O barão e o capitão

 O barão e o capitão

(Créditos fotográficos: christophpeters_net – Pixabay)

A estátua que não quer descer do pedestal

Há livros que nos ficam na memória como certas paisagens vistas da janela de um comboio antigo: não sabemos se as recordamos ou se as inventámos, mas continuam a acenar-nos ao longe. “Viagens na Minha Terra” é um desses livros. Da infância, guardo sobretudo duas figuras: Joaninha, a menina dos rouxinóis, e Carlos, o rapaz que partiu pobre, regressou barão e perdeu pelo caminho o encanto que o povo lhe tinha oferecido sem pedir nada em troca.

(Direitos reservados)

Joaninha era a pureza que não se compra; Carlos, a grandeza que se paga caro. E, talvez por isso, quando penso no romance, não me lembro tanto da intriga, mas dessa sensação amarga de ver alguém regressar maior – e, no entanto, menor.

E é aqui que a literatura, sempre generosa, me oferece uma ponte para o presente. Porque também, no nosso futebol, há um Carlos moderno, um herói que partiu pobre, conquistou mundos, ergueu troféus, acumulou glória e ouro. E que agora regressa sempre – não à terra, mas ao relvado – com a mesma aura de barão, embora já sem o fulgor que o fez príncipe.

(Créditos fotográficos: Colin + Meg – Unsplash)

Não digo o nome. Não é preciso. Em Portugal, basta dizer “o capitão” e o país inteiro olha para o mesmo pedestal.

O problema é que o pedestal já não assenta no presente. Hoje, nenhum clube de topo o quer. Hoje, a seleção está cheia de jovens disputados pelos melhores clubes da Europa. Hoje, o futebol mudou de velocidade – e ele insiste em correr com a memória.

(Créditos fotográficos: Norbert Oriskó – Pixabay)

Mas o selecionador e a Federação Portuguesa de Futebol, esses, continuam ajoelhados perante a estátua. Não por devoção, mas por hábito. E talvez também por negócio. A aura do passado rende mais do que o rendimento do presente. E assim se prolonga o mito, mesmo quando o mito já pede descanso, como um velho cavaleiro que insiste em montar o cavalo depois de o cavalo ter percebido que o cavaleiro já não aguenta a sela.

Há nisto uma tristeza que não é só desportiva: é humana. Carlos, o barão de Almeida Garrett, regressou à terra e achou-se estrangeiro no próprio lugar. O nosso capitão regressa sempre ao campo, mas encontra-se estrangeiro no próprio jogo.

(Créditos fotográficos: Portuguese Gravity – Unsplash)

E nós, espectadores, ficamos divididos entre a gratidão e o embaraço. Queríamos vê-lo sair pela porta grande, mas ele insiste em testar a resistência das dobradiças.

No fim, talvez a grandeza esteja menos em prolongar a lenda do que em saber quando deixá-la repousar. Joaninha, se pudesse, dir-lhe-ia com aquela doçura firme que só ela tinha: “Vai, Carlos. A tua história já está escrita. Não a estragues com notas de rodapé.”

E nós, que não somos Joaninha, ficamos apenas a torcer para que o capitão encontre a coragem que falta aos que o rodeiam: a coragem de parar antes que o tempo o pare.

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18/06/2026

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José Afonso Baptista

José Afonso Baptista é doutorado em Ciências da Educação. Como professor e autor, o seu foco está na organização das aprendizagens, de acordo com os princípios da equidade, da diversidade e da inclusão, numa Escola Autónoma, responsável pela eficácia, pelo sucesso e pela felicidade de todos os seus alunos. Como investigador, deu especial relevo à Educação de Surdos, tema da sua tese de doutoramento e de vários artigos em revistas da especialidade. A sua obra publicada está referenciada no seu ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2107-1997. Merece especial destaque “Dogmas e Fantasmas da Escola”, obra publicada pela Lisbon International Press, em 2026. José Afonso Baptista foi professor destacado (pelo Instituto de Meios Audiovisuais de Educação – IMAVE) na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, além de ter sido metodólogo no antigo Liceu Normal D. João III (atual Escola Secundária José Falcão, em Coimbra), coordenador da Equipa de Apoio Pedagógico (EAP) da região Centro, consultor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para Educação em Angola e em São Tomé e Príncipe, bem como diretor regional de Educação do Centro, diretor da Educação da Fundação Bissaya Barreto e professor convidado da Universidade Católica Portuguesa. Foi, igualmente, membro do conselho consultivo de várias instituições públicas.

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