorvido por impostos e por outras deduções. A percentagem também fica acima da média da UE em 17 países: a Lituânia (23,8%), a Hungria (23,2%), a Eslovénia (23,1%), a Finlândia (22,2%), a Dinamarca (21,0%), a Suécia (18,3%), a Croácia (16,9%), a Estónia (15,9%), a Bélgica (14,8%), os Países Baixos (14,5%), a Letónia (14,5%), a Bulgária (13,8%), a Espanha (12,0%), a Eslováquia (11,8%), Chipre (10,3%), a Chéquia (10,1%) e a Irlanda (8,7%). Há três países – a Roménia (38,3%), a Lituânia (34,3%) e a Eslovénia (33,6%) – em que o casal em que os dois cônjuges trabalhem e que tenha a cargo duas crianças vê mais de um terço do salário ilíquido absorvido por impostos e por outras deduções. A percentagem também fica acima da média da UE em sete países: a Dinamarca (32,2%), a Bélgica (31,7%), a Hungria (28,4%), a Croácia (27,7%), o Luxemburgo (26,6%), a Alemanha (26,2%) e a Finlândia (24,8%).

Tomando por base o desconto de pessoa solteira sem filhos a auferir o salário médio, é de referir que vários países se situam entre 22% e 25%: Assim, a Chéquia (21,6%), a Irlanda (21,6%), Portugal (21,8%), a Espanha (22,1%), a Bulgária (22,4%), Malta (23,1%), a Estónia (23,2%), a Itália (24,1%), a Suécia (24,5%) e a Eslováquia (24,6%) registam percentagens inferiores a um quarto. Entre as quatro maiores economias da UE, a Alemanha apresenta a maior parcela do salário ilíquido destinada a impostos e a outras deduções, com 34,8%, enquanto a Espanha tem a mais baixa, com 22,1%. Na França, o valor é de 26,2% e, na Itália, de 24,1%.
Como aponta Servet Yanatma, de forma geral, os países do Sul da Europa tendem a registar percentagens mais baixas do salário ilíquido destinadas a impostos e a outras deduções, enquanto valores mais elevados são mais comuns na Europa Central e de Leste. A Europa Ocidental mostra um quadro mais misto, embora a Bélgica e a Alemanha surjam entre os países com valores mais altos. Os países nórdicos e bálticos também apresentam variação considerável, o que sugere que a geografia, por si só, não explica as diferenças.
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Ter filhos a cargo pode reduzir, de forma significativa, a parcela do salário ilíquido destinada a impostos e a outras deduções, sobretudo, no caso de casais com apenas um rendimento. Para este tipo de agregado, a percentagem varia de -3,3%, na Grécia a 33,4%, na Roménia.

O valor também é negativo na Polónia (-0,6 %), o que significa que o rendimento líquido supera o salário ilíquido, graças a abonos de família e a reembolsos fiscais.
A média da UE desce para 8,0%, face aos 29,1% de uma pessoa solteira sem filhos.
A Roménia destaca-se no topo da tabela. A segunda percentagem mais elevada é de 23,8% na Lituânia, quase 10% abaixo. À exceção destes dois países, a percentagem só ultrapassa 20% na Hungria, na Eslovénia, na Finlândia e na Dinamarca.
Comparando uma pessoa solteira sem filhos com um casal com um único rendimento e dois filhos, a Alemanha é o caso mais extremo. A parcela do salário ilíquido destinada a impostos e outras deduções desce de 34,8% para apenas 0,2%, uma queda de 34,6%.
Em ambos os casos, o salário bruto anual é de 47514 euros. No entanto, um casal com um único rendimento e dois filhos leva para casa 47424 euros, face a 31 mil euros, no caso de uma pessoa solteira sem filhos, uma diferença de 16424 euros.

Para casais com dois rendimentos e dois filhos, a parcela destinada a impostos e outras deduções é inferior à de pessoa solteira sem filhos em todos os países da UE, exceto na Grécia.

A Polónia surge entre os países com a maior diferença, de 11,5%. Na Grécia, pelo contrário, a parcela do salário ilíquido destinada a impostos e outras deduções é idêntica nos dois cenários.
Alex Mengden, economista na Tax Foundation, chama a atenção para as diferenças na forma como os países europeus tributam o trabalho e defende que o peso global é mais importante do que o imposto sobre o rendimento por si só.
Por exemplo, como observa o economista, “a carga fiscal sobre o trabalho, na Dinamarca, fica abaixo da Polónia”. Contudo, a Dinamarca surge no topo da classificação, porque “a tributação do trabalho assenta, quase exclusivamente, no imposto sobre o rendimento, enquanto, na Polónia, as contribuições sociais retiram quase 2,5 vezes mais do que o imposto sobre o rendimento ao que um empregador paga a um trabalhador com salário médio, o que coloca o país no fundo da tabela”.
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Também, como se viu, os rendimentos líquidos anuais dos trabalhadores variam muito na Europa, de menos de 13 mil a mais de 54 mil euros (€).
Segundo o Eurostat, o trabalhador que ganha o salário médio arrecada mais de quatro vezes mais no Luxemburgo do que na Hungria. Os rendimentos anuais líquidos do trabalhador isolado (solteiro ou em estado equivalente) sem filhos, que traduzem o que arrecada, variam entre 12967€, na Hungria, e 54260€, no Luxemburgo, evidenciando as grandes diferenças de rendimento líquido na Europa. A classificação revela significativo fosso entre países, com uma diferença considerável, embora esta diminua um pouco, ao ser ajustada ao poder de compra.

Esta diferença resulta da combinação de níveis salariais, sistemas fiscais, contribuições para a segurança social e regimes de prestações familiares. Países com salários mais elevados nem sempre ocupam os primeiros lugares, no atinente aos impostos e ao custo de vida. Os rendimentos líquidos medem o que os trabalhadores arrecadam, depois de deduzido o imposto sobre o rendimento e as contribuições para a segurança social. No caso dos agregados com filhos, incluem também as prestações familiares.
Em 2025, segundo o Eurostat, os rendimentos anuais líquidos de pessoa solteira sem filhos que aufere o salário médio situavam-se nos 26929€, na UE. Ora, como os rendimentos líquidos variam conforme a situação familiar e o número de filhos a cargo, há outros cenários.

Entre os países da UE que ocupam o topo da tabela, só o Luxemburgo ultrapassa os 50 mil euros e só dois países registam que uma pessoa solteira ganhe mais de 40 mil euros líquidos, por ano: a Irlanda (44263€) e a Dinamarca (41981€). Outros países acima da média da UE, de 26929€, também superam os 30 mil euros: os Países Baixos (36837€), a Bélgica (34642€), a Suécia (34624€), a Finlândia (33641€), a Alemanha (31 mil euros) e a França (30832€).
Embora a Alemanha e a França fiquem acima da média europeia, a Espanha e a Itália surgem abaixo. Uma pessoa solteira, na Alemanha ou na França, ganha, pelo menos, mais cinco mil euros do que os seus homólogos da Espanha e da Itália, onde o rendimento anual líquido é de 25263€ e de 24471€, respetivamente.
Em dez países da UE, o rendimento anual líquido é inferior a 20 mil euros: a Hungria (12967€), a Roménia (13233€), a Grécia (15050€), a Eslováquia (15686€) e a Polónia (16163€) formam o grupo com valores mais baixos; a Letónia (16793€), a Croácia (17256€), a Lituânia (18650€), a Chéquia (19569€) e Portugal (19709€) oferecem rendimentos relativamente mais elevados, embora a diferença não seja grande. E também a Estónia (20045€), a Eslovénia (22503€), Chipre (23524€) e Malta (25544€) estão entre os 20 mil euros e a média da UE.

A Bulgária tinha os rendimentos líquidos mais baixos da UE, em 2024, mas a Euronews Business excluiu o país, aguardando confirmação do Eurostat, devido ao aumento invulgarmente acentuado nos dados atualizados.
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Tendo em conta o custo de vida, o quadro altera-se de forma significativa. Os trabalhadores em países como a Roménia e a Polónia levam para casa menos euros do que os seus homólogos na Europa Ocidental, mas os preços mais baixos fazem com que o seu rendimento renda mais, a nível interno. Nestes termos, o fosso entre quem ganha mais e quem ganha menos, na Europa, é muito menor do que parece à primeira vista. Enquanto o rendimento líquido no país mais bem posicionado é 4,2 vezes superior ao do último em termos nominais, a diferença cai para 2,3 vezes, quando ajustada ao poder de compra.
Em termos de Padrão de Poder de Compra (PPS) – medida paralela à que se faz em euros e sua complementar –, a média da UE situa-se nos 26346€, variando entre 17509€, na Grécia, e 40,846€, no Luxemburgo. Entre as quatro maiores economias da UE, a Alemanha regista o rendimento líquido mais elevado, com 28536€, seguida da Espanha (27794€), e não de França (27724€), que surge em segundo lugar, em termos de euros, embora a diferença seja mínima. E a Itália (25095€) continua abaixo da média da UE.

Alguns países sobem, de forma notória, na tabela, em PPS. A Roménia passa de segunda mais baixa para meio da tabela, ultrapassando vários países. A Polónia fica acima da Estónia, da Letónia e da Lituânia. A Espanha ultrapassa França e reduz, significativamente, a diferença para a Alemanha. Em contraponto, alguns países descem, claramente, na classificação em PPS. A Grécia cai para o valor mais baixo da UE, ficando abaixo da Hungria. E a Dinamarca recua também, atrás da Irlanda, da Áustria e dos Países Baixos.
Surgem tendências regionais em ambas as medidas (euros e PPS). Os países da Europa Ocidental dominam, em termos de euros e de PPS, embora a Dinamarca perca terreno, em PPS. Países da Europa de Leste, como a Roménia, a Polónia e a Croácia, ganham posições na tabela, em PPS, já que o custo de vida mais baixo compensa, parcialmente, os salários nominais inferiores. Isto contribui para reduzir o fosso entre Leste e Oeste.
Os números acima referem-se a uma pessoa solteira sem filhos. Quando há filhos a cargo, os rendimentos líquidos e as classificações mudam de forma significativa em alguns países que concedem abonos de família generosos. Estes podem assumir a forma de reduções no imposto sobre o rendimento ou de transferências, em numerário, pagas por cada filho a cargo.
Comparando uma pessoa solteira sem filhos com um casal com só um dos membros a trabalhar e dois filhos, a Alemanha surge como o país mais generoso. Os rendimentos líquidos do casal com um só salário e dois filhos são 53% superiores, passando de 31 mil euros para 47424€.

A Polónia (39%), a Bélgica (37%) e a Áustria (33%) destacam-se também por um apoio familiar bastante forte. Entre as maiores economias, a Espanha apresenta a menor diferença, de apenas 13%, enquanto a França fica nos 26% e a Itália nos 25%. Chipre (6%) e dois países nórdicos – a Finlândia (7%) e a Suécia (8%) – surgem no fim da tabela, mas isto não quer dizer que as famílias com filhos não recebam apoio, que pode ser prestado com outros mecanismos.
A estatística reza assim. Fica por saber o que, realmente, se passa com as famílias, pois, além de impostos e de contribuições, há outros encargos: saúde, educação e apoio à infância, aos idosos e no desemprego. A vida é a tarefa de todos os dias calejada pelo tempo.
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02/07/2026