O doce perfume de Isabel Ruth

 O doce perfume de Isabel Ruth

Isabel Ruth, em 23 de Setembro de 2011. (arquivos.rtp.pt)

“Português Suave” é o álbum que torna públicas as canções escritas e compostas por Isabel Ruth, figura singular do cinema português e europeu. É, de facto, o disco de estreia da actriz, com 84 anos. Produzido e dirigido musicalmente por Agir, o “vinil” regista o doce perfume de poemas que escreveu e a que deu voz junto do seu núcleo mais íntimo.

Imagem do álbum “Português Suave”, que assinala a estreia da actriz,
aos 84 anos, como cantora. (e-cultura.pt)

Isabel Ruth é apaixonada por música. Desde tenra idade. E bem cedo, também, começou a passar para o papel os seus sentimentos, emoções e reflexões da espuma dos dias. A sua já longa vida proporcionou-lhe encontros com artistas e compositores, conhecimento e vivências, que agora partilha com o público. Graças a uma parceria da actriz com Agir, que começou quando o produtor convidou Isabel para cantar consigo a canção “Madalena”, da autoria da artista, no disco “Cantar Carneiros”.

Em entrevista à agência Lusa, Isabel Ruth revela que a música sempre fez parte da sua vida. E recordou, a propósito, que chegou mesmo a ter lições de guitarra. Apesar de ter “desistido” dessas lições, reafirma: “Nunca me separei da guitarra”. Em Ibiza, onde viveu na década de 1970, começou a perceber que, “com muitos poucos acordes, podia fazer canções”.

Isabel Ruth, bailarina, actriz, nasceu em Tomar, a 6 de
Abril de 1940. (hitmanagement.pt)

Agora, com “Português Suave”, Isabel Ruth cumpre um sonho antigo. Graças a canções “muito genuínas, com letras que surgem com melodia e muito significado”. Graças à música que sai do “coração, das entranhas”. “É uma coisa mais para uma pessoa ouvir [com atenção] a letra que está lá”, disse. Para logo revelar que o tema das canções que estão no disco “é sempre o amor”. “Mas não o amor romântico. O amor. O amor que reside em cada um de nós. Quando falo de amor, estou a falar do amor em mim, não do amor por alguém”, explicou e acrescentou: “Na Arte tudo vem do amor, um estado que é pacífico, amoroso, mas pode ser também doloroso”.

Além das letras, a actriz é também autora das melodias, que “são muito simples” e às quais foram, depois, adicionados os arranjos, que são como “a folhagem que se junta às rosas num bouquet”. Estar viva e “relativamente saudável, porque ninguém está completamente saudável”, foi a conjugação de factores que possibilitou a edição deste seu primeiro disco. Apesar de não se assumir como cantora: “Não tenho grande voz, eu sei, tenho pouca voz – mas, se a vida voltasse atrás, gostava de ter sido.”

Capa do livro de João Bénard da Costa. (Direitos
reservados)

Isabel Ruth fez teatro e faz cinema. Representou Fernando Pessoa, Nikolai Gogol e Marguerite Duras. Foi dirigida por Manoel de Oliveira, António de Macedo, Fernando Lopes, José Álvaro Morais, Margarida Gil, João Botelho, Teresa Villaverde, Cláudia Varejão e Paulo Rocha. Foi amiga de Pier Paolo Pasolini (1922-1975) e de Bernardo Bertolucci (1941-2018). Foi dirigida por Pasolini em “Édipo Rei “ (em 1967) e protagonizou duas longas-metragens (uma delas foi “Il Retorno”, realizada por Leonello Messório, e a outra foi “H2S”, de Roberto Faenza (no ano de 1943). Em Itália, também fez teatro, designadamente “Il Ricatto all Teatro”, de Dacia Maraini (em 1936), ao lado de Laura Betti (1927-2004).

Isabel Ruth no filme “Os Verdes Anos”, que marca a estreia de Paulo Rocha e o início do Cinema Novo Português. (rtp.pt)

Premiada, homenageada na Cinemateca com um ciclo em seu nome e com o livro “A Vida Dupla de Isabel Ruth” (em 1996), da autoria de João Bénard da Costa, a actriz, que na sua juventude foi bailarina, oferece-nos agora este “Português Suave” recheado de amor. Ouça aqui a canção “Nunca Finjo”, que integra este disco.

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Fontes consultadas: Agência noticiosa Lusa, Cinemateca Portuguesa e Wikipedia.

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11/11/2024

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Soares Novais

Porto (1954). Autor, editor, jornalista. Tem prosa espalhada por jornais, livros e revistas. Assinou e deu voz a crónicas de rádio. Foi dirigente do Sindicato dos Jornalistas (SJ) e da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto (AJHLP). Publicou o romance “Português Suave” e o livro de crónicas “O Terceiro Anel Já Não Chora Por Chalana”. É um dos autores portugueses com obra publicada na colecção “Livro na Rua”, que é editada pela Editora Thesaurus, de Brasília. Tem textos publicados no "Resistir.info" e em diversos sítios electrónicos da América Latina e do País Basco. É autor da coluna semanal “Sinais de Fogo” no blogue “A Viagem dos Argonautas”. Assina a crónica “Farpas e Cafunés”, na revista digital brasileira “Nós Fora dos Eixos”.

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