Na morte de Salazar… uma corte pirandelliana
Cena do filme “Pai Nosso – Os Últimos Dias de Salazar”, realizado por José Filipe Costa. (indielisboa.com)
“Pai Nosso – Os Últimos Dias de Salazar”: Salazares há muitos!

É este o filme que nos permite um olhar para os dois últimos anos da vida do ditador. É a primeira ficção longa do documentarista José Filipe Costa. Trata-se de um filme ousado e incómodo. A estreia nacional foi no dia 27 de Maio e o filme traz um olhar sobre o ditador que caiu de uma cadeira (a 3 de Agosto de 1968)1, ao ter sofrido um acidente vascular cerebral2 (AVC). O que permitiu uma “primavera marcelista”, que cresceu, murchou e desapareceu nas ruas de Lisboa.

Há muito tempo, ouvi falar desta história e julgo que, para muita gente, quase se transformou num mito urbano. Salazar doente, continuou a acreditar que ainda governava no País. Uma corte de acólitos acompanhava-o, diariamente, nesta fábula encenada.
O filme conta com fontes históricas referenciadas e com interpretações assinaláveis de Jorge Mota e de Catarina Avelar3.
Em Fevereiro de 1922, o dramaturgo italiano Luigi Pirandello – galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, em 1934 – estreou, no Teatro Manzoni, na cidade italiana de Milão, a sua peça “Henrique IV” (“Enrico IV”, no original) considerada uma obra-prima deste renovador do teatro, juntamente com “Seis Personagens à Procura de um Autor”. Esta peça de Luigi Pirandello, escrita em 1921, constitui uma reflexão sobre o significado da loucura e, simultaneamente, sobre um tema particularmente caro ao autor: a relação complexa e, em última análise, inextricável entre a pessoa (persona) e a personagem, a ficção e a realidade.

(Créditos fotográficos: Agência de Imprensa
Meurisse – Biblioteca Nacional da França /
pt.wikipedia.org)
A genialidade de Pirandello reside nas sucessivas inversões da realidade e da aparência. Resumindo o enredo: o protagonista, na sequência de uma queda durante uma cavalgada de mascarados, passa a acreditar que é Henrique IV, imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Convencidos de que enlouqueceu, os seus familiares e amigos recriam à sua volta o ambiente da corte imperial para se adaptarem ao seu delírio. Ao fim de doze anos, ele recupera a lucidez, mas decide ocultar esse facto e continuar a representar o papel de Henrique IV. No desfecho, após matar Belcredi, vê-se condenado a permanecer para sempre na identidade que criou, vivendo encerrado na máscara da personagem que interpreta. Ou seja, levando uma vida que é uma farsa. A peça começa quando o protagonista já recuperou a razão e observa, com plena consciência, a “mise-en-scène”, isto é, a encenação construída em seu redor.

É bom e belo lembrar o poético conceito de “mise en abyme” (colocação em abismo) ou de “mise en abîme”. Na heráldica, designa o fenómeno da reprodução de um escudo por uma peça situada no seu centro. André Gide, o escritor, utilizou o termo para se referir a essa visão em profundidade e de reduplicação sucessiva, sugerida pelas caixas chinesas ou pelas matrioskas (bonecas russas).
“Mise en abyme” (ou “mise en abîme”) é aplicado no campo dos estudos literários e das artes plásticas, em geral. Adoptamos, ainda que de forma limitada, para este conceito poético, a expressão «teatro dentro do teatro» ou «representação dentro de uma representação».
A peça foi representada no Porto, pela Companhia Seiva Trupe, com interpretação de Júlio Cardoso e encenação de Ulysses Cruz, em 1988.

Não sabemos se o ditador Salazar teve, como na peça de Pirandello, um derradeiro vislumbre de memória ou de consciência. Imagino-o, porém, triste e solitário, como na fotografia que o retrata na ambulância, partindo para um território desconhecido e, tal como no poema de Gedeão, caindo, caindo sempre, sem consciência nem remorso, incapaz de imaginar o futuro glorioso do Portugal de Abril e “[…] do alto inacessível das suas alturas, / foram caindo, / caindo, / caindo, / caindo, / caindo sempre, / e sempre, / ininterruptamente, / na razão directa do quadrado dos tempos.”
As comemorações do 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, são tradicionalmente palco da atribuição de condecorações a diversas coletividades e personalidades. Entre as muitas distinções atribuídas este ano, o Presidente da República, António José Seguro, distinguiu o encenador teatral Eduardo Luís Mendes Rodrigues, presidente da Associação Teatro Experimental do Funchal (ATEF), fundada em 1975.

Uma pequena nota, que deveria ser uma grande nota, sobre esta condecoração, é a de que conheço o Eduardo desde 1978, quando me fixei na Madeira durante um período de cinco anos. Ele, o António Plácido, a Bernardete Andrade, o António Assunção e outros ajudaram-me a construir um núcleo que, mesmo depois da minha partida, em 1982, continuou o seu percurso durante mais de 50 anos. A todos eles, e em memória desse trabalho, deixo as minhas felicitações e o meu agradecimento pelo contributo que deram, de enorme importância, para a minha vida artística, pelo facto de terem continuado e de nunca terem desistido.
Assinalo ainda que este reconhecimento vem de fora, da República, do exterior. Nunca o TEF – agora ATEF – foi homenageado desta forma pelo Governo Autónomo; pelo contrário, a luta pela sobrevivência tem sido longa, espinhosa e dura. Parabéns ao Eduardo e à ATEF/TEF!
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Notas:
1 –A data do incidente – 1 ou 3 de Agosto – diverge segundo as fontes, mas é certo que a referida queda esteve associada à idade do ditador, que já tinha 80 anos.
2 – Como nos informa a RTP Ensina, a “gravidade não foi percebida de imediato e só dias depois o Presidente do Conselho foi visto por médicos que, alarmados, avançaram de imediato com uma cirurgia à zona do crânio, onde era bem visível um hematoma”.
3 – Regista Carlos Ramos, na sinopse do filme: “Portugal, 1968. Salazar, o ditador fascista que no mundo mais tempo esteve no poder, cai de uma cadeira e tem um AVC. Quando volta ao palacete de São Bento para convalescer, já não é Presidente do Conselho. Mas ninguém lhe contará a verdade: nem a fiel governanta Maria de Jesus, nem as solícitas criadas Aparecida, Socorro e Teresinha, nem o seu médico pessoal.
4 – Excerto do “Poema para Galileo”, de António Gedeão, in “Linhas de Força”.
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25/06/2026