Inteligência precisa-se

 Inteligência precisa-se

(Imagem de domínio público gerada por IA)

Vi, há pouco, um pequeno vídeo no qual Bernie Sanders, senador dos Estados Unidos da América, colocava várias questões sobre o impacto potencialmente negativo da inteligência artificial e da robótica no seu país. Porque acho que a questão é de interesse global e não apenas nacional, e porque concordo com as preocupações deste político americano, resolvi explorá-las neste breve artigo.

A inteligência artificial (IA) e a robótica são, muito provavelmente, as tecnologias mais disruptivas alguma vez criadas. A sua capacidade de transformar o trabalho, a economia, as relações sociais e, até, a própria noção de Humanidade, ultrapassa largamente a de revoluções tecnológicas anteriores, como a máquina a vapor, a eletricidade ou a invenção dos computadores. Pela primeira vez na História, estamos perante sistemas capazes de substituir não apenas o esforço físico humano, mas, também, uma parte significativa das suas capacidades cognitivas, criativas e decisórias.

Perante uma transformação desta magnitude, a questão essencial não é apenas tecnológica, mas profundamente política e ética: quem está a impulsionar estas tecnologias e em benefício de quem?

Hoje, o desenvolvimento da IA e da robótica está largamente concentrado nas mãos de um grupo extremamente reduzido de multibilionários e grandes corporações tecnológicas. Nomes como Elon Musk, Jeff Bezos, Mark Zuckerberg, Peter Thiel ou Bill Gates surgem frequentemente associados à ideia de inovação, de progresso e de inevitabilidade do domínio tecnológico. Contudo, estas figuras não respondem perante os cidadãos ou as sociedades democráticas. Movem-se, antes de mais, pelos seus próprios interesses económicos, pelo aumento do poder e pela acumulação de riqueza.

As declarações públicas de alguns destes protagonistas são, no mínimo, inquietantes. Elon Musk afirma que a IA e a robótica substituirão praticamente todos os empregos. Bill Gates sugere que os seres humanos deixarão de ser necessários para a maioria das tarefas produtivas. Dario Amodei, diretor executivo da Anthropic, admite que até metade dos empregos intelectuais ou baseados no conhecimento poderá desaparecer. Note-se que estas previsões não vêm de críticos do sistema, mas dos próprios arquitetos da nova ordem tecnológica.

(Imagem de domínio público gerada por IA)

Perante este cenário, impõe-se uma pergunta simples, mas brutal: se o trabalho desaparecer em larga escala, como irão sobreviver as pessoas? A nossa organização social, económica e política assenta no trabalho remunerado como principal meio de subsistência, de dignidade e de integração social. Eliminar o trabalho sem redefinir profundamente o modelo económico é abrir caminho a níveis inéditos de desigualdade, a exclusão de larguíssimas franjas da população e a inevitáveis conflitos sociais e políticos, com consequências imprevisíveis. É certo que a par da revolução tecnológica que vivemos existe uma promessa de rendimentos universais e de uma economia da abundância, mas trata-se de algo que é sempre prometido de forma muito vaga, nunca acompanhado de compromissos concretos ou de quaisquer garantias.

Contudo, o impacto da IA não se limita à economia, indo muito mais além. Neste mundo cada vez mais virtual, todos percebemos sinais preocupantes de uma erosão acelerada das relações humanas. Um número crescente de crianças e de jovens estabelece vínculos emocionais com sistemas de IA, procurando neles apoio, validação e companhia. Paralelamente, os adultos interagem cada vez menos entre si, passando grande parte do tempo em diálogo com dispositivos, plataformas e algoritmos. A mediação tecnológica, que começou por facilitar a comunicação, é, agora, o principal obstáculo às verdadeiras relações humanas.

(Imagem de domínio público gerada por IA)

Estamos, assim, a caminhar para uma sociedade que, sendo mais eficiente, é também muito mais solitária, mais controlada e mais dependente de sistemas opacos que poucos compreendem e ainda menos controlam. É legítimo perguntar: será este o futuro que desejamos?

O ritmo vertiginoso do desenvolvimento da IA torna a sua análise e discussão extremamente urgentes. Tecnologias com um fortíssimo impacto na sociedade estão a ser lançadas sem discussão pública séria, sem avaliação democrática e sem um consenso social sobre limites, objetivos e riscos. A ideia de que “não se pode parar o progresso” funciona como um dogma conveniente para quem lucra com ele, mas escamoteia o facto de que todas as grandes conquistas sociais da história resultaram precisamente da capacidade de impor limites ao poder económico.

Por outro lado, não nos devemos esquecer de que detrás desta corrida desenfreada estão os centros de dados: infraestruturas gigantescas, energeticamente intensivas, frequentemente apresentadas como motores de desenvolvimento económico. No entanto, o seu impacto ambiental é significativo e o seu verdadeiro papel é sustentar sistemas que concentram poder, automatizam decisões e reduzem a autonomia das sociedades. Não são neutros nem inevitáveis, mas, sim, escolhas disfarçadas de necessidade técnica. Muitos países já perceberam isso e recusam-se a permitir mais centros de dados, ao contrário de outros, que continuam a ser aliciados por promessas de investimentos milionários.

(Imagem de domínio público gerada por IA)

Importa, assim, reafirmar um princípio fundamental: a tecnologia deve servir a sociedade, e não o contrário. A IA e a robótica têm um enorme potencial para melhorar a vida humana, reduzir trabalho penoso, apoiar a ciência, a saúde e a educação. Mas, quando são desenvolvidas e controladas por uma elite económica restrita, tornam-se instrumentos de dominação e não de emancipação.

O futuro não pode ser decidido por um punhado de multibilionários, em salas fechadas e segundo interesses privados. Tem de ser decidido coletivamente, de forma democrática, informada e responsável. A pergunta não é se a IA vai moldar o futuro da Humanidade, já que isso é inevitável. A verdadeira pergunta é quem molda a IA e com que valores.

Enquanto sociedade, ainda vamos a tempo de escolher. Essa escolha exige coragem política, pensamento crítico e a recusa da ideia de que o destino humano pode ser entregue, sem resistência, às mãos do mercado e dos algoritmos. Mas, para escolhermos bem, precisamos de inteligência, não da artificial, mas daquela que dá a cada ser humano capacidades para analisar opções e decidir para onde quer ir.

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05/01/2026

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Fernando Boavida Fernandes

Professor catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, sendo docente do Departamento de Engenharia Informática. Possui uma experiência de 40 anos no ensino, na investigação e em engenharia, nas áreas de Informática, Redes e Protocolos de Comunicação, Planeamento e Projeto de Redes, Redes Móveis e Redes de Sensores. É membro da Ordem dos Engenheiros. É coautor dos livros “Engenharia de Redes Informáticas”, “Administração de Redes Informáticas”, “TCP/IP – Teoria e prática”, “Redes de Sensores sem Fios” e “Introdução à Criptografia”, publicados pela FCA. É autor dos livros “Gestão de tempo e organização do trabalho” e “Expor ideias”, publicados pela editora PACTOR.

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