O barão e o capitão
(Créditos fotográficos: christophpeters_net – Pixabay)
A estátua que não quer descer do pedestal
Há livros que nos ficam na memória como certas paisagens vistas da janela de um comboio antigo: não sabemos se as recordamos ou se as inventámos, mas continuam a acenar-nos ao longe. “Viagens na Minha Terra” é um desses livros. Da infância, guardo sobretudo duas figuras: Joaninha, a menina dos rouxinóis, e Carlos, o rapaz que partiu pobre, regressou barão e perdeu pelo caminho o encanto que o povo lhe tinha oferecido sem pedir nada em troca.

Joaninha era a pureza que não se compra; Carlos, a grandeza que se paga caro. E, talvez por isso, quando penso no romance, não me lembro tanto da intriga, mas dessa sensação amarga de ver alguém regressar maior – e, no entanto, menor.
E é aqui que a literatura, sempre generosa, me oferece uma ponte para o presente. Porque também, no nosso futebol, há um Carlos moderno, um herói que partiu pobre, conquistou mundos, ergueu troféus, acumulou glória e ouro. E que agora regressa sempre – não à terra, mas ao relvado – com a mesma aura de barão, embora já sem o fulgor que o fez príncipe.

Não digo o nome. Não é preciso. Em Portugal, basta dizer “o capitão” e o país inteiro olha para o mesmo pedestal.
O problema é que o pedestal já não assenta no presente. Hoje, nenhum clube de topo o quer. Hoje, a seleção está cheia de jovens disputados pelos melhores clubes da Europa. Hoje, o futebol mudou de velocidade – e ele insiste em correr com a memória.

Mas o selecionador e a Federação Portuguesa de Futebol, esses, continuam ajoelhados perante a estátua. Não por devoção, mas por hábito. E talvez também por negócio. A aura do passado rende mais do que o rendimento do presente. E assim se prolonga o mito, mesmo quando o mito já pede descanso, como um velho cavaleiro que insiste em montar o cavalo depois de o cavalo ter percebido que o cavaleiro já não aguenta a sela.
Há nisto uma tristeza que não é só desportiva: é humana. Carlos, o barão de Almeida Garrett, regressou à terra e achou-se estrangeiro no próprio lugar. O nosso capitão regressa sempre ao campo, mas encontra-se estrangeiro no próprio jogo.

E nós, espectadores, ficamos divididos entre a gratidão e o embaraço. Queríamos vê-lo sair pela porta grande, mas ele insiste em testar a resistência das dobradiças.
No fim, talvez a grandeza esteja menos em prolongar a lenda do que em saber quando deixá-la repousar. Joaninha, se pudesse, dir-lhe-ia com aquela doçura firme que só ela tinha: “Vai, Carlos. A tua história já está escrita. Não a estragues com notas de rodapé.”
E nós, que não somos Joaninha, ficamos apenas a torcer para que o capitão encontre a coragem que falta aos que o rodeiam: a coragem de parar antes que o tempo o pare.
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18/06/2026