Memórias: Júlio César (1) – Uma aposta premiada com a amizade

 Memórias: Júlio César (1) – Uma aposta premiada com a amizade

Actor Júlio César (arquivos.rtp.pt)

(gulbenkian.pt)

Conheci o Júlio em 1984, quando fui encenar um espectáculo (“Almada – Dia Claro”), que inaugurava o Serviço Acarte do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian. Era eu extremamente frio e distante como encenador. Costumava (e ainda resta alguma coisa disso) dividir-me em dois: o Castro Guedes, o profissional e intelectual formal e sombrio, e o Jorge, excessivo e “louco”.

O primeiro dizia do segundo ser um tipo pouco ajuizado; este dizia do outro ser um “chato”. A encenar, o segundo estava proibido de se manifestar publicamente. Todavia, vá-se lá saber porquê, o Júlio César convenceu o Castro Guedes a ir, no final do ensaio, “beber um copo” com ele. Ao fim de três ou quatro uísques, não porque estivesse alcoolizado, senão pelas “loucuras” do Júlio, aparece o Jorge, bem identificado com o próprio Júlio. E acho que, nessa mesma noite, haveria de surgir uma amizade profunda. Ao final da noite, o Júlio diz-me que perguntara ao Mário Timóteo (um actor que trabalhara muitas vezes comigo) como era esse tal Castro Guedes. E que ele lhe dissera das tais características frias e reservadas e da “impossibilidade” de desfazer o “bloco de gelo”. E o Júlio apostara que me levaria a quebrá-lo e beber os tais copos.

Júlio César (sapo.pt)

Era por isso que ali estávamos: ele acabara de ganhar a aposta com o Timóteo. Naquele momento, já não havia clima para o Castro Guedes se zangar: há muito que saíra e só o Jorge ficara. Abençoada aposta, que tanto nos havíamos de divertir em mais de 20 anos de “traquinices”. Tais eram que algumas só podem ser evocadas porque já “prescreveu” qualquer recriminação ao que são, agora, dois “velhotes” de um tempo eterno de juventude.

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29/12/2025

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Jorge Castro Guedes

Com a actividade profissional essencialmente centrada no teatro, ao longo de mais de 50 anos – tendo dirigido mais de mil intérpretes em mais de cem encenações –, repartiu a sua intervenção, profissional e social, por outros mundos: da publicidade à escrita de artigos de opinião, curioso do Ser(-se) Humano com a capacidade de se espantar como em criança. Se, outrora, se deixou tentar pela miragem de indicar caminhos, na maturidade, que só se conquista em idade avançada, o seu desejo restringe-se a partilhar espírito, coração e palavras. Pessimista por cepticismo, cínico interior em relação às suas convicções, mesmo assim, esforça-se por acreditar que a Humanidade sobreviverá enquanto razão de encontro fraterno e bom. Mesmo que possa verificar que as distopias vencem as utopias, recusa-se a deixar que o matem por dentro e que o calem para fora; mesmo que dela só fique o imaginário. Os heróis que viu em menino, por mais longe que esteja desses ideais e ilusões que, noutras partes, se transformaram em pesadelos, impõem-lhe um dever ético, a que chama “serviços mínimos”. Nasceu no Porto em 1954, tem vivido espalhado pelo Mundo: umas vezes “residencialmente”, outras “em viagem”. Tem convicções arreigadas, mas não é dogmático. Porém, se tiver de escolher, no plano das ideias, recusa mais depressa os “pragma” de justificação para a amoralidade do egoísmo e da indiferença do que os “dogma” de bússola ética.

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