O dia em que Gouveia e Melo perdeu a face
Henrique Gouveia e Melo (pt.wikipedia.org) e Jorge Pinto (partidolivre.pt).
Estávamos já nos minutos finais do debate entre Gouveia e Melo e Jorge Pinto quando algo inesperado aconteceu: Gouveia e Melo perdeu a compostura. O momento foi desencadeado por uma pergunta sobre a recente declaração de José Sócrates – que, horas antes, afirmara que votaria em Gouveia e Melo como gesto contra a extrema-direita.

A afirmação, surpreendente tanto pela origem quanto pelo peso simbólico, causou no espaço público alguma estranheza. Era, portanto, previsível que Gouveia e Melo fosse confrontado com ela. Menos previsível – e mais revelador – foi o modo como respondeu: com enfado, irritação e uma tentativa brusca de encerrar o assunto, classificando a pergunta como “deslocada”, “provocatória”, “espuma dos dias” e “politiquice”.
Suponho que a equipa de comunicação de Gouveia e Melo, que o vem – com visível empenho, afinco e presumível persistência – moldando para todo e qualquer momento televisivo, não tenha tido oportunidade de preparar este em concreto.
À primeira vista, poder-se-ia interpretar o gesto como uma tentativa espontânea de afastar uma figura politicamente tóxica. Mas o que, realmente, ficou exposto foi a fragilidade de uma “performance” pública que até aqui procurara transmitir serenidade, autoridade e domínio de cena. É precisamente nesta fissura que a tese do sociólogo Erving Goffman se torna iluminadora.

Para Goffman, a vida pública assemelha-se a um palco onde cada ator procura manter uma face – uma imagem coerente, digna e credível perante o público. Essa face, mais do que a simples aparência ou um adereço, é o alicerce do papel social que se desempenha. Quando algo a ameaça, o indivíduo é chamado a gerir o momento com subtileza, tacto e presença. E quando não o faz, não revela apenas um estado emocional: compromete por inteiro a credibilidade da personagem que representa.
No debate, Gouveia e Melo enfrentou um momento de potencial ameaça de face. Para preservar a sua imagem presidencial, teria bastado um gesto de serenidade e leveza – um afastamento elegante, um reconhecimento diplomático ou um simples “não pretendo alimentar este tema”. Em vez disso, optou pelo caminho mais arriscado: o da irritação. Ao fazê-lo, deixou entrever fissuras na personagem que vinha cuidadosamente construindo.
Como diria Goffman, não é a pergunta que expõe um político, mas a forma como ele a encara. No final, não foi Sócrates – ou sequer o moderador – quem perturbou o debate. Foi Gouveia e Melo, que, por instantes, deixou cair a máscara e exibiu aquilo que o cargo a que concorre menos tolera: a incapacidade de transformar o incómodo em dignidade.

ciências sociais. (biografiaresumida.com.br)
P. S.: Não me sai da cabeça Paulo Portas e o episódio em que foi confrontado por um transeunte que lhe disse: “Nunca votei, mas fá-lo-ei por você; é o mais parecido que há com Salazar.” Portas respondeu algo como: “Meu amigo, não estou em condições de recusar votos; todos são bem-vindos.”
Eis a diferença, quase pedagógica, entre um político – no sentido técnico e profissional do termo; políticos, já lembrava Max Weber, todos somos – e alguém que, por mais que se esforce, ainda não o é.
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Nota do Director:
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04/12/2025