Nevada e Arizona: contrastes no deserto 

 Nevada e Arizona: contrastes no deserto 

Las Vegas, Nevada, nos Estados Unidos da América. (Créditos fotográficos: Julian Paefgen – Unsplash)

Sou particularmente resistente aos lugares onde há casinos. Não me atraem, não me fisgam, sou imune às suas perfídias, aos seus acenos de ganhos enquanto geram perdas a todos os seus frequentadores. Eu já conhecia Atlantic City, voltada para o Atlântico, a leste. Seus seis casinos não chegaram a incomodar-me, porque andei a caminhar no “boardwalk”, fazendo uma paragem no Steel Pier e uma outra no farol: o Absecon Lighthouse. De resto, usei o hotel para descansar e ler, inteiramente indiferente à actividade de casino que nele existia.

Las Vegas (Créditos fotográficos:  Lindsey Sais – Unsplash)

Tanto o quarto como a orla conferiram-me muita paz. Já Las Vegas, no Oeste, pareceu-me demasiado incômoda durante todo o tempo da minha visita.  Essencialmente espalhafatosa, supostamente elegante, mas vulgar. Estar num lugar por onde se sai do Cairo e se chega, em poucos passos, a Nova Iorque, Paris, Roma, Veneza, o Taj Mahal e a Mandalay, idealizados como sugestões ordinárias, pode vir a agradar aos ludomaníacos, àqueles que buscam umas tantas ofertas para tentarem obter boa sorte; o que não era o meu caso.

Las Vegas, nos EUA. (Créditos fotográficos: Dustin Bowdige –
Unsplash)

Experimentei alguma má sorte na cidade. Logo à chegada, cobraram-me cem dólares na recepção do hotel. Alegaram que eu estaria a entrar num “resort”. Tal taxa não foi cobrada a mais ninguém; aparentemente, fora eu o ”sortudo” da vez.  Estranhei o ambiente: carpetes malcheirosas, ares nicotinados, um ruído permanente de “pinballs”, criaturas de olhos fixos nas máquinas, desolações pelos infortúnios em série…

Chovia. Arrisquei sair e caí no chão escorregadio da Strip. No outro dia, errei o caminho e fui parar a uma das entradas de um ducto que leva às galerias subterrâneas, exactamente onde moram os sem-abrigo da cidade, um submundo perigoso. Fui salvo por alguém numa limousine, decorada internamente com néons, com música alta e garrafas de champanhe usadas. Fui deixado bem defronte das águas do Bellagio, dançantes como os seus observadores. E a chuva voltou.

Casino – máquinas de “pinball”. (reddit.com/r/pinball)

No terceiro dia, tive a minha bolsa de compras (roupas: era dia de Black Friday!) surrupiada numa loja. Sem poder contar com qualquer apoio da loja, tive de ver as suspeitas evadirem-se pela porta de saída, extasiadas pelo malfeito, incólumes. Diz-se que o que sucede em Vegas permanece em Vegas. Todo pecado é perdoado. Na Sin City, inclusive, toda e qualquer expectativa de garantias de segurança ou de reparo tornam-se “fake”. Sobeja um ilusionismo.

São mais de 150 casinos frequentados por gente falida ou que conhecerá a falência. A boa sorte é tão ilusória quanto a sensação de estar a ser conduzido numa gôndola por um tenor a cantar “O sole mio”. Vi um casal casado numa capela “fake” experimentando tal êxtase. Mais adiante, no Silverton, encontrei uma sereia viva. A água que vem da Hoover Dam é o bastante até para haver chuvas artificiais a soltarem-se de um céu (pintado) dantes azul. Um tecto que abre e fecha.

Vista aérea da Barragem Hoover, no Nevada-Arizona. (en.wikipedia.org)

Sou obsequiado com um folheto que me convida a voar como um super-herói em Freemont Street, até aos limites daquele letreiro “kitsch” do Golden Nugget. Minha passagem é interrompida mais à frente por alguns Elvis, bailarinas de cancã, a caminho do Circus. Enfim: Vegas é uma extravagancia “kitsch”. “Conspicuous” – não oculta o seu âmago de caça-níqueis, busca e mostra dinheiro, ostensivamente.  

Grand Canyon, no Arizona, EUA. (Créditos fotográficos: Steve Gribble – Unsplash)

Não gostei do lugar. Mas o Oeste reservava-me outras perspectivas. De súbito, encontrei-me no Grand Canyon. Imantado pelo cenário natural. O desfiladeiro e os cânions pareciam-me tão bonitos que cheguei a perguntar-me se seria capaz de deixar tudo aquilo para trás. No entanto, tudo é partida. Até o rio, um dia, partiu de lá. Àquele colosso ficaria na memória. Antes de voltar a Nevada, quis conhecer, no Arizona, uma cidade fantasma: Oatman. Nos inícios do século XX, formou-se uma vila dada à febre do ouro, um acampamento de mineiros. Findo o ouro, toda a gente se evadiu; porém, deixaram para trás os jumentos que utilizavam para transportar as cargas. Estes adaptaram-se e multiplicaram-se. Os seus descendentes são vistos hoje naquele cenário de filme de “western” e clamam por cenouras, que lhes são dadas pelos visitantes.

No meio do deserto, uma cidade fantasma virou o paraíso dos burros: Oatman. (Foto de divulgação – comprerural.com)

As pessoas vão até lá para os ver, e há uma apresentação diária de bangue-bangue para efeitos de incremento turístico. De resto, é um lugar fantasma. Não sem vida, porque há lá os jumentos. Desafiam o esquecimento – acostumaram-se ao movimento perdulário das pessoas. Quando a noite chega, não ficam desolados:, o silêncio e as estrelas são a melhor companhia. Já lhes basta o vaivém das pessoas durante o dia. Menos mal: faltam habitantes, contudo nunca faltam cenouras. São criaturas de sorte!  

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26/10/2026       

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Lúcio Marques Ferreira

Lúcio Marques Ferreira Filho é um brasileiro com ascendência portuguesa. Nas suas próprias palavras, “herdou do pai não apenas o nome, mas também uma inusitada situação cultural e idiomática: soa excessivamente português para ser brasileiro e excessivamente brasileiro para ser português”. Escritor tardio, publicou aos cinquenta anos o livro de contos “Êxodos, Encontros e Desencontros” (Funalfa Edições, em 2004), a que se seguiu o livro de crónicas “Cidades Visíveis” (Martyria, em 2021). A obra “Cá entre Nós” é o seu primeiro romance (Imprensa Nacional Casa da Moeda, em 2025). Com a rubrica “Flanar é preciso!”, Lúcio Marques Ferreira assume-se como “um marinheiro que estará a contar estórias, aportando com bandeiras filosóficas, sociológicas, antropológicas e identitárias, que não foram deixadas de lado no mastro da nau”.

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