Numa corrida desenfreada pela transparência
(Créditos de imagem: Sasun Bughdaryan – Unsplash)

A comunicação política contemporânea parece enredada num estado de permanente inquietação que não deriva da substância dos atos, nem do seu efetivo potencial de aceitação pública, mas, antes, de uma antecipação ansiosa das reações que determinadas formas de apresentação poderão suscitar no auditório. Não é, aliás, necessário ir longe para encontrar expressões particularmente elucidativas deste impulso de exposição: basta olhar para o Governo português. De memória, sem recurso a qualquer apontamento, surgem o insólito vídeo de António Leitão Amaro – em que, de forma coreografada, rói as unhas e simula uma gestão frenética de chamadas – e uma comunicação apressada, difundida à hora de jantar, destinada a anunciar os resultados de uma operação policial que não apreendeu uma única arma.
O denominador comum destes episódios reside, antes de mais, na peculiar incapacidade de calibrar o tempo da publicação – nenhuma das comunicações foi particularmente sucedida, em larga medida, por este desajuste. A isto soma-se uma gestão equívoca da verdade: o espaço comunicativo tende a ser ocupado não pelos factos em si, mas pelas narrativas que sobre eles se constroem e pelas perceções que se propagam nas redes sociais, frequentemente desligadas da materialidade dos acontecimentos. Estamos, por conseguinte, perante uma crise – e não será excessivo designá-la como tal. Mas não perante uma crise qualquer, já que esta revela um sintoma mais profundo do nosso tempo: a progressiva conversão da política num teatro de visibilidade pura.

Se é de transferência que se trata, convoquemos o pensamento de Byung-Chul Han e a sua obra “Sociedade da Transparência” (de 2012). Neste ensaio, que já leva mais de uma década, o filósofo coreano traça os contornos de um regime social que já não se estrutura segundo a lógica disciplinar ou o modelo panóptico do controlo, mas, principalmente, sob a forma de uma violência positiva, difusa e imanente, que impele à exposição integral. Tudo deve ser tornado visível, comunicável e circulável – dos gestos às intenções, dos dados aos afetos. O diagnóstico é claro: a transparência constitui a configuração de um novo tipo de totalitarismo. Mas evidentes são também as implicações, uma vez que esta proliferação de transparência corrói a confiança, ao dissolver a negatividade indispensável à preservação do íntimo, do secreto e, em última instância, da própria esfera política. Neste quadro, a verdade – densa, opaca, frequentemente desconfortável – perde centralidade. Em seu lugar, impõe-se o imperativo da visibilidade imediata, do brilho superficial da exposição contínua. A ação política deixa de se ancorar na governação para se converter numa prática performativa. E o político, reduzido ao que ainda conserva de propriamente político, troca a governação pela encenação.

No domingo passado, dia 5 de abril, Luís Montenegro corporizou esta deriva com uma clareza quase pedagógica. O atual primeiro-ministro participou num vídeo de feição intimista, com o propósito de assinalar dois anos de governação. A exibição, nada informativa, parece até algo desajeitada e forçada, ainda que a preocupação capital se orientasse para o único imperativo destes tempos: transparência, transparência, transparência. Tomado isoladamente, o registo poderia ter passado despercebido – como tantos outros de natureza semelhante ao longo deste mesmos dois anos. O problema emerge, porém, no interior desta mesma corrida à transparência: no mesmo dia em que o Ministério da Administração Interna emitia um “apelo muito forte” à segurança rodoviária, no âmbito da Operação Páscoa – já então marcada por 18 vítimas mortais e mais de dois mil acidentes nas estradas portuguesas –, Montenegro surge no vídeo sem cinto de segurança. A um conteúdo que já não configurava um ato de comunicação substantiva, mas, sim, uma sucessão algo errática de ensaios orientados pela busca incessante de visibilidade, soma-se uma infração rodoviária. Não se trata de a amplificar desmesuradamente, mas tão-pouco de a desvalorizar, sobretudo atendendo ao comportamento exemplar que se deve exigir de quem protagonizou a cena.

automóvel em andamento, num vídeo divulgado pelo Governo, nas
redes sociais. (expresso.pt)
Com a inflexão irónica que o acaso lhe conferiu, este exemplo serve para sublinhar um traço característico da corrida à transparência: na ânsia de encarnar a figura do “porreiraço”, do “amigalhaço”, do vizinho do lado, os políticos acabam, não raras vezes, por se afastar daquilo que define a sua própria condição – a de políticos. Isto, na medida em que o político transparente se vê compelido a abolir a dúvida em público, a evitar a confissão do não-saber e a expor até o que, outrora, pertencia à esfera resguardada da sua vida. O resultado é uma relação profundamente problemática com a sua própria essência: quando tudo deve ser exibido, aquilo que verdadeiramente importa tende a ser negligenciado ou apenas tocado de forma errática. Em seu lugar, impõe-se um tecido discursivo maleável, instantâneo e plástico, moldado pelas exigências incessantes da visibilidade contínua.

cultural nascido na Coreia do Sul e radicado na Alemanha.
(x.com/Byung_ChulHan)
Estes tempos da comunicação política podem ser lidos, à luz do pensamento de Byung-Chul Han, como a expressão paradigmática do político pós-moderno. Atente-se, desde logo, no seguinte paradoxo: enquanto Luís Montenegro se empenha em projetar uma imagem de máxima transparência perante a sociedade, a Entidade para a Transparência assinala as dificuldades que o próprio evidencia em cumprir, de forma substantiva, este mesmo princípio. A evidência empírica parece corroborar a intuição de Han: uma sociedade orientada para a transparência total tende a converter-se numa sociedade da performance, em que a exposição substitui a substância e a visibilidade suplanta o conteúdo. Em muitos contextos, esta lógica passa incólume; no caso português, nem sequer a “performance” tem logrado cumprir o seu propósito.
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09/04/2026