Na época da “clareza do aço inoxidável”
(Créditos fotográficos: Galina Nelyubova– Unsplash)
Que mundo é este em que vivemos? É o que queremos? É o que desejamos para os nossos filhos, netos e sucessores? Se pararmos um pouco e observarmos atentamente, o que vemos? Sejamos francos, alegramo-nos com os sorrisos espontâneos e expansivos que não descobrimos nas pessoas que encontramos nas ruas, nos mercados com produtos de primeira necessidade que se tornam inacessíveis e no trânsito sempre impaciente e com gente irritada e pronta a maltratar-nos, sobretudo quando não avançamos logo ou porque a nossa viatura falha por algum motivo?

Não é só hoje que me mostro apreensivo ou desassossegado com as minhas e as nossas circunstâncias. O que me preocupa, verdadeiramente, é que não tenhamos tempo para contrariar este ciclo de sofreguidão e de desespero. E que continuemos sem vontade de cumprir e de fazer cumprir os objectivos de sustentabilidade – que os há, se nos lembrarmos, por exemplo, da colecção de 17 metas globais estabelecidas pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).


Quem respeita, actualmente, a ONU e os seus avisos, propostas e decisões? Vamos lendo e ouvindo que António Guterres, agora a terminar o seu segundo mandato como secretário-geral da ONU, tem sido muito escrutinado e alvo de tensões diplomáticas e geopolíticas, principalmente no que concerne ao Médio Oriente e à guerra na Faixa de Gaza. A invasão da Ucrânia e a persistência de muitos outros conflitos que, obviamente, contrariam os princípios da Carta das Nações Unidas e do direito internacional humanitário não têm deixado escutar os alertas e as recomendações de Guterres, o qual – como o conhecemos – deseja mesmo socorrer os civis, mas vê dificultada a criação de corredores humanitários e a prestação de assistência em zonas de antagonismos armados e cruéis.
Quantos dos poderosos querem realmente erradicar a pobreza, proteger o chão comum e garantir uma paz sem mordaças e sem a eliminação daqueles que lhes apontam o dedo, até 2030? Isso é possível num prazo que já não chega a quatro anos? A utopia tropeça nas rendilhas da loucura de alguns. Haja, pois, bom senso!
É neste limbo que nos deparamos, embora saibamos que a confiança se conquista, sim, mas devagar e de forma progressiva, alinhando as atitudes com as palavras nas relações que estabelecemos em família, na escola, no trabalho e nos vários contextos pessoais e sociais, nos espaços com e sem fronteiras. Com consistência, transparência e cumprimento de promessas, mesmo aquelas a que damos pouca importância, julgo que temos alguma possibilidade de recuperar a credibilidade que merecemos e nos faz falta.

Assisti, quase por acaso, à gravação da edição especial, ao vivo na tarde quente de 10 de Junho, na Feira do Livro de Lisboa, do “podcast” conduzido por Bernardo Mendonça – “A Beleza das Pequenas Coisas” –, numa conversa em que Luísa Costa Gomes e Rui Cardoso Martins dizem o que ainda os entusiasma na literatura e o que os motiva a escrever.
Sem surpresa, a inquietação própria de quem pensa e discute sobre a vida deste mundo que se cruza com os domínios da inteligência artificial (IA) leva Luísa Costa Gomes a afirmar: “O que vemos em massa são livros de auto-ajuda, proselitismo e didactismo. Um livro não é uma couve-lombarda!” Por sua vez, Rui Cardoso Martins confessa o desejo de viver, pelo menos 20 anos, para ver o que entretanto acontece e “se é possível, ainda, encontrar novas maneiras de fazer… de escrever outras coisas”, ciente dos perigos da IA e dos vieses algorítmicos que atropelam o sentido crítico e a criação humana.

“Em relação ao futuro, eu comigo não estou muito preocupada […] porque tenho já uma formação. ‘Mas as crianças, Senhor, […]’ – como diria o Augusto Gil – ‘Porque padecem assim?!’ As crianças, de facto, é que me preocupam. As novas gerações que não vão ter o prazer de pensar por si próprias”, declara Luísa Costa Gomes, manifestando que a IA é “completamente paralisante” e de uma “clareza de aço inoxidável”. Reiterando o receio de Rui Cardoso Martins de ver o pensamento substituído pela inteligência artificial, a escritora sublinha: “É uma coisa profundamente estúpida. É de uma perfeição estúpida!”
.
………………………….
.
Nota:
O presente artigo (na versão de crónica) foi publicado na edição de ontem (domingo, 14 de Junho) do Diário de Coimbra, no âmbito da rubrica “Da Raiz e do Espanto”.
.
15/06/2026