Make America Great Again e a inevitabilidade de uma desilusão

 Make America Great Again e a inevitabilidade de uma desilusão

(Créditos fotográficos: Mark Peterson / Redux – newyorker.com)

Ernesto Laclau ensinou-nos a encarar o populismo não como uma patologia da política, muito menos como um desvio a ser erradicado, mas como uma lógica constitutiva do próprio político. No seu núcleo reside o conceito de “significante vazio”: uma fórmula que, pela sua indeterminação, é capaz de condensar uma pluralidade de reivindicações – por vezes, até contraditórias. “Justiça”, “liberdade”, “povo”: termos que se apresentam como evidentes, quase consensuais, mas cuja força não advém de um significado fixo e estável. Pelo contrário, é na sua abertura e na sua capacidade de acolher sentidos diversos que reside o seu poder.

Ernesto Laclau (pt.wikipedia.org)

“Make America Great Again” constitui, neste sentido, um objeto de análise exemplar. Quem, na plena posse das suas faculdades, recusaria a promessa de tornar o seu país “grande novamente”? Se a interrogação é retórica deve-se ao facto de a resposta ser profundamente humana. A fórmula, deliberadamente vaga e sedutora, está investida de uma rara capacidade de universalização: tanto o operário desindustrializado do Midwest como o empresário de Wall Street nela projetam as suas aspirações. Para um, significa o regresso de empregos industriais; para outro, a desregulação económica. Um imagina um país menos interventivo no exterior; outro, a reafirmação firme da hegemonia americana.

O slogan opera nesta zona crepuscular de expectativas difusas: convoca um passado mitificado – que nunca existiu senão enquanto construção imaginária – para prometer um futuro que, pela mesma razão, permanece sempre adiado. Sob esta ampla abóbada vocabular, onde diferenças substantivas se dissolvem numa espécie de camaradagem simbólica, cada americano se reconhece como parte de um todo. E é justamente nesta capacidade de equivalência, mais do que em qualquer conteúdo concreto, que reside a eficácia do slogan.

(x.com/WhiteHouse)

Mas esta eficácia, quase sempre circunstancial e dificilmente reiterável por um mesmo ator, comporta um custo inevitável. Ao agregar diferenças sob o denominador comum semanticamente rarefeito, o populismo não resolve as tensões que o atravessam. O conflito é adiado, mas nunca superado. O “nós” que se constitui em torno do significante vazio revela-se, por isso, intrinsecamente instável: uma comunidade imaginada cuja coesão depende da capacidade de manter as suas fraturas em estado de latência ou subordinadas à presença de um inimigo comum. Quando este inimigo se esbate, ou quando as decisões concretas da governação obrigam a escolhas – e, portanto, a exclusões –, as fissuras emergem.

É precisamente desta tensão latente que emerge a recente dissidência de Joe Kent. O agora ex-diretor do principal órgão de contraterrorismo dos Estados Unidos da América, figura outrora leal a Donald Trump e por ele alçada a um lugar de relevo na arquitetura de segurança nacional, acabou por romper com a Administração.

Joseph Clay Kent (en.wikipedia.org)

Joe Kent foi sempre o soldado de uma ideia: a de que a grandeza da América se afirma menos na projeção incessante de força do que na recusa em se dispersar por guerras que julga erradas. A sua lealdade a Trump nasce desta afinidade originária, ancorada numa certa visão de América – uma visão em que o “Great Again” significava, acima de tudo, o regresso a uma sobriedade geopolítica e a um não-intervencionismo. Esta convicção, deve dizer-se, é também biográfica: deve muito à morte da sua mulher, Shannon, que foi vítima de um atentado suicida do Daesh, na Síria. À época, Donald Trump – então fora da Casa Branca, em 2019 – defendia a retirada das forças norte-americanas.

Desde então, Joe Kent manteve-se leal a Trump. Mas, mais do que a um homem, permaneceu fiel à tal ideia de que há guerras que não devem ser travadas. É nesta fidelidade última que deve ser lido o seu afastamento: sete anos volvidos, perante uma Administração Trump agora implicada em estreita colaboração nos ataques ao Irão, Kent reencontra-se com aquilo que reconhece como a repetição dos erros do passado.

(Imagem gerada por IA – chatgpt.com)

Este episódio revela que o significante vazio, logo que excessivamente distendido sobre uma moldura de interesses e de visões inconciliáveis, acaba inevitavelmente por se rasgar. A palavra “MAGA”, para Kent como para outros, preenchera-se de um conteúdo que já não reconhecia como seu. A sua saída constitui um testemunho eloquente de que, no coração de todo o movimento que se alimenta da ambiguidade, habita a semente da sua própria fragmentação. Com a elegância trágica própria dos paradoxos, eis a sua aplicação ao populismo laclausiano: a mesma indeterminação que permite a construção de um “povo” amplo, agregador e mobilizador é, simultaneamente, aquilo que o torna estruturalmente precário.

Em tempos sombrios, esta imagem oferece uma réstia de inteligibilidade: lembra-nos que movimentos desta estirpe trazem inscrita, na sua própria lógica interna, a possibilidade do seu termo.

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26/03/2026

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Lourenço Ferreira

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Lourenço Ferreira é mestrando em Comunicação Social, investigador na área da Comunicação Política e colaborador em projetos de Educação para a Cidadania. Interessa-se por temas como a opinião pública, o discurso político e o impacto das novas formas de mediação na cultura contemporânea. Escreve com regularidade sobre política, sociedade e “media”, procurando sempre um olhar crítico e fundamentado sobre os fenómenos do seu tempo.

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