Memórias: Júlio César (3) – Traquinices

 Memórias: Júlio César (3) – Traquinices

Júlio César dos Santos Marques Antunes (nasceu em Alter do Chão, Chancelaria, a 16 de Junho de 1947) é um actor, encenador e apresentador de televisão português. (atelevisao.com)

(facebook.com/museudelisboaEGEAC)

A prévia advertência é a de que os tempos eram outros e só um “chanfrado” pensaria colher votos invocando Salazar. Ainda estava longe de aparecer um “encantador de burros”. Mas o que conto era só humor pelo paradoxo.

Não o fazíamos com qualquer outra intenção que não fosse traquinice e a disponibilidade para sermos sempre “subversivos” para com a modorra em que se vivia. E toca a carimbar notas de 20$00 (cada um de nós encomendara um carimbo para seu uso) com um slogan a dizer “Temos a Vontade, sabemos a Ideia, queremos Portugal”. E desatámos a distribuir notas dessas por tudo quanto era sítio. Às vezes, até destrocávamos mesmo notas de 100 escudos e de 500 escudos por notas de 20 escudos para o fazer; e pagávamos tudo com essas notas (as moedas é que nos iam crescendo, porque era sempre com uma ou várias notas que pagávamos).

(pcv.pt)

E um dia até distribuímos algumas, deixando-as cair no chão de um bar no Porto! Ora, um dia, num cafezito perto da casa do Júlio César, onde então ele vivia, em Alcântara, o dono vira-se para ele e diz: “Tenho reparado que me paga tudo com estas notas (exibia uma delas carimbada). O que é isto?” Ao que o Júlio respondeu: “Também eu gostava de saber. Agora, na televisão, só pagam em dinheiro e tudo em notas destas. Até vem sempre uma a mais e temos de dar o troco!”

O homem ficou a pensar e, passadas umas semanas, volta à carga: “Sabe que já outra pessoa me deu notas iguais? Já descobriu o que é?” O Júlio pôs um ar e um tom conspirativos e sussurrou: “Não diga nada que isto está a ficar muito complicado!”

Como a traquinice ainda demorou mais algum tempo e, quando entrávamos, o senhor punha um ar cúmplice e, com a cabeça, interrogava discretamente, quando recebia a nota. E o Júlio, dando a entender que eu tinha alguma coisa a ver com o assunto, fazia-lhe sinal com o dedo à frente dos lábios para ele se calar.

Actor Júlio César. (facebook.com/juliochanca)

Entretanto, aquilo também começara a aparecer, a spray, em paredes (e não só). Quem terá sido não sei, mas a TSF deu mesmo a notícia, porque alguém terá telefonado (havia cabines telefónicas) com um grito: “Temos a Vontade! Sabemos a Ideia! Queremos Portugal VIP: Vontade, Império, Portugal.” Não é que andavam a vandalizar, com o acrónimo VIP, as caixas multibanco?

A coisa acabou, uns tempos mais para a frente. Um dia, o dono do café lançou em tom “encriptado”: “Parece que aquela coisa acabou, Sr. César.” E o Júlio César, mantendo o tom de secretismo, respondeu-lhe: “Sim, acabaram com eles, já os apanharam!” O homem suspirou: “Ainda bem, não era coisa boa… Aqueles dizeres cheiravam-me mal.”

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08/01/2026

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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